Ponto a ponto / Ana Suely em relatos

Ponto a ponto / Ana Suely em relatos

postado em 25/06/2017 00:00
 (foto: Arquivo pessoal)
(foto: Arquivo pessoal)


Paixão por livros

Meus pais tiveram pouco estudo, mas sempre valorizaram a educação. Papai colocou as quatro filhas mais velhas, a princípio, numa escola particular. Era um colégio de padres. Numa ocasião, precisávamos comprar roupa de gala, uma farda, para participar do desfile cívico de 7 de setembro. Não tínhamos dinheiro, então faltamos. O castigo foi passar uma semana sem merenda. Durante o recreio, eu e minhas irmãs fomos obrigadas a ficar na biblioteca. Era um momento angustiante, meio constrangedor, mas eu reverti. Foi ali que comecei a ler Alice no país das maravilhas, me interessei pelos livros e decidi que gostaria de trabalhar num lugar como aquele.

Escrita
Meu avô trocava cartas com filhos militares, eu lia e me emocionava. Uma tia-avó escrevia salmos e poemas nas paredes da casa dela. Eu era muito sensível e romântica e ficava encantada com isso. Ainda pequena, gostava de escrever poesias e cartas e oferecer para amigos. Adulta, comecei a manter diários. Colegas de trabalho diziam que eu era boa com as palavras e me pediam para escrever cartões de Natal. Até escrevi cartas para uma amiga mandar para o namorado. Por fim, comecei a escrever poesias, primeiro, só para mim. Depois, passei a mandar para uma amiga. Quando vi, tinha vários textos feitos. Sempre me destaquei em redação: tirei a nota máxima no vestibular.

Servidão
Papai adoeceu de diabetes muito cedo, quando eu tinha 7 anos. A partir daí, passamos muito sufoco. Meu avô dizia ;leva essas meninas para trabalhar na roça;, mas ele respondia que preferia sacrificar a vida dele para nos dar estudo, pois era a coisa boa que podia deixar. Com 14 anos, fui para Fortaleza ser empregada doméstica, mas era tipo ;escrava;: não tinha carteira assinada, ganhava muito pouco, mas, assim, continuei os estudos. Depois de um ano lá, voltei à Madalena, mas tinha a necessidade de voltar, dessa vez, para trabalhar para outra família. Quando fui me despedir do meu pai, ele estava muito debilitado, não conseguiu nem se levantar da rede. Foi a última vez que o vi. Na nova casa, tive dois anos muito ruins. Eu trabalhava o dia inteiro e estudava à noite. Dormia pouco, vivia cansada, chorava, me sentia humilhada, mas rezava muito, estudava e procurava fazer meu melhor. Foram muitas humilhações e tudo que eu pensava era ;ainda bem que meus pais não estão vendo isso;.



Reunião familiar
Fui a primeira da família a sair de casa para trabalhar. Uns tempos depois, minha irmã mais velha, Sonia (que já morreu), também veio para Fortaleza. Quando éramos três irmãs na cidade, nos juntamos para morar num pensionato. Quando a quarta chegou, alugamos uma quitinete. Quando veio a sexta, fomos para uma casa. Com o tempo, vieram todos, inclusive minha mãe. Depois de deixar de ser empregada doméstica, meu primeiro emprego, aos 16 anos, foi como atendente numa clínica de psicologia e psiquiatria. Depois, comecei a trabalhar como digitadora no Serpro (Serviço Federal de Processamento de Dados). Mais tarde, virei bibliotecária lá dentro.

Vestibular e faculdade
Estudei em escola particular apenas um ano, o resto foi todo na rede pública. Meu ensino médio era profissionalizante em administração. Fiz dois anos de cursinho pré-vestibular até passar para biblioteconomia na federal. Todos os meus irmãos fizeram curso superior. A graduação foi um tempo muito bom, participei de muitos eventos, conheci pessoas especiais como Frei Betto e Paulo Freire. A segunda graduação fiz mais tarde, me dividindo entre trabalho e cuidado com filhos. O mestrado terminei no ano passado. Foi um período custoso, viajando para Santa Maria (RS) toda semana.

Família
Quando eu era criança, dizia que queria me casar com um funcionário do Banco do Brasil, maior referência de profissional à época. Foi o que aconteceu. Quando nos conhecemos, ele ainda não trabalhava no banco e passou na seleção depois que nos casamos. Meu marido precisou ir trabalhar no interior, a 600km de Fortaleza. Passamos cinco anos morando longe. Mais tarde, a agência em que ele trabalhava fechou e era preciso escolher um novo lugar para trabalhar. Meu sogro, com muita visão, falou para irmos para Brasília. Chegamos à capital federal em 1995.

Carreira
Passei por quatro demissões, mas elas me levaram mais longe. As três primeiras vezes foram na mesma instituição: o Serpro. Fui mandada embora quando estava de dois meses de licença maternidade, depois que começou o governo Collor de Mello. O caso virou uma batalha judicial e fui trabalhar na administração pública do Ceará. Dois anos depois do impeachment, fui anistiada e retornei ao Serpro, onde continuei inclusive quando nos mudamos para Brasília. Aqui, entraram com recurso e cassaram minha vaga. Um mês depois, voltei graças a uma liminar. Após um ano, fui demitida mais uma vez. Eu não aguentava mais e parti para outra. Prestei consultoria, fui nomeada num cargo no Arquivo Público do DF, trabalhei na Funai (Fundação Nacional do Índio) e na CNI (Confederação Nacional da Indústria). Em 2011, com a troca da presidência da última instituição, por questões políticas, me demitiram. Eu estava com 53 anos e faltavam seis meses para me aposentar. Foi um baque sair de um cargo em que eu ganhava R$ 13 mil e encontrar seleções apenas para vagas com baixos salários. Claro que isso me puxou para baixo, mas, quando decidi parar de chorar, apareceram oportunidades de consultoria em organismos importantes, como a ONU (Organização das Nações Unidas), a última que eu fiz e também a minha melhor.

Dificuldades
Nos momentos difíceis da minha vida, a impressão que eu tinha é a de que eu estava no escuro. Mas sou muito resiliente, simples, humilde, sempre aceitei críticas para melhorar. Tive muita determinação, garra, fé, coragem, otimismo... E paixão pelo que faço. Mas o fundamental é a minha base, eu tinha uma família estruturada e prometi a meu pai que seria doutora. Uma das minhas frases preferidas é ;Se é possível sonhar, é possível fazer;, do Walt Disney. Sou muito querida e admirada e ainda vou fazer muita coisa. Ainda quero dar aula em universidades, escrever um livro sobre arquivos, dar mais consultorias, morar na Chapada dos Veadeiros e montar um centro cultural lá. Não carrego nem arrependimento nem trauma. Ouvi um guru que disse que fui bibliotecária em outras vidas. Se eu nascesse de novo, gostaria de ser bibliotecária, arquivista e escritora, tudo o que sou.


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