O terror ataca Teerã

O terror ataca Teerã

Extremistas invadem Parlamento e mausoléu do aiatolá Khomeini, líder da Revolução Islâmica, matam 13, ferem 46 e são abatidos pelas tropas. Guarda Revolucionária culpa Riad e Washington pelo primeiro atentado em décadas. Estado Islâmico assume a autoria da ação

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 08/06/2017 00:00
 (foto: Omid Vahabzadeh/AFP
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(foto: Omid Vahabzadeh/AFP )

Os primeiros tiros ressoaram dentro do prédio do Majles, como é chamado o Parlamento do Irã, por volta das 10h30 de ontem (3h30 em Brasília). Armados de fuzis Kalashnikov, os quatro terroristas disfarçados de mulheres entraram no prédio pela entrada principal e dispararam a esmo. ;Eles percorreram vários andares e alvejaram pessoas comuns, incluindo os maridos de duas parlamentares. Foi uma operação longa, que durou quase seis horas;, relatou ao Correio o repórter fotográfico Majid Saeedi, 43 anos, o qual registrou cenas do primeiro atentado a sacudir Teerã em mais de três décadas. Um dos extremistas se explodiu no quarto pavimento.

Ao meio-dia (hora local), a cerca de 19km do Majles, pelo menos três militantes invadiram o mausoléu do aiatolá Ruhollah Khomeini, o pai da Revolução Iraniana, e abriram fogo, antes de um deles detonar os explosivos atados ao corpo. Enquanto os comandos terroristas matavam 13 pessoas e feriam 46 ; 40 homens e seis mulheres ;, a Amaq, agência de notícias do Estado Islâmico (EI), divulgava vídeo de 16 segundos que mostrava um dos atiradores no interior do Parlamento. Todos os jihadistas foram mortos pela polícia.

O Corpo da Guarda Revolucionária do Irã culpou a Arábia Saudita e os Estados Unidos pelo ataque e prometeu vingança. ;A opinião pública mundial, especialmente no Irã, vê o fato de que esse ato terrorista foi perpetrado logo depois do encontro do presidente dos EUA (Donald Trump) com um dos Estados regionais reacionários que sempre apoiaram o terrorismo;, afirmou o organismo, ao se referir a Riad, segundo a agência iraniana Fars. Em nota, Trump admitiu que os EUA estão ;de luto;, rezando pelas vítimas dos ataques terroristas no Irã e pelo povo iraniano. ;Nós ressaltamos que Estados que patrocinam o terrorismo correm o risco de se tornarem vítimas do mal que promovem.;


Recrutamento

Em tom desafiador, o aiatolá Ali Khamenei, guia supremo da nação e sucessor de Khomeini, avisou, pelo Twitter: ;A nação iraniana se move adiante. Hoje, a tentativa atrapalhada de fogos de artifício em Teerã não afetará a vontade de nossa nação;. Por sua vez, o vice-diretor do Conselho de Segurança Nacional do Irã revelou que os terroristas eram iranianos recrutados pelo EI. ;Sobre a identidade dos atacantes, eu diria que eram de partes do Irã, e que escolheram o Daesh;, comentou Reza Seifollhai, ao citar o acrônimo em árabe para o grupo terrorista. No fim da noite, o presidente iraniano, Hassan Rouhani, classificou o duplo atentado de ;insensível e covarde;, perpetrado por ;mercenários terroristas;. ;Hoje, o Irã é o país mais seguro do coração de uma região turbulenta, graças à brilhante liderança do Líder Supremo e à autoridade e integridade das forças de segurança, defesa, inteligência e lei;, afirmou. Ele prometeu que os ataques ;reforçarão a determinação islâmica do Irã no combate ao terrorismo regional; e clamou pela ;unidade e cooperação regional e internacional; contra o extremismo.

Majid Saeedi contou à reportagem que nenhum parlamentar ficou ferido. ;Todos participavam de debates no plenário;, disse. Segundo a iraniana Setareh Salehi, em 2015, o EI jurou atacar a capital e hastear a bandeira islâmica negra na Praça Azadi, um dos símbolos de Teerã. ;Isso é totalmente novo e chocante. Nunca tivemos medo de ser alvos do terror. Acho que os motivos dos atentados incluem a nossa relação conflituosa com a Arábia Saudita. Para muitos, Riad financia o EI;, opinou ao Correio a estudante de 23 anos.

Milad Jokar, pesquisador iraniano do Instituto de Prospectiva e Segurança na Europa e especialista em geopolítica do Oriente Médio pela Escola de Negócios da Normandia (em Caen, França), lembra que o Majles foi alvo de explosão em 1981, quando combatentes do grupo Mujahedin-e Khalq (MEK) mataram 72 legisladores. ;É óbvio que algo deu errado hoje (ontem), pois o Parlamento possui múltiplas camadas de segurança;, atesta.

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