O resgate do bebê de Sara

O resgate do bebê de Sara

Menos de 24 horas depois do sumiço do bebê, policiais civis localizaram e prenderam a suspeita com a criança, em um apartamento do Guará. De volta ao Hran, o menino recebeu muito carinho dos familiares e funcionários. À noite, já estava em casa

» OTÁVIO AUGUSTO
postado em 08/06/2017 00:00
 (foto: Matheus Oliveira/Agência Saúde-DF)
(foto: Matheus Oliveira/Agência Saúde-DF)

;Quando entrei no quarto e ele não estava lá, a minha vida acabou.; Dessa forma Sara Maria da Silva, 19 anos, resumiu o sentimento ao se dar conta que o filho primogênito havia sumido da maternidade do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), no início da terça-feira. Mas o sofrimento durou menos de 24 horas. No começo da manhã de ontem, policiais bateram à porta da suspeita, no Guará. Encontraram a ex-estudante de enfermagem Gessianna de Oliveira Alencar, 25, com o bebê no colo.

O crime fez Brasília reviver o drama de Pedro Rosalino Braule Pinto, roubado há três décadas no Hospital Santa Lúcia. A grande diferença é que a Polícia Civil demorou 16 anos para encontrar Pedrinho. Mas, assim como no fatídico janeiro de 1986 vivido por Maria Auxiliadora Braule Pinto, a mãe do recém-nascido Pedrinho, Sara, viu seu mundo desabar. O rosto abatido da jovem mãe, na tarde de ontem, revelava o horror de uma madrugada em claro, à espera de notícia do filho desaparecido.

Sara só dormiu após ser dopada. A sogra dela, a dona de casa Dalvina Maria dos Santos, 40 anos, teve de reunir forças para enfrentar horas de incertezas e acompanhar o desenrolar da investigação comandada pela Divisão de Repressão ao Sequestro. Na noite de terça, os agentes já tinham o nome e o endereço da única suspeita de levar Jhony dos Santos Júnior, de12 dias de vida. A ação ocorreu logo ao amanhecer. Gessianna não reagiu. A criança estava bem, mas magra, por falta de leite materno.

Enquanto esteve em poder da sequestradora, ele perdeu 470 gramas ; muito, quando se trata de um recém-nascido. Mais cedo, o diretor-geral do Hran, José Adorno, detalhou a situação do bebê. ;Ele foi examinado e passa bem. Foram realizados alguns testes, e ele está clinicamente bem. Não houve comprometimentos;, comemorou.

O desfecho comoveu policiais, médicos e um sem-número de pessoas que assistiam atônitos à repetição de uma história que traumatizou a capital. Mas a família humilde, moradora do Setor de Chácaras Santa Luzia, área carente da Estrutural, só falava em seguir em frente. Mãe e filho passaram a manhã e a tarde de ontem internados no hospital cenário do crime. ;Não quero essa dor para nenhuma outra mãe;, ressaltou Sara. Em um longo suspiro, segurou o choro.

Choro interrompido
O retorno de Jhony ao hospital exigiu um esquema de segurança atípico no Hran. Um batalhão de jornalistas, fotógrafos e cinegrafistas se amontoava para registrar o final feliz. O bebê chegou por volta das 8h30. Entrou por uma garagem privativa e foi levado para uma área isolada, onde nem funcionários da unidade médica tinham acesso. ;A cidade toda deve estar aliviada agora;, comemorou uma enfermeira emocionada.

Jhony chorava muito, estava agitado. ;Foi só a Sara pegá-lo no colo que ele se acalmou. Mamou bastante e depois os médicos o levaram para fazer exames;, contou Dalvina. ;Ele estava com muita fome;, confirmou Sara, mais tarde. A avó paterna não escondia a emoção. ;Era um pedaço de mim perdido, roubado. Estava desesperada. Foi um alívio. É uma felicidade tão grande que a gente não sabe descrever. Estávamos sem chão.;

Desde o início do pré-natal, o conselheiro tutelar Djalma Nascimento assiste a família. Apesar de conviver com tragédias rotineiramente, a história de Jhony o marcou. ;A família está muito aliviada. Todos ficamos emocionados. Durante o reencontro, foi impossível disfarçar a emoção pelo resgate da criança;, observou.

Encontro com a algoz
A mãe conversou com o Correio após um cochilo, à tarde, ao lado de Jhony. Lembrou do caso Pedrinho. ;Conheço a história, tive medo de o meu filho demorar a voltar também;, comentou. Os sinais do cansaço só não eram maiores que o alívio de ter o filho nos braços outra vez. ;Vou guardar esse trauma para sempre;, frisou (leia Entrevista).

Mãe e sequestradora chegaram a conversar. Gesianna esteve no Hran em outras oportunidades. Na sexta-feira, elas travaram um diálogo no corredor onde cinco dias depois aconteceria o crime. ;Eu a vi uma vez só. Ela estava caminhando lá normalmente, até pensei que trabalhava no hospital. Perguntou se eu estava bem. Respondi ;mais ou menos;, já que o Jhony estava internado ainda;, detalhou Sara. A alegria da família cresceu no início da noite de ontem. A equipe médica autorizou a alta de Jhony.

Dalvina ajuda a nora nos cuidados com a criança. Em meio à entrevista, ambas pediram ajuda. Jhony não tem berço nem fraldas. As roupinhas também são poucas. A mãe e o pai, Jhony dos Santos, 20 anos, estão desempregados. Todos dividem um barraco de madeirite. ;Quem puder ajudar vai contribuir muito. Pelo menos o neném terá um conforto maior;, destacou Dalvina. Apesar da dificuldade financeira, Sara garante que o menino terá muito amor. ;Teve isso (o sequestro), que foi ruim, mas ele é uma vitória e estamos aliviados por tê-lo conosco.;



Como ajudar

O Correio Braziliense está recebendo doações de roupa, leite, fraldas e outros itens de necessidade infantil para Jhony. Os produtos devem ser deixados na portaria da sede do jornal. O material será repassado à família do bebê. SIG, Quadra 2, Número 340, sede do Correio, Edifício Edilson Varela.



Entrevista

Sara Maria da Silva,
19 anos, mãe do bebê sequestrado no Hospital Regional da Asa Norte

Qual foi sua reação ao perceber que seu filho havia sido levado do hospital?
Eu quase fiquei doida. Quando entrei no quarto e ele não estava lá, a minha vida acabou. Foi como se eu tivesse caído de um abismo. Eu só chorava.

Você já tinha visto ou conhecia a sequestradora?
Eu a vi rapidamente no hospital. Perguntou se eu estava bem e respondi ;mais ou menos;.

Por que você saiu do quarto?
Estava acontecendo um evento para os pacientes. Deixei ele (o bebê) dormindo e fui arrumar o cabelo. Era um local muito próximo do quarto.

Como foi a noite do sequestro? Conseguiu acompanhar as notícias e a investigação?
Chorei muito, foi um desespero. Já não tinha mais forças. Não queria dormir, mas me deram remédio.

O Pedrinho demorou 16 anos a ser encontrado. Passou isso pela sua cabeça?
Conheço a hist

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