"Qualquer governo sangra"

"Qualquer governo sangra"

Ministro reconhece a gravidade do momento, diz que não vê soluções a curto prazo e defende que economia seja blindada para não sucumbir

» DENISE ROTHENBURG » PAULO DE TARSO LYRA
postado em 25/06/2017 00:00
 (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

Um dos principais ministros do governo Temer ; e que, como o núcleo de poder governista, também é citado na Operação Lava-Jato ;, Moreira Franco defende que a missão do Executivo é evitar que a crise política volte a contaminar a economia. Para ele, neste momento em que os indicadores econômicos dão sinais de recuperação, não dá para que tudo seja tragado novamente pela turbulência que não passa e que não há sinais a curto prazo de que vá melhorar. ;Qualquer governo sangra. O problema maior é ter milhões de desempregados. Agora que estamos recuperando o emprego, a renda, você voltar a uma situação de depressão da atividade econômica e da esperança é que é grave;, disse ele.

Em entrevista exclusiva ao Correio, o titular da Secretaria-Geral da Presidência reclama que o país vive um período de radicalização nas relações institucionais. Cita o ineditismo de uma denúncia apontando que o presidente é chefe de uma organização criminosa. ;Você acusar um presidente da República de comandar uma organização criminosa é um negócio muito grave. É preciso que se tenha provas muito robustas. Isso não é começo de conversa, é fim de processo.;

Conselheiro do presidente de longa data, Moreira tenta minimizar a derrota na tramitação da reforma trabalhista na Comissão de Assuntos Sociais (CAS), mas reconhece que o resultado surpreendeu. Elogia o PSDB como aliado, mas diz que o governo não vai ficar dando chilique por crises com os aliados. ;Quem quiser participar do governo participa. Quem não quiser não participa. É um direito;, afirmou. Confira a seguir os principais trechos da entrevista.


Luis Nova/Esp. CB/D.A Press
A economia vai sobreviver à crise política?
Estamos fazendo um esforço enorme para que haja uma separação, uma manutenção do nível de confiança. Vivemos uma crise fiscal, que é mais complicada, demora mais tempo para ser resolvida. A inflação você entra, dá um corte, e os problemas são solucionados muito rapidamente. Uma crise fiscal é um hábito de gastos do governo que traz questões políticas muito mais complicadas.

Que questões são essas?
As pessoas gostam de gastar. Acham que o dinheiro do governo é infinito. Mas o governo não produz riqueza. Ele vive da riqueza produzida pelo cidadão. A solução dessa questão econômica é vital para o futuro do país.

Alguns analistas falam que esses números positivos são anteriores ao do estouro da crise...
Qual a crise? O que é anterior? Qual o prazo anterior à crise? O governo, no campo político, vem convivendo com questões políticas que são reiteradamente colocadas. Estamos vivendo uma radicalização. Estamos empenhados em aprovar as reformas: a modernização trabalhista e a reforma da Previdência, que é vital para que haja condições para você ter um ambiente fiscal que gere confiança interna e externa.

E se a reforma não passar?
Aí sim, isso vai criar problemas. Vamos ter dificuldade para conseguir o equilíbrio e pôr o Brasil nos trilhos. Nós temos um problema político grave. E temos um problema judicial. Mas são coisas distintas. Não há por parte do governo e não haverá constrangimento para que as iniciativas judiciais se deem.

Refere-se aos processos correrem em paralelo ao funcionamento do governo?
As investigações estão sendo feitas por instituições com funções previstas na Constituição. Como o presidente da República tem uma formação de advogado, acaba tendo uma visão mais judicial, acostumado que está a esse cenário. É que nem médico, que fala de problemas de saúde com uma naturalidade que ninguém fala. No meu caso, que já sou meio hipocondríaco, fico preocupado. O presidente Temer está tratando dessas questões, no plano judicial, como se fosse uma batalha que se dá nos tribunais.

Em que isso ajuda?
Como está havendo uma radicalização muito grande, é necessário que ele faça um esforço pessoal de separar a situação que está sendo colocada como presidente da República. Os advogados falam nos tribunais. E o presidente tem que cuidar da Presidência, de tirar o Brasil da maior crise econômica de nossa história. E, de outro, é necessário que se veja com muita serenidade a delicadeza da situação de quase anomia que estamos vivendo.
Em que sentido?
As relações entre as instituições estão muito radicalizadas. É preciso que haja o cumprimento da Constituição, que é você ter harmonia e independência entre os Poderes. A Constituição define de maneira muito clara quais são as atribuições dos Poderes.

Eles perderam a capacidade
de dialogar?
A intolerância é que cria esse tipo de situação. Vivemos um momento em que, se algum integrante do Ministério Público conversa com algum político, dá nota no jornal. Se for com um ministro do Supremo, do STJ, já há um patrulhamento. As instituições conversam entre si pelas pessoas que as compõem.
A radicalização é só na questão dos relacionamentos?
Esse é apenas um lado. O outro é o nível de acusação que está sendo feito contra o presidente da República. É muito severo, de muita responsabilidade. Você acusar um presidente da República de comandar uma organização criminosa é um negócio muito grave. É preciso que se tenha provas muito robustas. Isso não é começo de conversa, é fim de processo.

Essa situação de se acusar um presidente de ser chefe de uma
organização criminosa também não ocorreu no governo anterior?
A sua pergunta está politizando a questão judicial. Estou falando do ineditismo. Nunca houve no Brasil uma denúncia formalizada contra o presidente da República. Não é o Michel Temer, é a instituição. Esse passado recente que você quis trazer à tona não ocorreu.

Mas quando o senador Aécio
Neves dizia que a presidente
Dilma foi eleita com o apoio de uma quadrilha...
A luta política é luta política. Estou falando da formalização de uma denúncia no Supremo Tribunal Federal com essas características, não é trivial. Não digo que não deveria ter sido feito. Mas é preciso que ela seja fundamentada. O próprio ex-presidente Fernando Henrique, que é um sociólogo respeitado, afirmou que vivemos um período de anomia.

O senhor, imagino, concorda com o diagnóstico dele, mas não com a receita, que é desembarque,
renúncia e eleições diretas?
Não estamos aqui tratan

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