Sete horas de pavor

Sete horas de pavor

Mulher com extensa ficha criminal rapta bebê de três meses, no Conic, e foge para o Entorno. A sequestradora tinha uma certidão de nascimento falsa da criança, filha de uma desempregada, enganada com uma promessa de trabalho

Participaram da cobertura: Júlia Campos, Thiago Soares, Gabriella Bertoni, Paula Pires, Jéssica Eufrásio* e Patrícia Nadir* (*estagiárias sob supervisão de Renato Alves)
postado em 30/06/2017 00:00
 (foto:  Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)


Vinte e três dias depois, Brasília volta a viver o drama de um sequestro de bebê. Dessa vez, uma criança de 3 meses foi levada na área central, enquanto a mãe fazia um exame admissional em uma clínica do Conic. Ao entrar para o atendimento, Arlete Bastos da Silva, 29 anos, que tem quatro filhos, deixou Valentina, a caçula ; vestida com macacão rosa e branco ; aos cuidados de Cevilha Moreira dos Santos, 44. Policiais militares goianos encontraram a raptora e a neném 7 horas depois, em Planaltina de Goiás, a 60km do local do crime. Na tarde do dia 6, uma mulher entrou no Hospital Regional da Asa Norte (Hran) e roubou um recém-nascido. Policiais civis localizaram o menino na casa da sequestradora, no Guará, na manhã seguinte (veja Memória).

Assim como Gesianna de Oliveira Alencar, 25 anos, que levou o bebê do Hran alegando que queria ter um filho, Cevilha afirmou precisar de uma criança para manter o casamento. ;Eu errei, foi um momento de fraqueza. Estou doente, com depressão. Perdi meu bebê há cinco meses e o meu marido disse que, se eu não tivesse um filho, ia me largar;, disse a raptora confessa de Valentina, já presa, em entrevista ao Correio. Ela registrou Valentina como filha legítima, em um cartório do Gama. O documento, apreendido por PMs de Goiás, traz outras informações falsas: a menina tem o nome de Isabele dos Santos Silva, nascida às 13h de quarta-feira, no Hospital Regional de Sobradinho (HRS). Valentina nasceu no HRS, mas em 26 de março.

Cevilha foi levada para o Centro Integrado de Operações em Segurança Pública (Ciosp) de Planaltina de Goiás, no fim da tarde de ontem, onde prestou depoimento ao delegado Cristiomário de Sousa Medeiros, chefe da unidade. Depois, seguiu para cadeia da cidade. Um juiz vai decidir se a manterá no cárcere. Ao Correio, ela negou integrar qualquer quadrilha. A princípio, será indiciada por sequestro qualificado e uso de documento falso. Cevilha tem uma extensa ficha criminal: foi presa por ameaça, lesão corporal e injúria, em 2017; apropriação indébita e tentativa de homicídio, em 2016; e por furto, em 2009. Cristiomário afirmou que vai investigar a possibilidade de Cevilha integrar uma quadrilha de roubo e venda de bebê. Mulheres foram ao Ciosp na noite de ontem e disseram que Cevilha esteve na cidade, semana passada, procurando mães de bebês com até três meses.



Reencontro

Policiais militares chegaram a Cevilha e a Valentina graças à denúncia de moradores da cidade goiana, que reconheceram a bebê por meio de fotos divulgadas pelas TVs e pelos sites de notícia do DF. Os denunciantes viram as duas entrando em um táxi, em Planaltina de Goiás. Os PMs goianos abordaram o veículo quando deixava a cidade, em direção à vizinha Planaltina (DF), por volta das 16h40. Ao perceber o cerco, Cevilha ameaçou o motorista. Disse que, se ele parasse, retornasse ou fizesse uma manobra brusca, mataria o bebê. Mas ele parou e a mulher nada fez.
Após o resgate, policiais levaram Valentina para o Hospital Municipal Materno-Infantil Santa Rita de Cássia, em Planaltina de Goiás, onde deu entrada às 17h20, com muita fome, a mesma roupa, mas sem ferimento. Uma enfermeira a alimentou por meio de sonda. Policiais civis do DF viajaram com a mãe até a cidade do Entorno, onde seguiram direto para a unidade de saúde. Assim que chegou, Arlete pegou a filha no colo, lhe deu um beijo e começou a amamentá-la. Pouco depois, falou do drama, ao Correio. Disse que pensou em se matar quando viu que a bebê não estava mais perto dela. ;O que vinha na cabeça era que Cevilha ia matar Valentina;, afirmou. ;Foi muito emocionante ver que minha filha estava bem. Fiquei feliz demais. Graças a Deus foi um sofrimento rápido;, completou.

