Ação da polícia foi rápida

Ação da polícia foi rápida

Em menos de 24 horas, os agentes chegaram à casa da suspeita no Guará 2 e a prenderam na manhã de ontem

» ISA STACCIARINI
postado em 08/06/2017 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)


Menos de 24 horas após sequestrar o bebê Jhony Júnior da maternidade do Hospital Regional da Asa Norte (Hran), Gesianna de Oliveira Alves, 25 anos, foi presa. A única lacuna que falta para a Polícia Civil desvendar o caso por completo é descobrir para onde a mulher seguiu após levar o recém-nascido, e qual meio de transporte usou para fugir.

Policiais prenderam a jovem na manhã de ontem, por volta das 9h, quando ela apareceu na casa em que morava na QE 38 do Guará 2. A própria família, assustada, colaborou com os investigadores e, assim que localizou Gesianna, um parente entrou em contato com a Polícia Civil. A acusada seguiu para a Divisão de Repressão ao Sequestro (DRS) sob escolta de policiais em um carro descaracterizado da corporação, mas permaneceu calada na unidade por instrução da advogada. De acordo com a polícia, o crime foi planejado e, em princípio, nem o marido nem pessoas próximas a ela tiveram participação no sequestro.

Para subtrair o bebê do hospital, Gesianna conseguiu entrar na unidade de saúde ainda na manhã de terça-feira, pela portaria central, com um nome falso. Apresentou-se como ;Juliana; e seguiu em direção à ala da maternidade, mas, em razão de um deslize nos dados apresentados, policiais conseguiram chegar a real identidade da mulher. O diretor adjunto da DRS, Paulo Renato Fayão, no entanto, não revelou a informação que levou a polícia à sequestradora. Três testemunhas também ajudaram nos trabalhos de investigação: uma funcionária terceirizada da limpeza e duas mães que estavam na maternidade. Elas não viram diretamente a ação da autora, mas acharam estranha a presença dela no interior do hospital.

Com o perfil da jovem, policiais passaram a procurá-la em endereços no Distrito Federal e chegaram a viajar para Unaí (MG), a 165km de Brasília, onde mora a mãe e três irmãos de Gesianna. Ela, no entanto, permaneceu no DF, mas em algum lugar que a polícia ainda não conseguiu descobrir. ;A colaboração da família foi total com a Polícia Civil e decisiva na localização da autuada e do recém-nascido;, ressaltou Fayão. Gesianna mora com o marido Adriano Borges em uma casa que divide também com parentes no Guará 2.



De sexo masculino

Gesianna ficou quase cinco horas dentro do Hran até raptar Jhony e sair com ele dentro de uma bolsa. Com a justificativa de que visitaria uma prima, a jovem entrou na unidade de saúde por volta das 7h e só deixou o hospital com o bebê às 12h. Segundo o diretor adjunto da DRS, a intenção da sequestradora era cuidar da criança como se fosse dela. ;Não encontramos nenhum elemento que indique a participação do marido nem de qualquer familiar. Acreditamos que Gesianna ludibriou todos;, explicou.

Fayão contou que, na sexta-feira, Gesianna chegou a ir ao hospital. Usando sempre uma barriga falsa, que aparentava oito meses de gestação, ela teve acesso ao local, transitou pelos quartos e fez perguntas às outras mães. ;Quando era questionada o motivo de estar ali, ela dizia que estava visitando uma prima. A escolha do bebê foi uma questão de oportunidade, já que a mãe da criança, Sara Maria da Silva, participava de um momento de beleza ofertado no hospital. O único desejo dela era conseguir uma criança do sexo masculino;, explicou o delegado, que também criticou a falta de vigilância na unidade de saúde. ;Se houve o acesso dessa pessoa ao hospital, houve uma falha na segurança;.

A mulher foi autuada por subtração de incapaz com dolo específico de colocação da criança em família substituta. Pode pegar de dois a seis anos de prisão. Ela passará por uma análise de psiquiatras do Instituto de Criminalística e seguirá para o Presídio Feminino do DF, a Colméia. No entanto, até o fim desta edição, ela permanecia presa na sede da DRS, no Setor de Garagens Oficiais Norte. ;Pela natureza do crime, há impressão de que ela pode ter algum distúrbio psicológico, mas foi determinado que o quadro seja avaliado por psiquiatras da Polícia Civil;, explicou Fayão. Em princípio, a polícia acredita que a mulher tenha agido sozinha, mas não descarta a participação de outras pessoas no processo de fuga.


Falta de investimento
O professor da Universidade Católica de Brasília e doutor em saúde pública Roberto José Bittencourt conta que os casos de sequestro em maternidades evidenciam a falta de investimento no setor público de saúde. ;Não há uma falta de tecnologia ou melhorias a serem adaptadas. Temos opções como utilização de pulseiras com código de barra que garantiriam maior segurança dos pacientes, mas, para instaurar isso, é necessário investimento financeiro, algo que a rede pública de saúde não vem recebendo;, afirma.


A realidade de Sara

Perto da pobreza extrema

; LUIZ CALCAGNO

Assim que o filho receber alta, Sara Maria da Silva, 18 anos, chegará em casa, no Setor de Chácaras Santa Luzia, e encontrará as poucas roupas do enxoval lavadas e secas. Foram recolhidas do varal ontem a tarde, pela cunhada Fabiana dos Santos e pela vizinha Luciana da Silva. Sara mora em uma invasão, num aglomerado de barracos próximos a uma região conhecida como Lixinho, de onde ela e grande parte dos moradores da região retiram seu sustento. O aterro irregular fica a cerca de 500m da última linha de residências de madeira. Em um bom dia de trabalho, catadores ganham até R$ 24. A jovem mora ao lado da sogra, em uma casa de pedaços de compensados reaproveitados e telha de amianto. A porta da rua, improvisada em MDF, não chega a cobrir o batente. O pai do bebê, Jhony dos Santos, 20, está desempregado.

Ao lado, na casa da sogra, feita do mesmo material, é possível ver um carrinho e um bebê conforto, que serão compartilhados entre as crianças da família. Exceto pelo trânsito de Fabiana e de Luciana, os endereços ficaram trancados durante toda a quarta-feira. Na vizinhança, conhecidos descreveram um misto de revolta e alívio com o sequestro e a volta do pequeno Jhony para os braços de Sara. ;Estávamos todos tristes. Mas, quando a assistente social ligou para minha mãe, foi um momento de alegria, descreveu Fabiana. ;Isso só pode ser atitude de uma pessoa doente. Como podem roubar uma criança? Depois de um crime como esse, as pessoas ficam com medo. Se eu tivesse um filho agora, eu não desgrudaria da criança nem por um segundo;, completou Luciana.







Preocupação

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