Tome as rédeas da vida

Tome as rédeas da vida

Terapeutas e profissionais de coaching usam os cavalos como instrumentos para analisar o bicho- homem. Montado no lombo do animal, ou mesmo na tentativa de domá-lo, é possível superar traumas e se conhecer mais profundamente

Por Amanda Ferreira e Marília Padovan (*)
postado em 30/04/2017 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Por Amanda Ferreira e Marília Padovan (*)Aposta-se que eles galopam sobre a Terra há cerca de 50 milhões de anos. Até hoje, porém, os cavalos são vistos por muita gente apenas como animais de competição ou como peças-chaves na rotina das fazendas. Apesar do grande porte, no entanto, podem ser criaturas dóceis que, a partir do convívio com o homem, desenvolvem algumas características que contribuem para o bem-estar e a qualidade de vida de quem tem contato com eles. Na cidade grande, eles não são parceiros de labuta, mas podem ser instrumentos para alcançar o autoconhecimento e promover uma reflexão profunda de si mesmo. Terapeutas e coachings estão usando os cavalos como alternativas para que as pessoas fujam dos tradicionais consultórios e descubram, ao ar livre, emoções, medos e traumas escondidos que precisam ser trabalhados.

Mas por que colocar isso em prática com o auxílio de cavalos? Parece estranho, mas especialistas têm a resposta na ponta da língua. Médica veterinária e especialista em equinos, Bruna Patrícia Siqueira explica que os animais são selecionados para esse fim pela personalidade. Estudos comprovam que, assim como os humanos, os cavalos utilizam músculos do nariz, dos olhos e dos lábios para alterar suas expressões faciais diante de diferentes situações. Além disso, por serem animais sensitivos, captam com facilidade as emoções de quem dita seus movimentos. E é justamente nesse momento que se cria o vínculo entre o bicho e o ser humano.

A morfologia e a andadura do animal também atendem à necessidade individual de cada praticante, transformando o processo terapêutico, ao lado deles, em algo único para quem o experimenta.

Assim, esses quadrúpedes funcionariam como um espelho, refletindo as questões internas de quem está buscando respostas para dramas pessoais. ;O principal meio de comunicação com o cavalo é pela linguagem corporal, o que estreita ainda mais a relação homem versus cavalo. Eles são animais com capacidade de distinguir expressões faciais e emoções transmitidas pelos humanos;, completa a veterinária.

Para Thailyne Gazzetta, psicóloga cognitivo-comportamental, todo processo de terapia com equinos pode ser ineficaz caso não haja harmonia de sentimentos entre o cavalo e quem o conduz, um aprendizado que é levado em conta não só no redondel (arena de treinos), mas também em relações interpessoais. ;É preciso estar bem consigo mesmo para transmitir isso ao animal e também às pessoas com que se convive. Se você subir no cavalo nervoso, também vai deixá-lo assim. Precisamos nos ajustar uns aos outros, e esse ensinamento vale para a vida.;

As terapias com cavalos podem melhorar, além da autoestima, a autoconfiança, o autocontrole e a autonomia. O estímulo cognitivo e psicomotor que os animais proporcionam aos humanos ajuda na inserção ou na reinserção social, e traz a sensação de bem-estar que muitos procuram alcançar no dia a dia. O resultado seria, então, completar o tratamento de depressão, transtorno pós-traumático, autismo, redução do estresse.

Em Brasília, é possível algumas opções dessas terapias. A Sociedade Hípica de Brasília e a Associação Nacional de Equoterapia (Ande-Brasil), por exemplo, disponibilizam tratamentos com cavalos adestrados que visam o bem-estar físico ou emocional dos homens. Trabalhar a liderança, a autoconfiança e o espírito de competição estão entre os objetivos de algumas pessoas que procuram os métodos. Equipes treinadas põem em ação atividades e dinâmicas que fazem com que os alunos sintam na pele experiências e sentimentos com os animais que também podem ser vivenciados com seus iguais, diariamente, em diferentes ocasiões.

(*) Estagiárias sob a supervisão de Flávia Duarte

Descobrindo um líder

Quando se pensa em desenvolver habilidades de liderança, nem de longe passa pela cabeça da maioria das pessoas a ideia de utilizar um cavalo para atingir tal meta. Mas, para quem é apaixonado pelo animal, como é o caso do coordenador e consultor do programa de Liderança Natural, Alexandre Ronald, enxerga-se nessa relação a oportunidade de aprender a lidar com as adversidades e as diferenças que surgem no ambiente profissional.

O coaching funciona assim: quem ocupa ou anseia um cargo de prestígio, e quer desenvolver atributos de liderança, pode contar com o cavalo para aflorar pontos positivos e atenuar os negativos que precisam ser lapidados ao longo desse caminho. O objetivo é treinar os alunos para conquistar a liderança do grupo na vida real, usando o cavalo como agente do processo. São dois seres totalmente diferentes, mas com um ponto em comum: a vida em sociedade.

É uma sequência de fases que, primeiramente, envolve uma palestra para que os interessados reconheçam os atributos do líder natural e entendam o porquê da participação do animal. Em um segundo momento, é feito um trabalho de habituação e apresentação aos cavalos. Então, todas as atividades vivenciadas estão relacionadas à impressão que cada um passa ao bicho. A tese é de que a maneira como ele reage à primeira aproximação do participante seria a mesma tida pelas pessoas que convivem com o participante.

Em seguida, são feitos exercícios individuais e em grupo, simultaneamente, em um mesmo ambiente. O aluno entra no redondel, acompanhado do coach e de um cavalo, para executar o passo a passo da pirâmide de liderança ; baseada em aspectos sentimentais, corporais e mentais, como confiança, energia e ética. Enquanto isso, os demais ficam do lado de fora, observando os sinais corporais e emocionais tanto do líder quanto do cavalo. É o que a psicologia chama de ;carona;, ou seja, tirar proveito da experiência do outro para analisar a própria maneira de pensar e agir.

A última fase do curso está baseada na formação de um líder desenvolvedor, já conectado ao cavalo. São realizados alguns exercícios de delegação, nos quais o líder passa comandos ao animal, simulando uma interação profissional. ;A pessoa pode ser um líder natural e, mesmo que não tenha consciência, acaba colocando isso em prática de forma espontânea. Alguns precisam conhecer esses atributos e treinar. Sempre que estabelecemos um relacionamento positivo, temos um processo de liderança ali dentro;, diz Alexandre.

Fato é que os cavalos percebem os atributos de um chefe a partir de atitudes emocionais e motoras dele, e reagem: se o aluno preenche todos os requisitos, o animal o reconhece como líder. Quando isso acontece, uma relação de respeito é estabelecida entre os dois. Caso contrário, o cavalo apresenta comportamentos ansiosos, de fuga e de total de

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