Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco - severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 25/06/2017 00:00



Canção na cabeça


;Sobre a cabeça os aviões/Sob os meus pés os caminhões/Aponta contra os chapadões/Meu nariz;. Eu tinha 13 anos quando ouvi, pelo rádio, em São Paulo, a canção-manifesto Tropicália, de Caetano Veloso. Ela caía como um objeto não identificado sobre a minha cabeça. Eu estava acostumado a ouvir canções que narravam uma historinha, com começo, meio e fim.

Com sua letra estilhaçada e seu arranjo épico, Tropicália explodia com o modelo convencional e me deixava perdido, sem entender nada, sem lenço e sem documento. Mas, estranhamente, ao mesmo tempo, eu tinha a sensação de que algo me era familiar. Na terceira vez que ouvi Tropicália, identifiquei o que me era familiar e encontrei uma brecha para entrar na canção de Caetano: Brasília.

Comecei a entender um pouco a canção quando me lembrei dos tempos em que morava em Brasília. Ao explodir o golpe militar de 1964, meu pai havia apontado, no meio da poeira, para o céu aberto da cidade, mostrando os aviões da Aeronáutica que riscavam o espaço com as pirotecnias de parada militar de 7 de setembro: ;Sobre a cabeça os aviões/Sob os meus pés os caminhões/Aponta contra os chapadões/Meu nariz.;

É claro que aquela canção não era apenas sobre Brasília. Contudo, sob a ótica de Brasília (a cidade-monumento), ela passava a fazer algum sentido: ;Eu organizo o movimento/Eu oriento o carnaval/Eu inauguro o monumento no Planalto Central do país/Viva Iracema/ma-ma-ma/Viva Ipanema/ma-ma-ma.;

Brasília foi criada como um gesto de afirmação da modernidade brasileira, cidade-escultura, cidade-monumento, cidade-totem. Mas até que ponto é possível ficar imune às tensões e às contradições do país? Na canção de Caetano, a artificialidade de Brasília é exposta como se fosse uma alegoria carnavalesca de uma escola de samba desfilando na Marquês de Sapucaí: ;O monumento é de papel crepon e prata/os olhos verdes da mulata/A cabeleira aponta contra a verde mata/O luar do sertão.;

Em certo sentido, a Tropicália é menos ingênua do que o projeto inicial de Brasília, porque aceita o Brasil com todas as suas contradições. O Brasil seria cômico se não fosse trágico: ;O monumento não tem porta/A entrada é uma rua antiga estreita e torta/E no joelho uma criança sorridente feia e morta/estende a mão/Viva a bossa/Viva a palhoça/ça-ça-ça.;

No fundo, aquela canção estranha, fragmentada e enigmática, que me deixara perdido, que voava do alto-falante do rádio como objeto não identificado, falava de minha vida. A canção de Caetano era, de certa maneira, uma autobiografia de todos nós. Até hoje balançamos entre o monumento e a criança feia e morta que estende a mão, a realidade virtual e o analfabetismo funcional, a miséria extrema e a roubalheira mais delirante. Caetano nos ensinou que não podemos apagar a nossa história, mas sempre será possível reinventá-la.

PS: Essa crônica foi publicada em 20 de abril de 2016. Republico em homenagem à Tropicália, tema da Feira do Livro de Brasília.

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