Crônica da Cidade

Crônica da Cidade

por Severino Francisco >> severinofrancisco.df@dabr.com.br
postado em 06/07/2017 00:00
O inferno é gelado

Entrei em um site de meteorologia e li o aviso em letra vermelha: ;Atenção, você pode ficar gripado segundo a temperatura e a umidade do ar;. Não precisava advertir, em todos os lugares por onde passo, ouço uma sinfonia de tosse.

Nós, os brasilianos, somos fortes, resistentes e resilientes. Estamos preparados para enfrentar o sol cangaceiro do verão, com o fuzil de luz de tiro repetido. E também as agruras da seca com umidade próxima a do deserto do Saara. Mas somos completamente despreparados para encarar o frio.

Passei incólume pelos últimos cinco invernos sem me preocupar com a temperatura. No entanto, o inverno chegou com cara de inferno, derrubando a todos. Basta olhar para os lados e ver o estrago. Muitos estão gripados, alguns tombaram na cama ou no hospital. De repente, nordestinos e nordestinas se encapuzaram tanto que ganharam a feição de europeus.

Mas não me parece que o efeito geral seja de elegância. Tenho a impressão de que o frio está deixando os brasilienses meio tortos. Bem sei que o inverno tem o seu charme. O frio de Brasília nunca chegou a incomodar. No máximo, ele roçava a pele de uma maneira refrescante.

Só que, neste ano, o frio resolveu ultrapassar a pele, bater no osso e gelar a alma. Os termômetros assinalaram a marca inédita de 8 graus centígrados. É uma temperatura de São Paulo, de Porto Alegre ou de Curitiba.

Contudo, trouxe uma novidade gelada; a sensação no corpo era de 4 graus em alguns lugares do DF, como é o caso do Gama. O diagramador Laerty Filgueira, ilustre cidadão gamense, retirou o seu suéter inglês do guarda-roupa, devidamente equipado com aquecedores climáticos computadorizados, para se proteger.

De minha parte, confesso a minha dificuldade em me relacionar com o frio. Aliás, essa foi uma das razões que levaram a me mudar de São Paulo para Brasília em 1970. Lembro que sofria uma angústia metafísica e tinha dificuldades em sentir os pés no chão. O que me salvava era uma carrocinha de pastéis deliciosos na volta do caminho, com pimenta de fazer sair fumaça pela boca.

Desgosto das estações, dos alimentos e das pessoas geladas. Elas me ativam uma tendência à depressão, que não tenho durante os tempos regidos pelo sol e pelas pessoas solares. Mas reconheço que se trata exclusivamente de uma idiossincrasia. Não podemos responsabilizar o tempo por nada em nossa vida, sequer pela felicidade ou infelicidade pessoal.

Uma colega da redação me mostrou uma garotinha, personagem de quadrinhos, que escancara a boca e ocupa o espaço todo da página para gritar a plenos pulmões: ;Eu não nasci para inverno;. Que me desculpem os que apreciam as delícias da estação gelada, mas eu também não nasci para o frio.

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