Morreu Liu Xiaobo, um guerreiro da paz

Morreu Liu Xiaobo, um guerreiro da paz

Dissidente chinês laureado com o Nobel da Paz, em 2010, perde a batalha contra o câncer, após Pequim negar tratamento no exterior

» RODRIGO CRAVEIRO
postado em 14/07/2017 00:00
 (foto: Isaac  Lawrence/AFP    
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(foto: Isaac Lawrence/AFP )

Para muitos, soava quase como premonição distante. Para outros, não passava de utopia. ;A China, eventualmente, se tornará um país do Estado de direito, no qual os direitos humanos são supremos;, escreveu Liu Xiaobo, 61 anos, no livro de poemas e ensaios No enemies, no hatred (;Sem inimigos, sem ódio;, pela tradução literal). Preso desde 2009, condenado a 11 anos por ;incitar a subversão ao poder do Estado;, o dissidente chinês perdeu a batalha para o câncer de fígado e morreu, ontem, no Hospital Universitário N; 1 de Shenyang (nordeste), depois de pedir a Pequim para receber tratamento médico no exterior, o que lhe foi negado. O Gabinete de Assuntos Jurídicos de Shenyang confirmou a morte e revelou que Liu faleceu três dias após começar a receber terapia intensiva. Teng Yue;e, médico do ativista, revelou que ele morreu ;em paz;, ao lado de familiares. As últimas palavras para a mulher, Liu Xia, foram ;Siga vivendo bem;.

Principal símbolo da luta pela democracia em seu país e ganhador do Nobel da Paz em 2010 ; a China o impediu de participar da cerimônia e de receber o prêmio (veja foto abaixo) ;, Liu foi homenageado por ativistas de direitos humanos e por autoridades mundiais (leia a repercussão). A comunidade internacional pressiona Pequim pela libertação de Liu Xia, que cumpre prisão domiciliar. O português António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), se disse ;profundamente triste; com a morte e externou as condolências à família e aos amigos do chinês.

A morte do escritor encarcerado depois de firmar a Carta 08, manifesto que advogava o fim do sistema de partido único na China, expôs o tratamento polêmico dispensado por Pequim à dissidência. ;No fim de junho, chegaram notícias de que Liu Xiaobo tinha sido liberto da prisão e transferido para um hospital, mas ainda estava sob guarda e era mantido em completo isolamento. Nós consideramos profundamente perturbador que Liu Xiaobo não tenha sido transferido para uma instalação onde poderia receber tratamento médico adequado. O governo chinês carrega pesada responsabilidade por sua morte prematura;, declarou Berit Reiss-Andersen, presidente do Comitê Nobel Norueguês. Segundo ela, apesar de recomendações para que oncologistas alemães e norte-americanos o visitassem, a China decidiu manter o isolamento.


;Humanidade;

Em raro ponunciamento à imprensa sobre a dissidência, o porta-voz do Ministério de Assuntos Exteriores da República Popular da China, Geng Shuang, afirmou que as autoridades ;fizeram todos os esforços para tratar Liu com humanidade e de acordo com a lei;, após o diagnóstico do câncer. Shuang acrescentou que o dissidente foi condenado por violar a lei chinesa e classificou de ;intrusão imprópria; em assuntos internos quaisquer críticas sobre o modo com que Pequim abordou o caso. ;A China temia tanto a voz de Liu Xiaobo que, mesmo quando ele se encontrava no leito de morte, vergonhosamente não lhe permitiu receber atenção médica no exterior;, disse ao Correio Ken Roth, diretor executivo da organização Human Rights Watch (HRW). ;A China conseguiu calar essa voz corajosa, mas o símbolo de Liu permanece e inspirará a luta por uma nação democrática.;

Roth lembrou que a Alemanha pediu a Pequim explicações sobre o motivo pelo qual o câncer de Liu não foi detectado a tempo. ;Foi como se a China estivesse ansiosa demais para se livrar desse farol da democracia;, ironizou. Fundador e ex-presidente global da PEN International ; o movimento de escritores do qual Liu fazia parte ;, o filósofo canadense fez pesadas críticas ao governo chinês. ;A China é uma grande civilização, sua história está repleta de importantes façanhas. Quando eu penso em Liu Xiaobo, eu me lembro do notável ensaísta Lu Xun, que se levantou contra a estupidez e a corrupção, entre as décadas de 1920 e 1930. Liu, de muitas maneiras, herdou a missão de Lu Xun. E sei que Lu Xun diria que não foi a China ou o povo que envergonhou a nação, mas o governo. Isso é algo que os responsáveis pela morte de Liu terão de carregar para sempre;, lamentou, por e-mail.

O escritor dissidente chinês Wen Yunchao contou ao Correio que conhecia Liu, apesar de não terem sido amigos. ;O mais importante legado é o fato de ele ter sido o líder do Movimento da China Carta 08. Liu foi o revisor e organizador do documento. A sua morte é o fim de um movimento democrático moderado.;

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