Xadrez ou roleta-russa?

Xadrez ou roleta-russa?

postado em 06/07/2017 00:00
Com o lançamento exitoso e comprovado de um míssil balístico intercontinental, capaz de atingir ; no mínimo ; o estado americano do Alasca, a Coreia do Norte introduziu um elemento novo e crítico no tabuleiro de um jogo que se arrasta há meio século, sem indicadores de que haja saída à vista. O que está em pauta, em mais um desafio feito pelo regime comunista norte-coreano, é a capacidade da comunidade internacional para impedir que ameaças trocadas se transformem em uma troca de hostilidades cujas consequências são difíceis de prever.

O fator que potencializa o grau de risco envolvido nesse impasse são as dúvidas em torno da racionalidade nas decisões das duas partes críticas para uma solução ; Coreia do Norte e Estados Unidos. De um lado, o líder comunista Kim Jong-un parece apostar em algum tipo de ;solução final;: ter os EUA sob ameaça de um ataque nuclear, de modo a negociar algum tipo de reconhecimento. Do lado oposto, o presidente Donald Trump ancorou a própria imagem a promessas de que o regime de Pyongyang jamais colocaria sob ameaça o território americano. O veterano bilionário e o jovem herdeiro da dinastia Kim jogam segundo as regras e as práticas do pôquer.

Qualquer abordagem racional da situação na Península Coreana pressupõe a compreensão de que a raiz do impasse está na persistência de um estado de guerra ; ao menos em termos técnicos. A divisão entre Coreia do Norte (comunista, ao menos no nome) e Coreia do Sul (capitalista mesmo no nome) é tributo póstumo à Guerra Fria, da qual a Guerra da Coreia (1950-1953) foi um dos desdobramentos. Situações análogas, como a do Vietnã, resolveram-se. Ali, porém, as duas metades de uma mesma nação desenvolvem-se há sete décadas em rumos tão díspares que até mesmo o idioma comum se aparta de maneira a apontar para a consolidação de duas línguas distintas.

É por essa perspectiva que deve começar qualquer tentativa de dissecar a esfinge coreana e divisar caminhos para evitar que se torne realidade a ameaça latente à segurança e à estabilidade do globo. Sucessivas rodadas de sanções econômicas e diplomáticas, escoradas em ameaças veladas e esporádicas do recurso à força militar, foram inócuas para coibir a Coreia do Norte de tornar-se uma potência nuclear. Pior: o desenvolvimento de mísseis deixa o país, hoje, no umbral de deter a capacidade para atacar com armas atômicas o território continental dos Estados Unidos.

Nas quatro décadas da Guerra Fria, o mundo conviveu com a ameaça de aniquilação nuclear mútua entre os EUA e a hoje extinta União Soviética. Naquele quadro, porém, as jogadas de Washington e de Moscou se enquadravam nos limites de uma disputa entre superpotências com o objetivo comum da supremacia global. A nenhuma das duas interessava ir às vias de fato. Hoje, o cerne da questão está na estratégia de um regime crescentemente isolado para sobreviver ; ainda que seja pelo recurso à chantagem.

Antes que a escalada de tensão conduza a situações sem margem para retorno, o interesse da paz internacional impõe como opção praticamente única a busca do diálogo ; não apenas sobre os temas imediatos. A sobrevivência anacrônica das duas Coreias, como uma espécie de morto-vivo da Guerra Fria, é o obstáculo a ser removido. Mais do que respostas militares, o que se espera dos estadistas são respostas políticas e diplomáticas ; algo como trocar o jogo bruto do pôquer pela sutileza do xadrez. A retórica da supremacia bélica, aqui, de nada servirá. No máximo, projetará para o futuro a sombra de uma hecatombe como as que marcaram o século 20.

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