Margem de erro: 100 pontos percentuais

Margem de erro: 100 pontos percentuais

» JORGE ANTUNES Maestro, professor aposentado e pesquisador sênior da UnB, membro da Academia Brasileira de Música
postado em 14/07/2017 00:00


Pesquisas e mais pesquisas pululam e pulularão até o próximo ano. Levantamentos estatísticos, enquetes, avaliações e projeções estarão, por um bom tempo, na ordem do dia. Nos acostumaremos com o uso abusivo e constante da expressão margem de erro.

Margem de erro e desvio padrão são desafios que a natureza e a realidade impõem ao pobre ser humano ansioso por descobertas, pesquisas, futurologias e adivinhações, por mais científicas que sejam.

Werner Heisenberg revolucionou a física e recebeu o Prêmio Nobel de 1932 por ter criado a mecânica quântica. Em 1927, o grande físico alemão já havia publicado artigos sobre suas pesquisas, apontando para problemas nas medições das propriedades da partícula atômica.

Era o surgimento do famoso princípio da incerteza. Essa teoria diz que não podemos medir, com precisão, a posição e a quantidade de movimento de uma partícula. Ao tentarmos medir uma dessas grandezas, perturbamos as condições da outra, tornando impossível a medição.

Podemos afirmar que a presença do homem no espaço da pesquisa de um fenômeno altera este, impossibilitando a medição precisa. Para observarmos a posição de um elétron, precisamos iluminá-lo. Mas ao iluminarmos o elétron, modificamos suas condições, impossibilitando medições.

John Cage viveu experiência ímpar, quando tentou observar o silêncio absoluto. Trancou-se na câmara anecoica da Phillips, sala inteiramente silenciosa, com isolamento que não permitia a entrada de nenhum som externo. Não aguentou ficar muito tempo lá dentro. A partir de alguns minutos, começou a ouvir os ruídos ensurdecedores das batidas do coração e, em seguida, o ruído terrível da circulação sanguínea. Conclusão: na tentativa de ;ouvir; o silêncio, o homem chega à conclusão de que ele (o silêncio) não existe.

Parece que o princípio da incerteza também pode ser aplicado às pesquisas sociais. É muito grande a velocidade com que as realidades sociais, políticas e culturais se modificam. O homem, na ânsia de medir essas realidades, se vê frustrado porque, ao terminar a pesquisa, verifica que ela está obsoleta, ultrapassada.

Uma pesquisa eleitoral que pretenda avaliar posições da opinião pública enfrenta esse desafio. Durante quatro dias são feitas perguntas ao povo. No quinto dia, realizados os levantamentos estatísticos, é revelada a preferência por determinado político. Mas o dito cujo, nesse ínterim, faz uma declaração desastrosa, ou é denunciado ou é preso. Danou-se. Quando é divulgada, a pesquisa já não tem relação com a realidade.

Li com grande interesse uma publicação recente do Movimento Nossa Brasília e do Inesc, com o sugestivo título de Mapa das desigualdades. Trata-se de trabalho de pesquisa de fôlego, medindo as desigualdades sociais entre três regiões do Distrito Federal: Estrutural, Samambaia e São Sebastião. Os resultados são dramáticos. As desigualdades sociais são enormes.

O trabalho foi publicado recentemente. Entretanto, os indicadores utilizados foram o Censo do IBGE de 2010 e a Pdad (Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílios) de 2015. Entrevistas foram feitas com a população das três regiões, com as quais foram realizadas oficinas. Assim, a metodologia permitiu resultados em diversas áreas: saúde, educação, trabalho, emprego, segurança pública, mobilidade urbana, saneamento básico, meio ambiente e cultura.

Vale a pena nos fixarmos no relatório referente à cultura. Durante as oficinas nessa área, foram levantados temas importantes, tais como os equipamentos públicos de cultura, esporte e lazer. A falta de apoio governamental foi a tônica nas denúncias dos moradores das três regiões.

Mas vejamos a maior revelação da pesquisa: ;Os moradores locais precisam se deslocar ao Plano Piloto para ter acesso a equipamentos culturais como museus, teatros, bibliotecas, cinemas, shows e atividades esportivas;. Durante o processo de publicação dos resultados, a realidade avançava inexoravelmente em sua triste transformação. Aquela reclamação já não mais tinha cabimento.

Pobre do morador da Estrutural que se aventurasse a ir ao Plano Piloto para assistir a um concerto no Teatro Nacional: o encontraria fechado. O morador de São Sebastião que fosse ao Plano Piloto buscar uma boa livraria ou cinema, encontraria um templo religioso em seu lugar. Se fosse ao Plano Piloto consultar um livro na Biblioteca Demonstrativa, encontraria esta fechada.

A realidade se deteriora com a velocidade da luz. Estudá-la é possível, mas publicar relatórios sobre ela é narrar história do passado. Qualquer pesquisa, ao ser publicada, fica marcada com margem de erro de 100 pontos percentuais, em um intervalo de confiança de 0%.

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