Nas entrelinhas

Nas entrelinhas

por Luiz Carlos Azedo luizazedo.df@dabr.com.br
postado em 08/06/2017 00:00


Ser ou não ser

Se antes eram os antigos aliados de Dilma que aderiram de forma envergonhada ao impeachment, agora é a antiga oposição que empresta seu apoio envergonhado ao governo Temer


O julgamento da chapa Dilma Rousseff-Michel Temer pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que hoje entra no terceiro dia, expõe ao país as idiossincrasias de seus ministros e o drama político em que estamos mergulhados. Remete-nos à tragédia de Hamlet, príncipe da Dinamarca (1600-1602), de William Shakespeare, obra clássica da literatura universal, que data do Renascimento e está para a dramaturgia como Dom Quixote (1605-1615), de Miguel de Cervantes, para o romance. A frase To be or not to be, that is the question, no original em inglês, que intitula a coluna, foi eternizada por sua força dramática. É citada por Hamlet no ;Ato III, Cena I; da peça, num momento em que que a reflexão do personagem se sobrepõe à ação.

Vingar ou não o pai é o dilema de Hamlet. Entretanto, no contexto em que foram escritos, os versos de Shakespeare transcendem a peça e refletem os homens diante das mudanças em curso no mundo que emergia da Idade Média, no qual a cortina de ideias preconcebidas que escamoteava a realidade política, econômica e social estava sendo rasgada por Hamlet e Dom Quixote. Tudo estava em transformação no Renascimento, a partir do heliocentrismo de Copérnico e da descoberta da América. Assim, a dualidade é a marca registrada da obra mais encenada de todos os tempos e até hoje desafia seus intérpretes.

;Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre/Em nosso espírito sofrer pedras e setas/Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,/ Ou nos insurgir contra um mar de provações/E em luta pôr-lhes fim?; Talvez essa dúvida hamletiana esteja instalada na cabeça dos ministros que se digladiam em plenário no Tribunal Superior Eleitoral, como o relator do pedido de cassação, ministro Herman Benjamin, e o presidente da Corte, ministro Gilmar Mendes, que sinalizam resultados diferentes do julgamento, a partir da exegese de preliminares jurídicas que o povo não compreende.

Como na vingança de Hamlet, assim é o julgamento: ;Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo/O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso/Toda a lancinação do mal prezado amor/A insolência oficial, as dilações da lei/Os doestos que dos nulos têm de suportar/O mérito paciente, quem o sofreria/Quando alcançasse a mais perfeita quitação/Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos/Gemendo e suando sob a vida fatigante/Se o receio de alguma coisa após a morte ; Essa região desconhecida cujas raias/ Jamais viajante algum atravessou de volta/ ; Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?;

Como nos versos de Shakespeare, é um fardo pesado para os ministros. Inédito, por se tratar do pedido de cassação de um presidente da República, cuja apreciação é transmitida em tempo real pelos meios de comunicação de massa e as mídias sociais: ;O pensamento assim nos acovarda, e assim/É que se cobre a tez normal da decisão/Com o tom pálido e enfermo da melancolia/E desde que nos prendam tais cogitações/Empresas de alto escopo e que bem alto planam/Desviam-se de rumo e cessam até mesmo/De se chamar ação;. Qualquer que seja a decisão, é o futuro imediato de 207 milhões de brasileiros que está em jogo.

É política

O drama dos ministros do TSE gravita em torno das preliminares do mérito, ou seja, da decisão sobre as provas incluídas no processo após a petição inicial de seus autores. Se as provas forem consideradas válidas, como querem o vice-procurador-geral eleitoral, Nicolao Dino, e o ministro relator Herman Benjamin, com base em decisões anteriores da Corte, será muito difícil não cassar o mandato do presidente Michel Temer. A não ser que se desmoralize a própria Corte.

Se as novas provas não forem consideradas, estará aberta a possibilidade de absolvição de Temer ou de arquivamento do caso por perda de objeto, em razão do impeachment da presidente Dilma Rousseff, como aparentemente deseja o presidente do TSE, ministro Gilmar Mendes. As chances de tudo ir parar no Supremo Tribunal Federal (STF), porém, são líquidas e certas, qualquer que seja o resultado do julgamento. Ou seja, o julgamento precisa ser confirmado pelo Supremo, onde se reproduzirá a dualidade hamletiana.

Não é à toa que a antiga oposição aguarda com ansiedade o julgamento. O governo Temer tem frente e verso. A frente era a participação da antiga oposição, que liderou o processo de impeachment; o verso eram o PMDB e os partidos que abandonaram Dilma Rousseff. A crise ética, na medida em que arrastou o presidente Temer para o olho do furacão, inverteu os papéis. Se antes eram os antigos aliados do PT que aderiram de forma envergonhada ao impeachment, agora é a antiga oposição que empresta seu apoio envergonhado ao governo. Esquizofrenia? Não, vicissitudes da política. O presidente Michel Temer, porém, revelou capacidade de resistência e combatividade que inibem os que tramam sua saída e fortalecem os aliados que desejam vê-lo governando o país até as eleições de 2018.


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