Poder, afeto e polêmica

Poder, afeto e polêmica

» GABRIELA FREIRE VALENTE
postado em 30/04/2017 00:00
 (foto: Mandel Ngna/AFP)
(foto: Mandel Ngna/AFP)

; GABRIELA FREIRE VALENTE

Quando Donald Trump começou a formar a equipe de governo, o grau de influência que os seus numerosos e polêmicos conselheiros teriam na Casa Branca esteve no centro do debate sobre a nova gestão. Depois de o republicano completar 100 dias à frente da Presidência dos Estados Unidos, figuras como o estrategista-chefe Steve Bannon e a assessora Kellyane Conway têm perdido prestígio para os fortes laços profissionais e familiares do presidente com a filha Ivanka e o genro, Jared Kushner. Em meio às dificuldades enfrentadas pelo jovem governo Trump, o poder da dupla no coração do Executivo americano se fortaleceu, ao ponto de os dois serem incluídos na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo da revista Time. Apesar de as posições moderadas do casal serem vistas como um elemento estratégico para a sobrevivência política do presidente, o recrutamento do casal alimenta acusações sobre conflito de interesses e nepotismo.

Desde a campanha eleitoral, Ivanka e Kushner estiveram envolvidos em importantes tomadas de decisões. O próprio Trump chegou a elogiar publicamente as suas habilidades. O genro do magnata foi o primeiro da dupla a ser recrutado para trabalhar na Casa Branca como conselheiro sênior. Em 29 de março, o governo norte-americano anunciou que Ivanka passaria a fazer parte, em caráter oficial, do quadro do Executivo, na função de assistente do presidente. A decisão foi apresentada como uma tentativa de sanar preocupações sobre a participação da filha mais velha de Trump nas atividades governamentais e atender às regras de ética da administração federal.

Embora críticos ao governo torçam o nariz para a ;contratação;, entidades que supervisionam a conduta de membros da administração pública elogiaram a decisão de oficializar o trabalho de Ivanka na Casa Branca. ;Isso significa que, como outros funcionários da Casa Branca, a senhora Trump será requisitada a preencher formulários de divulgação financeira no Escritório de Ética do Governo e será obrigada a cumprir as regras de conflitos de interesse financeiro;, observou a organização Democracy 21.

O fato de Ivanka e Kushner terem abandonado cargos de comando em suas respectivas companhias não foi o bastante para afastar a desconfiança sobre o papel de ambos no governo. A empresa da família do conselheiro e genro do presidente desistiu de fechar negócio com chineses, em meio a questionamentos sobre conflito de interesses. Enquanto o casal tomava medidas para afastar suspeita de choque ético, o Departamento de Justiça rebateu criticas sobre o envolvimento de familiares do presidente no governo, ao observar que as leis antinepotismo não se aplicam à Casa Branca, pois a instituição não é uma ;agência governamental;.

Parceria estratégica

Para Lori Con Han, cientista política da Chapman University, os cuidados tomados pela equipe do presidente não serão capazes de dissipar os questionamentos, devido à extrema polarização do ambiente político americano. No entanto, simpatizantes veem as medidas como ;bom movimento estratégico;. ;Não é surpresa que Trump se apoie na filha e no genro. Ele não tem experiência política; nunca trabalhou com conselheiros dessa capacidade em sua carreira;, pondera. ;Ivanka e Jared são pessoas de seu círculo mais próximo nas quais pode confiar. Ivanka pode ser a única a lhe dar conselhos sinceros sem importarem as circunstâncias.;

Embora Kushner esteja envolvido em algumas das mais desafiadoras questões do governo ; ele foi descrito pelo jornal The Washington Post como um ;secretário de Estado das sombras;, visitou o Iraque antes do titular da pasta e foi apontado como um dos responsáveis pelo afastamento de Bannon do Conselho de Segurança Nacional ;, a posição de Ivanka é das mais influentes da Casa Branca. ;Ainda veremos o quão poderosa ela será. No entanto, tenha isso em mente: você pode demitir um assistente e um chefe de gabinete, mas não uma filha. E esse título Ivanka carregará pela vida;, observa Doug Wead, ex-conselheiro da gestão George H. Bush e autor de All The President;s Children.

Descrita como ;os olhos e os ouvidos; de Trump, a primeira-filha possui qualificações que justificam a sua participação na empreitada política do pai. Além de ser formada em economia e de ter demonstrado desenvoltura para lidar com a opinião pública, os posicionamentos moderados de Ivanka são vistos como algo salutar para a gestão conservadora do presidente. ;Ivanka é um trunfo estratégico para o pai. A presença dela nas redes sociais é bastante diferente, com um toque mais sutil. Ela também se mostra ótima porta-voz para certas questões políticas relacionadas às mulheres;, observa Han.


A preparação
de Melania
Enquanto Ivanka Trump e Jared Kushner exercitam o seu poder de influência na Casa Branca, a primeira-dama Melania começa a se habituar à nova rotina ao lado de Donald Trump. Ao longo dos primeiros 100 dias de governo do magnata, a ex-modelo eslovena se manteve mais distante dos holofotes do que Ivanka, levando analistas a observarem que a filha mais velha do presidente preencheu o papel da primeira-dama em algumas ocasiões.

Ivanka é uma das figuras mais populares na administração Trump ; uma pesquisa elaborada pela Morning Consult a pedido do jornal Politico mostra que 46% dos americanos têm uma visão positiva sobre ela, a melhor avaliação entre os membros da equipe presidencial ; e esteve envolvida em reuniões de alto nível desde o primeiro dia de governo. A jovem participou de encontros com líderes internacionais, como o premiê japonês, Shinzo Abe, e a chanceler alemã, Angela Merkel. Ela tem auxiliado o pai a desenvolver políticas de incentivo à liderança feminina no mercado de trabalho.

;De algumas formas, Ivanka atua como primeira-dama, uma vez que Melania não está em Washington;, observa Lori Con Han, cientista política da Chapman University. ;Isso pode mudar quando Melania se transferir para a Casa Branca, embora seja esperado que ela não desempenhe um papel tão público quanto as últimas primeiras-damas;.
Apesar de continuar a viver em Nova York, Melania participou das mais recentes visitas de Estado à Casa Branca e acompanhou as esposas de líderes estrangeiros. Segundo o jornal Washington Examiner, a primeira-dama tem se preparado para ser ativa a partir de maio. Ela estaria recebendo treinamento para lidar com a imprensa e melhorar a oratória.

Discurso

Ontem à noite, Trump falou sobre os 100 dias de seu governo, durante comício em Harrisburg, na Pensilvânia. Garantiu ter feito ;imenso progresso; e cumprido com promessas de campanha. Mais uma vez, não poupou a imprensa. ;A CNN e a MSNBC divulgam notícias falsas, e adorariam estar conosco hoje, mas estão presos no jantar, que será tremendamente enfad

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