Foco na vitória

Foco na vitória

postado em 30/04/2017 00:00
 (foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)
(foto: Carlos Vieira/CB/D.A Press)

Mesmo montando por 20 anos, a atleta Flávia Mello, 41, começou a se sentir insegura em cima do cavalo. Ansiedade e nervosismo tomaram conta da amazona e tornaram as competições cada vez mais difíceis. Certa de sua paixão pelo hipismo, ela procurou ajuda no coaching de autoconhecimento e viu ali uma saída para suas dificuldades. Depois de superar os medos, a atleta se sentiu impelida a ajudar outros esportistas que vivenciam o mesmo problema.

Assim, ela trouxe para Brasília o coaching mental de performance, que usa os cavalos para preparar emocionalmente ex, atuais e futuros atletas que se sentem amedrontados com a prática do esporte. O foco acaba sendo o público adolescente por dois motivos: além de serem novatos no esporte, estão em uma fase em que vivem tudo com muita intensidade. Outro público-alvo são atletas mais velhos que já não sentem confiança por medo de se machucarem ou de não serem aceitos entre os mais jovens.

Durante as aulas, Flávia utiliza, entre outras coisas, técnicas de psicologia esportiva, com o objetivo de fazer um treinamento de força mental para alcançar a autoperformance no hipismo. A coach explica que, durante as competições, nossas emoções são transmitidas ao animal e, em alguns momentos, os alunos ficam tensos e não conseguem executar a prova. ;O nervosismo é importante porque nos motiva e nos torna mais ativos. É uma reação normal e precisamos usá-la a nosso favor.;

Nos encontros conduzidos por ela, busca-se a ressignificação de alguns aspectos da tensão, própria das disputas esportivas. Para isso, são usadas técnicas de visualização: o aluno pensa no que precisa ser feito ; respiração e ancoragem ;, esquece o que está ao seu redor e se foca na atividade. Exercícios que podem ser realizados durante as provas e em outros momentos da vida. ;As pessoas trazem respostas em relação aos seus medos e os resultados são muito bons. Falo para os meus alunos comemorarem as evoluções e anotarem o que não foi positivo;, explica Flávia.

Para os jovens atletas, as técnicas reforçam o empoderamento em cima do cavalo. Alyssa Zaban, 17, Luiza Alvares, 16, Maria Clara Kramer, 15, e Bruna Boghossian, 17, acreditam que estarem juntas durante as aulas as motiva a continuar montando e lutando contra as inseguranças.

Alyssa, por exemplo, sempre teve uma paixão por esses animais e, quando convenceu a mãe a deixá-la montar, foi surpreendida por não se sentir confiante durante as competições. ;Decidi fazer o coaching porque fico muito nervosa e vejo que isso atrapalha meu desempenho. Faço os exercícios também em casa e em outros momentos da minha vida, como antes das provas de hipismo.; Segundo a jovem, as aulas mudaram não só o jeito que ela enxerga o cavalo, mas também a maneira de montá-lo e a forma como se sente em cima dele. Um bom começo para alcançar o sonho de se tornar uma atleta reconhecida.

Já para Bruna, o hipismo veio de forma natural, uma vez que sua família sempre teve uma relação especial com os cavalos. ;Comecei o coaching porque estava com medo de pular os obstáculos durante as provas. Acredito que tenho melhorado bastante.; A adolescente pratica o esporte apenas como hobby e afirma que os exercícios têm ajudado não só na sua relação de confiança com o cavalo, mas também com a vida. Luiza e Maria Clara também sentem diariamente os benefícios do papel terapêutico dos cavalos. ;Faz muita diferença na hora de se focar nas dinâmicas;, comenta Luiza.

Da quadra de areia para a vida

Talvez a equoterapia seja a modalidade mais conhecida de parceria com cavalos para trazer benefícios ao ser humano. O método utiliza o animal dentro de uma abordagem interdisciplinar nas áreas de saúde e educação, na busca por desenvolver o lado motor e psicossocial das pessoas com necessidades especiais. Segundo Alessandra Ottoni, fisioterapeuta da clínica FisioTrauma e especialista em trauma de ortopedia, o método pode ser uma boa indicação para os que sofrem de patologias como paralisia cerebral, síndrome de Down, autismo, sequelas de acidente vascular cerebral (AVC) e até mesmo pós-traumatismo craniano. ;As sessões duram em torno de 30 minutos e são indicadas até duas vezes por semana, tempo necessário para que a pessoa receba mais de 2,2 mil estímulos ao sistema nervoso central;, comenta.

A educadora física Kariny Barreira Massouh trabalha há cinco anos com a equoterapia na Associação Nacional de Equoterapia (Ande-Brasil). Ela explica que o benefício do tratamento está no movimento tridimensional ; impulso para todos os lados, incluindo frente, costas, em cima e embaixo ; realizado pelo cavalo a cada passada. Assim, se a pessoa estiver no centro de gravidade do animal, ela recebe esse movimento que, além de promover ajustes tônicos, estimula a atenção e reforça a autoestima.

;Quando fazemos uma criança com síndrome de Down que sofre de hipotonia muscular montar, ela recebe esses ajustes por meia hora, contraindo e relaxando os músculos, além de melhorar a qualidade dos mesmos.; Os progressos são notados diariamente, quando ela passa a realizar atividades com mais facilidade, o que contribui diretamente para o seu bem-estar.

A pequena Pâmela Cordeiro convive com as limitações causadas por uma paralisia cerebral e, desde os 7 anos, tem o cavalo como terapeuta. A mãe, Ana Paula Cordeiro, 44, conta que a ideia de procurar a equoterapia surgiu a partir da busca por métodos que ajudassem a filha a desenvolver equilíbrio ; devido à deficiência, a menina não conseguia sequer ficar sentada. Com a aprovação de um fisioterapeuta, a pequena, que tinha medo do cavalo, hoje, aos 11 anos, além de amar o animal, consegue se comunicar com os outros, tem mais confiança e amor próprio. ;Com o decorrer do tempo, Pâmela adquiriu mutismo seletivo e começou a desenvolver a fala.;

Para a fisioterapeuta e acupunturista Andrea Lannes, o progresso de Pâmela está relacionado à passada do cavalo, que possui um movimento semelhante ao dos humanos. Durante o processo, a caminhada do animal substitui a do paciente e são acionadas musculaturas profundas, além de inúmeros ligamentos que contribuem para o equilíbrio. ;Há um ganho de fortalecimento e de tônus muscular, melhora a concentração, a coordenação motora e a percepção no espaço;, explica a especialista.

Montar a cavalo e poder chegar além do que as próprias pernas podem levar é algo de extrema importância para aqueles que não têm essa capacidade. Dessa forma, o trabalho dos equinos com pessoas especiais é emocionante, pois possibilita uma sensação de autonomia e empoderamento delas. ;A criança sobe no animal e se sente alta, forte e capaz de caminhar longe, é algo muito d

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