Artigo

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por Marcelo Abreu

postado em 25/06/2017 00:00




E a vida real virou história de cinema

Início do ano 2000, quase fim de tarde. Fui chamado à sala do então diretor de redação do Correio. Havia uma missão. O então promotor da Promotoria de Defesa da Saúde do Ministério Público do DF, Diaulas Ribeiro, estava com um caso inédito. Único no país. E até hoje permanece único. O primeiro caso de transexualidade das Forças Armadas do Brasil. ;Essa matéria é muito séria e exclusiva. Você tem uma bomba em suas mãos;, disse-me o diretor. Fui. Sabia que a missão não seria fácil. E não foi.

Na sala do promotor, a primeira das muitas vezes que o encontraria, estava um cidadão magro, tímido e nitidamente acuado, sofrido, mas decidido. José Carlos da Silva, cabo da Aeronáutica, então com 41 anos, separado, uma filha, tinha um laudo na mão. Um laudo que abalou a estrutura militar, tão rígida e conservadora.

No documento do Alto Comando da Caserna, a que o Correio teve acesso naquele fim de tarde, o parecer da junta médica das Forças Armadas: ;Atrofia testicular por provável ação medicamentosa. Transexualismo;. E a decisão de afastá-la de vez da corporação, depois de 22 anos de atividades como mecânico de aeronave, condecorada pela corporação, sem nenhuma falta ou mácula na vida militar: ;Incapaz, definitivamente, para o serviço militar. Não é inválido. Não está impossibilitado total ou permanentemente para qualquer trabalho. Pode prover os meios de subsistência. Pode exercer atividades civis;.

O Correio contou, então em 2000, com exclusividade, a primeira matéria, que viraria depois uma série de reportagens. Os leitores, ainda num mundo sem rede social, manifestaram-se por e-mail e cartas ao jornal. A maioria foi de apoio ao drama da cabo. A imprensa, local e nacional, correu atrás da história.

Afastada da caserna contra sua vontade, e alegando ter sofrido ameaças se insistisse em tornar a história pública, José Carlos estava ali para começar o processo de mudança de sexo. Seria, certamente, a luta mais difícil da sua vida. Por dois anos, submeteu-se a uma série de exames com psicólogos, psiquiatras e cirurgiões. Tempos depois, a conclusão da junta multidisciplinar do Ministério Público: o paciente era psicologicamente uma mulher aprisionada num corpo de homem. Com a cabeça feminina, rejeitava a genitália masculina. Era, de fato, transexual.

Em 2005, aos 46 anos, veio a cirurgia de mudança de sexo, feita com autorização do Ministério Público do DF, num hospital público de Goiânia. Recuperou-se. E começa uma nova batalha judicial, agora para mudança de nome e sexo, em todos os documentos. Em março de 2007, uma sentença inédita e comovente de uma juíza bem jovem da 4; Vara de Família, Lília Simone Rodrigues da Costa Vieira, então com 30 anos, autorizou a mudança do sexo no registro civil.

Na sentença, a juíza escreveu: ;O sexo é atributo da personalidade, sendo dela parte integrante. Negando-se o direito de alguém ter o sexo correspondente ao órgão que atualmente possui é sonegar o direito de ser feliz, de ter esperança, de acreditar na vida, de viver com dignidade;.

Contrariando inclusive alguns de seus pares, a juíza continuou: ;Ademais, rechaçar o direito do requerente em ter seu sexo alterado em seu registro civil é plasmar injustiça flagrante, pois o autor, conforme informado nos autos, sempre se sentiu mulher, se veste como mulher e, além disso, repito, já retirou a genitália masculina que possuía;.

Foi a primeira sentença nesse sentido no DF. José Carlos não mais existia. De fato e de direito, nasceu Maria Luiza. Luiza em homenagem à sua avó. E Maria, pela devoção fervorosa à Nossa Senhora. O Correio contou, novamente com exclusividade, mais esse capítulo na vida de Maria Luiza.

Depois, vieram tantas outras matérias. A nova vida fora da Aeronáutica, o recomeço, a luta para ser aceita na sociedade e o desejo de voltar à Aeronáutica, para a mesma função, vestida e aceita como mulher. Essa matéria ainda não foi escrita. E provavelmente nunca será.

Tempos atrás, ainda no início dos anos 2000, o diretor do filme, cineasta Marcelo Díaz, me ligou. Falou sobre a vontade de levar a história ao cinema. No fim do segundo semestre do ano passado, a produtora da Diazul de Cinema, Daniela Marinho, entrou em contato comigo. Contou que a história de Maria Luiza estava sendo produzida. Há pouco mais de um mês, o cineasta marcou o primeiro encontro comigo. No café, ele me disse: ;Resolvi contar a história da Maria Luzia depois que li a sua primeira matéria no Correio. Todas as suas reportagens me ajudaram no roteiro;.

E percebi que a saga de Maria Luiza foi mais longe do que eu imaginava. Ganhou cor, luz, música, plasticidade, mesmo diante de tanta dor, sofrimento e, às vezes, completa escuridão. A arte, de verdade, neste caso, imitou a vida com fidedignidade. Ela mesma será a atriz principal da sua história. Não haverá nenhuma ficção. Nem licença poética. Será a vida contada em lágrimas e muita coragem. Uma vida de alguém cuja maior transgressão foi decidir renascer. Que emocione os espectadores.


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