Correio Econômico

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Os fatos têm atropelado o governo. Não há mais planejamento de médio e longo prazos. Agora, os planos não duram mais do que 24 horas. E mais: o ajuste fiscal começa a fazer água

por Vicente Nunes / vicentenunes.df@dabr.com.br
postado em 06/07/2017 00:00
A agonia de cada dia
O governo enfrenta uma maré tão ruim que assessores do presidente Michel Temer dizem que é impossível olhar muito além de 24 horas. ;Estamos operando no dia a dia. Os fatos estão nos atropelando de uma forma tão veloz que é impossível dizer como será o amanhã;, afirma um dos ministros mais próximos do presidente. ;Cada dia é uma agonia. Todo o nosso planejamento foi para o espaço. Agora, só nos resta sobreviver;, acrescenta.

Pelo planejamento inicial traçado pelo Palácio do Planalto, neste início de julho, o governo estaria comemorando a aprovação da reforma trabalhista pela Câmara e pelo Senado e já teria garantindo, em primeiro e segundo turnos, vitória na reforma da Previdência. Nesse cenário, dizem assessores presidenciais, Temer estaria surfando com a economia mais forte. Não haveria um salto de popularidade, mas o índice estaria bem distante dos 7% de aprovação registrados pelas pesquisas.

Na realidade que se impõe, Temer não consegue dizer, hoje, se terminará o mandato. Em vez de vitórias certas no Congresso, luta, de forma desesperada, para garantir votos entre deputados a fim de derrubar uma denúncia de corrupção passiva feita pela Procuradoria-Geral da República. A reforma trabalhista, que só falta ser votada pelo plenário do Senado, não está totalmente garantida. No caso da reforma da Previdência, são mínimas as chances de se aprovar qualquer coisa neste ano.

A desilusão em relação às mudanças no sistema previdenciário é tamanha que, para não frustrar os investidores que ainda mantêm apoio ao governo, a equipe de Temer defende que o projeto de reforma seja fatiado. É uma forma de dar esperança aos agentes econômicos de que alguma coisa está sendo feita para garantir o controle dos gastos públicos. Contudo, nem mesmo esse fatiamento é visto como certeza de apoio do Congresso ao polêmico projeto.

Calotes constantes
Não bastasse a luta pela sobrevivência, Temer corre o risco de não entregar sua principal promessa: o ajuste fiscal. Com a forte queda da arredação, fruto da impressionante desaceleração da economia, são cada vez maiores as chances de o Tesouro Nacional encerrar o ano com rombo maior do que o teto de R$ 139 bilhões previsto no Orçamento. Os números das contas públicas divulgados pela equipe econômica só não são piores porque uma série de contratos não está sendo paga. Isso mesmo: o governo está dando calote em vários de seus fornecedores.

O que mais preocupa entre os que acompanham as finanças do país é que o governo está trilhando um caminho perigoso demais. Para garantir o mandato, Temer decidiu liberar emendas de parlamentares. Somente em junho, foi empenhado R$ 1,8 bilhão nessa rubrica, quase 20 vezes o total de R$ 102,5 milhões desembolsados no acumulado de janeiro a maio. Essa política do vale-tudo para obter apoio no Congresso é considerada suicida mesmo por aliados do peemedebista.

Ao mesmo tempo em que o presidente passa aos investidores a imagem de um governo descompromissado com o equilíbrio das contas públicas, não há a garantia de que ele terá os votos suficientes para continuar no comando do país. Esse filme foi visto na etapa final do governo de Dilma Rousseff. Ela teve o mandato cassado, apesar do escancaramento dos cofres da União. ;Negociações políticas são legítimas, sobretudo num momento tão conturbado. Mas, ao colocar em risco o ajuste fiscal, o quadro se complica. Ninguém aceitará retrocessos nessa área;, admite um técnico da equipe econômica.

O ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, garante que, a despeito de toda a turbulência política, o compromisso com o ajuste fiscal é intocável. Ele segue à risca o papel de enfatizar tal discurso. Mas o sinal de alerta dos técnicos foi ligado. Nada está saindo como o previsto. A economia não se recuperou como o esperado, a arrecadação está muito fraca, as receitas extraordinárias estão se tornando improváveis e os gastos incompatíveis com o ajuste continuam.

Enfim, o principal pilar da confiança dos agentes econômicos em relação ao governo está prestes a ruir. Resta saber se ainda haverá tempo de o bom senso reverter o desastre. A contagem regressiva começou.

Colaborou Rosana Hessel

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