Paulo Pestana

Paulo Pestana

por Paulo Pestana Especial para o Correio papestana@uol.com.br
postado em 25/06/2017 00:00
O touro pelo rabo

Pode ser até a manifestação de algum espírito de porco que mora em mim, mas sou daqueles que, na tourada, torce pelo touro, embora saiba que no fim ele vai virar churrasco. Claro que é uma torcida hipotética, já que ninguém, jamais, me verá numa arena ; o mais perto que cheguei, foi do lado de fora da Plaza de Toros Monumental, em Barcelona. Nem tirei foto.

Ainda assim não comemorei a morte do toureiro basco Iván Fandiño que, semana passada, levou uma chifrada fatal ao escorregar durante uma ginga, atrapalhando-se com a capa. Não disse ;bem-feito; nem depois de saber que, naquela mesma tarde, ele havia cortado a orelha de outro touro.

É só lamentável que um espetáculo brutal e sangrento como este atraia tantos humanos, evidenciando que há algo de muito errado com a raça.

A imagem que tenho dos bovinos é a que Nelson Rodrigues celebrizou em seus escritos; olhar parado, baba escorrendo, símbolo de humildade e placidez ; e um pouco de estupidez. É o mesmo gado que segue tangido para o abate, e enriquece gente como os irmãos Batista que ficam com o filé, nos deixando ; quando muito ; o osso.

O touro de arena é, ao contrário, a representação da selvageria; furiosa, descontrolada e bufante. E a tourada é uma covardia. Nem todo mundo sabe, mas o animal escolhido para enfrentar o homem não pode ter mais de cinco anos, porque a partir dessa idade ele fica esperto demais, ou seja, muito perigoso.

Não temos nada a ver com essa paixão hispânica ; e um pouco portuguesa, mas que os nossos avozinhos não conseguiram emplacar por aqui, ao contrário do bolinho de bacalhau. Mas temos com a vaquejada.

É menos sangrenta, mas igualmente degradante. E, dependendo dos senhores senadores, será defendida pela Constituição Brasileira, esse livrinho tão rasurado. A proposta de emenda constitucional já passou pela Câmara e deve ser aprovada pelo Senado ; como as duas casas não têm nada mais importante para cuidar é compreensível que legislem sobre isso.

Esses intelectuais com mandato propõem que a vaquejada seja considerada manifestação cultural, donde podemos prever que as rinhas de galo também voltarão, quase 60 anos depois de proibidas, porque não há sentido em proteger maus-tratos contra galináceos e condenar bovinos ao martírio. Ainda mais por causa de uma diferença fundamental: galos brigam entre si, enquanto o boi enfrenta homens.

Nada vai impedir também que tenhamos de volta os circos com leões desdentados, tigres subnutridos, elefantes mancos, todos presos em minúsculas celas, fustigados pelos ;tratadores;.

Nas touradas, os animais são confinados em espaços restritos, praticamente imóveis, sem nada para comer ou beber e, para deixá-los furiosos, recebem choques elétricos.

O espetáculo cultural brasileiro se resume a dois brutamontes que esporeiam cavalos para cercar um boi em disparada, impulsionado pelo medo, e que deve ser derrubado pelo rabo. Viva a cultura nacional!

Só falta agora entrar com pedido no COI para fazer da Farra do Boi, aquela correria desenfreada para fugir de um animal em desabalada carreira, esporte olímpico.


Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação