Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 04/05/2017 00:00

Nelson Rodrigues foi assistir ao filme Terra em Transe, de Glauber Rocha, que estreava nos cinemas em 1968, com um amigo. A certa altura, o amigo perguntou ao nosso profeta do óbvio o que estava achando do filme, e Nelson respondeu: ;É um texto chinês, só que de cabeça para baixo.; O camarada riu muito, mas quando saíram do cinema esbarraram em Luiz Carlos Barreto, o diretor de fotografia de Terra em Transe.

Claro que Barretão interpelou Nelson para saber a opinião do dramaturgo sobre o filme. Em um primeiro instante, Nelson refugou, mas, em seguida, considerou melhor perder o amigo do que perder a piada e fulminou: ;É um texto chinês, só que de cabeça para baixo.; Barretão dobrou-se de rir e contou para Glauber, que adorou a blague.

No entanto, durante todo o dia, o filme não parou de rodar na cabeça de maneira perturbadora e provocadora. Até que, de madrugada, de repente, Nelson teve um estalo e viu o óbvio ululante: aquele filme era genial. ;Aqueles sujeitos se debatendo em danações hediondas, aquilo somos nós, aquilo é o Brasil. Os Sertões, de Euclides da Cunha, também foi o Brasil vomitado. E qualquer obra de arte para ter sentido no Brasil precisa ser essa golfada hedionda.;

O explosivo Terra em Transe, premiado no Festival de Cannes, está fazendo 50 anos. Revi algumas cenas e nunca me pareceu tão atual em face desse dramático momento que vivemos. O Rio de Janeiro estraçalhado é um trailer do Brasil. Estamos em um país em transe, com o crime organizado comandando as cadeias e os bandidos de colarinho branco autoanistiando seus crimes no Congresso.

Os índios são massacrados no campo sob o silêncio ensurdecedor da república. Em meio à crise, as cortes da justiça incentivam os delitos de colarinho branco, ordenando que saiam da cadeia meliantes de carteirinha, crismados e diplomados. É um país que parece ter perdido um mínimo de compostura e se entregado ao delírio do roubo, aos desejos inconscientes de voltar aos tempos de Casa Grande & Senzala e ao cinismo mais deslavado. Todos são inocentes.

Paulo Martins, o protagonista de Terra em Transe, um poeta e jornalista, é uma consciência em transe. Não encontra amparo na esquerda inepta nem na direita corrupta. E mergulha no desespero: ;Olho para as ruas e vejo o povo magro e abatido/Este povo não pode acreditar em nenhum partido/Esse povo alquebrado/Cujo corpo sem vigor/Esse povo precisa da morte/Mais do que se possa supor/O sentimento do nada que gera o amor/A morte como fé/Não como temor;.

Em uma das cenas mais pungentes do filme, Paulo Martins é provocado por Porfírio Dias (Paulo Autran), encarnação das forças ultraconservadoras, e vocifera: ;Vocês venderam tudo. As nossas carnes, as nossas vidas, tudo, vocês venderam tudo, as nossas esperanças, o nosso amor. Vocês venderam tudo!!”

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