Investidores pisam no freio de olho na crise

Investidores pisam no freio de olho na crise

Turbulência causada pela delação dos controladores da JBS cria incertezas e afasta possíveis interessados em investir no Brasil. Especialistas avaliam que cenário será mais positivo para o país no pós-Lava-Jato

» Simone Kafruni
postado em 08/06/2017 00:00

A nova crise política e as incertezas na economia devem atrasar investimentos e as obras de infraestrutura por mais dois anos. Para especialistas, esses fatores, somados ao histórico de corrupção, atraso e sobrepreço nos grandes empreendimentos, afastam o interesse de potenciais investidores em novos projetos e concessões, necessários para o desenvolvimento do Brasil.

Antes da turbulência causada pela delação dos controladores da JBS, o governo federal lançou um pacote de concessões com a previsão de investimentos de R$ 45 bilhões. Alguns projetos, como quatro aeroportos, a distribuidora de energia de Goiás Celg-D e 31 linhas de transmissão, foram leiloados antes da nova crise. Agora, o cenário é diferente.

Para Fernando Marcondes, advogado especialista em infraestrutura do escritório L.O. Baptista, o momento é de extrema incerteza. ;O primeiro impacto é um atraso na retomada dos investimentos em infraestrutura em, pelo menos, dois anos;, afirmou.

Presente a um evento em Nova York voltado para investidores estrangeiros, Marcondes revelou que a conversa tomava um rumo extremamente positivo. ;Os investidores estavam animados sobre as reformas. Chegaram a dizer que tinham voltado a olhar para o Brasil porque Michel Temer estava conseguindo alguma estabilidade;, contou. ;Isso foi dois dias antes da delação da JBS. Depois, a instabilidade voltou. Está tudo estagnado outra vez;, acrescentou.

Além do atraso em novos investimentos, as obras em andamento demoram muito mais do que o previsto, o que aumenta o Custo Brasil por conta da precariedade da infraestrutura nacional. ;O impacto da corrupção é gigantesco. O histórico de grandes obras não é animador. Há sobrepreço. Os projetos sempre acabam custando muito mais. Ficam prontos muito tempo depois do prazo. É uma característica da natureza das obras. E a corrupção torna tudo ainda mais lento;, destacou. Para o especialista, agora é hora de esperar o contexto político.

Na opinião de Claudio Porto, presidente da Macroplan, a curto prazo a crise política tende a atrasar o ritmo das obras. ;Num primeiro momento, a corrupção provoca atraso porque os grandes players foram apanhados na Lava-Jato. É preciso tempo para haver reposição das empresas;, disse. Isso demanda decisão política e estabilidade. ;A médio e longo prazos, no entanto, o cenário deve ser de melhora significativa, por conta do saneamento. Os custos de obras superfaturadas serão reduzidos. O Brasil vai ter de abrir espaço para empresas estrangeiras atuarem nesse setor, preferencialmente associadas com as brasileiras;, explicou.

Entranhas


Presente, na semana passada, em um seminário no Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), sobre parcerias público-privadas, Porto teve a percepção de que o ambiente institucional será mais favorável pós-Lava-Jato. ;Neste momento, a incerteza está no ar, nos próximos um, dois anos, a convicção dominante é de que o cenário será positivo depois disso;, destacou.

No entender do economista Gilson Garófalo, professor de Economia da Universidade de São Paulo (USP) e da PUC-SP, a corrupção está entranhada nas obras de infraestrutura porque há conluio ou acordos entre os eventuais interessados em levar o empreendimento adiante já na fase de licitação ou concorrência. ;É um aspecto negativo que não dá para controlar. Depois disso, o vencedor entra com pedido de atualização de valores, os tais aditivos, que geram sobrepreço. O excedente nem vai para a obra, vai ajudar em candidaturas de políticos;, ressaltou. Aos atrasos provocados para fazer caixa 2, alertou Garófalo, somam-se questões ambientais e demoras naturais do processo de obras complexas.

Os exemplos se multiplicam no Brasil. A Usina Termonuclear Angra 3, a Hidrelétrica Belo Monte e a Ferrovia Norte-Sul são três obras faraônicas que engoliram bilhões, sempre mais do que o dobro do orçamento, e que ainda não ficaram prontas (veja na arte ao lado).

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