Solidariedade

O drama de Arlete começou às 10h10, quando ela entregou Valentina a Cevilha. Moradora da Vila Rabelo, em Sobradinho, Arlete havia saído de casa às 6h30, após pedir R$ 5 emprestados ao irmão gêmeo, Arlan Bastos. O dinheiro era para pagar a passagem do ônibus até outra parada, onde encontrou Cevilha. Com a filha bebê no colo, Valentina pegou nova condução, na companhia de Cevilha, para a Rodoviária do Plano Piloto, onde chegaram às 9h. Desempregada, a mãe havia recebido uma proposta de trabalho da suposta sequestradora. Mas, antes, deveria fazer um exame admissional, em uma clínica particular no Edifício Boulevard, no Conic.

Parentes de Arlete contaram que ela conheceu Cevilha dias atrás, em um posto de saúde de Sobradinho. Na ocasião, Cevilha prometeu emprego à mulher, além de uma cesta básica e roupas para a bebê. ;Arlete chegou em casa contando que havia feito uma nova amiga que se dispôs a ajudá-la a conseguir uma vaga em uma empresa de serviço de limpeza;, relatou Arlan Bastos, o irmão gêmeo, ao Correio. Irmã de Arlete, Norlene Bastos, 37, viu Cevilha entrando na casa onde a família mora, no início da semana. ;Ela ficou uns 10 minutos aqui em casa, depois saiu e retornou com uma sacola cheia de mantimentos para a Arlete;, contou.

Márcia Rodrigues de Souza, 44, cunhada de Arlete, destacou que Cevilha era vista na vizinhança desde março. ;Ela oferecia enxoval para mulheres grávidas.; Já Madalena dos Santos, 31, outra cunhada de Arlete, comentou que Cevilha prometeu que Arlete começaria a trabalhar ontem. ;Ofereceu um salário de R$ 1 mil, mais um tíquete-refeição de R$ 600. Comprou arroz e leite para minha cunhada. Disse que ela tinha que ir ao Conic para fazer exames e que a empresa estava pagando tudo;, afirmou.

Tranquilidade

Assim que a mãe percebeu o sumiço da filha, aos gritos, pediu socorro. Funcionários da clínica onde ela estava acionaram a Polícia Militar. Logo, várias equipes da PM começaram a busca pela criança no Plano Piloto. A Delegacia de Repressão a Sequestros (DRS), da Polícia Civil, passou a investigar o caso. A identidade da suspeita foi descoberta graças às imagens das câmeras do Conic e à descrição da mãe. O vídeo mostra o momento em que Arlete e Cevilha chegaram ao prédio. Minutos depois, a sequestradora aparece no vídeo, fugindo com a criança no colo.

Cevilha pegou um táxi, em frente ao Conic, e desceu na Estação de Metrô da 114 Sul. O taxista que transportou Cevilha disse que ela não apresentava nervosismo. ;Em nenhum momento pensei que ela não poderia ser mãe daquela criança;, ressaltou João Batista, 44. Ele contou que a cliente pediu para seguir a viagem até a 208 Sul, mas, no meio do percurso, mudou o destino. ;Ela disse que havia confundido o endereço. Depois de olhar o celular, informou que encontraria o filho na 114 Sul;, lembrou o taxista. Cevilha realmente desceu na 114 Sul, segundo testemunhas.

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