Guerra aberta nos presídios

Guerra aberta nos presídios

postado em 25/06/2017 00:00
Nos estados do Amazonas, Tocantins, Maranhão, Sergipe e Ceará, a explosão de violência resultou em um aumento superior a 100% no número de homicídios. O especialista Renato Sérgio de Lima, presidente do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, relata preocupação com a situação extrema na crise da segurança no Brasil. ;Hoje, as mortes violentas fazem parte de toda a paisagem urbana das cidades. Há 10 anos, os números de assassinatos eram mais intensos nas cidades maiores, principalmente nas capitais. Isso se explica por conta da grande concentração de pessoas. Mas agora nós vemos a violência avançando para o interior do país, em municípios com menos de 100 mil habitantes;, ressalta.

O Fórum Brasileiro de Segurança Pública aponta que 80% das armas usadas nos homicídios são de fabricação nacional. O que revela uma violência generalizada, entre a população, integrantes de gangues e de pequenos núcleos de crime. Já pistolas e revólveres de fabricação nacional caem nas mãos de criminosos por meio de assaltos a empresas, seguranças particulares, a policiais e cidadãos que possuem porte de arma e acabam perdendo seu armamento para o crime.

Em suas recomendações ao governo, o Fórum pede a integração dos sistemas das forças de segurança, como o Sinab, usado pela Polícia Federal e o Sigma do Exército Brasileiro. A entidade defende a criação de um cadastro nacional de criminosos e de armas, a fim de identificar qualquer contrabando de armamento, que por ventura possa ser usado por criminosos.

Fiscalização

Em 2009, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) determinou a criação de grupos para fiscalizar a situação dos presídios brasileiros. A medida está prevista em uma resolução do conselho e tem como objetivo impedir rebeliões, atos de violência e a perpetuação de facções criminosas dentro dos centros de detenção em todo o país. Os chamados Grupos de Monitoramento e Fiscalização do Sistema Carcerário (GMFs) levam magistrados para dentro das unidades prisionais. Os presídios são locais que registram o crescimento rápido de grupos criminosos e maior facilidade das facções em cooptar novos integrantes. É de dentro das unidades prisionais que partem ordens para ataques nas capitais, execução de desafetos e de novas estratégias para o tráfico de drogas.

O juiz Antônio Dantas, titular da Vara de Execução Penal de Araguaína, do Tribunal de Justiça do Tocantins (TJTO), integra um dos grupos criados para fiscalizar o sistema carcerário. Antônio defende políticas sociais dentro das penitenciárias para combater a violência. ;A fiscalização é importante para manter a segurança dentro dos presídios. Mas temos que ter políticas públicas de reeducação dos internos e medidas que vão evitar que eles cometam novos atos criminosos ao saírem da cadeia;, diz Dantas.

O magistrado afirma que, nos presídios que visita, percebe que as facções criminosas já estão presentes. ;Infelizmente nós já temos a propagação de facções dentro dos presídios do Tocantins, como ocorre em outros estados. Há alguns anos esse problema não existia. Mas hoje, quem manda nos presídios aqui do estado é o governo. Mas, em todo o país, temos um sistema prisional arcaico que colabora com a violência que vemos em todo o Brasil;, destaca o juiz.

O líder

;Lúcido, determinado em seus objetivos e assertivo;. Essas são as características que o psicólogo Augusto Sá, da Secretaria de Administração Penitenciária de São Paulo, utiliza para descrever Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola. Augusto ficou frente a frente com o líder da maior facção criminosa do país quando precisou negociar o fim de ataques que ocorreram na capital paulista, em 2006. As palavras do profissional de saúde psicológica não se tratam de um elogio, mas de um alerta para o poder público e para a sociedade.

Foi à frente do Primeiro Comando da Capital (PCC) que Marcola organizou o domínio dos presídios no maior estado brasileiro. A facção reina entre as unidades prisionais de São Paulo, que reúnem 231 mil detentos, maior contingente de pessoas reclusas em todo o país.


Desde criança, Marcola já revelava tendências para o crime. Órfão aos 9 anos de idade, Marcos Willians andava pelas ruas de São Paulo, roubando carteiras e aparelhos de rádio na Zona Central da maior cidade da América do Sul.

Aos 18 anos, o chefe do PCC foi preso por roubo a banco e foi para o Complexo do Carandiru, onde se juntou aos primeiros integrantes do grupo que estava no começo, mas se tornaria um negócio do crime, alcançando praticamente todos os estados do país, e 25 anos depois partiria para além das fronteiras brasileiras.

Atualmente condenado a 232 anos e 11 meses por formação de quadrilha, roubo, tráfico de drogas e homicídio, Marcola rebate as afirmações de que comanda o PCC. ;Não existe um ditador. Embora a imprensa fale, romanticamente, que existe um cara, o líder do crime. Existem pessoas esclarecidas dentro da prisão, que com isso angariam a confiança de outros presos;, declarou o condenado em audiência pública na CPI do tráfico de armas em 2006.

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