Palavra de especialista

Palavra de especialista

» Milad Jokar
postado em 08/06/2017 00:00
Incidente dramático
;O que houve hoje (ontem) em Teerã foi algo dramático. Não só pela perda de 13 cidadãos iranianos, mas também por ser o primeiro ataque terrorista na capital iraniana. Tudo ocorre em meio a um panorama geopolítico marcado pela intensa rivalidade entre o Irã e a Arábia Saudita. O povo iraniano tem escutado ameaças constantes feitas pelos sauditas. O ministro da Defesa de Riad disse que trabalharia para levar a batalha para dentro do Irã. Na terça-feira, o ministro das Relações Exteriores da Arábia Saudita, Adel Al-Jubeir, declarou que o Irã deve ser punido. Temos o apoio do presidente Donald Trump a Riad, cuja meta é clara: isolar o Irã. Do ponto de vista ideológico, o Estado Islâmico (EI) segue o wahhabismo, uma forte ideologia puritana e radical do islã. No topo, existe o ódio pelos xiitas, que têm sido ameaçados pelo EI há muito tempo. Existe o risco de uma escalada muito mais intensa de tensão no Oriente Médio.;

Pesquisador iraniano do Instituto de Prospectiva e Segurança na Europa e especialista em geopolítica do Oriente Médio pela Escola de Negócios da Normandia, em Caen (França)

Eu estava lá
;Cheguei à área do Parlamento poucas horas depois do início do ataque. A região estava bloqueada pelas forças de segurança. Havia dois terroristas ainda vivos. Nós escutamos o som dos tiros durante um longo tempo. Depois de 20 minutos, ouvi o barulho de uma explosão. Soube depois que se tratava de um homem-bomba que detonou os explosivos no quarto andar, ao se ver cercado pelas forças de segurança. O Estado Islâmico (EI) está revoltado com fato de ser atacado pelo Irã no Iraque e na Síria. O atentado de hoje (ontem) foi simbólico, pois o grupo mostrou ao governo que é capaz de atuar no país.;

Majid Saeedi, 43 anos, repórter fotográfico, morador de Teerã


Três perguntas para
Rodrigo de Azeredo Santos, embaixador do Brasil em Teerã

Como o senhor avalia o duplo atentado em Teerã, assumido pelo Estado Islâmico?
Os atentados em Teerã de fato surpreenderam, em razão da grande segurança que existe aqui no país. Há decádas não havia ataques aqui em Teerã. Os últimos registros são do fim da década de 1980. Há um serviço de inteligência e de segurança muito forte na capital, o qual vinha evitando esse tipo de ataque. Sabe-se que, desde o ano passado, algumas tentativas (de atentados) foram desmanteladas. Isso sempre foi colocado pelo governo do Irã como prova de eficiência do serviço de segurança e de inteligência. Percebe-se um policiamento mais ostensivo. O governo declarou estado de emergência para reforçar a segurança nas fronteiras.

De que modo os brasileiros reagiram a esses ataques?
A comunidade brasileira é relativamente pequena. São cerca de 300 a 400 brasileiros, entre residentes e pessoas que trabalham aqui temporariamente ; muitos na área esportiva. Não houve nenhuma procura de brasileiros que teriam sido atingidos nesses atentados.

O Exército dos Guardiões da Revolução Islâmica acusa a Arábia Saudita e os EUA pelo atentado. Como vê isso?
As autoridades iranianas salientaram que os ataques não reduzirão o ímpeto do Irã no combate ao terror. Pelo contrário, devem unir ainda mais o país. O Irã tem um papel muito importante no Iraque e na Síria de combate ao Estado Islâmico. Há um movimento político mais linha-dura com relação aos vizinhos e aos EUA que tem feito declarações fortes, apontando para a Arábia Saudita e culpando Washington, ao afirmar que a visita de Trump a Riad movimentou a região. Esse movimento aponta os sauditas como corresponsáveis, pois o Estado Islâmico tem como orientação o wahhabismo, doutrina do islã mais radical em suas práticas religiosas e na aplicação da sharia (lei islâmica). (RC)

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação