As vítimas da `guerra`

As vítimas da `guerra`

CIDA BARBOSA cidabarbosa.df@dabr.com.br
postado em 24/07/2017 00:00

O vídeo viralizou na internet há dois meses: um professor cantava para crianças no corredor de uma escola em Paciência, na zona oeste do Rio, durante tiroteio nas proximidades que durou 40 minutos. O herói, como passou a ser tratado, contou ter tomado a atitude para controlar o pânico que se espalhava entre os alunos, muitos estavam aos prantos.

O professor conseguiu acalmar os pequenos, mas a violência é tão frequente no local que o trauma deles pode causar danos irreversíveis. Embora tenhamos noção disso, o alerta foi dado por um organismo internacional na semana passada. ;A violência tem um impacto psicossocial devastador em crianças, com muitas delas sofrendo de síndromes de estresse, como pesadelos e ansiedade;, avisou o Unicef. Pode ser pior. Há risco de elas entenderem a violência como forma de resolver conflitos.

O fundo das Nações Unidas para a infância poderia estar se referindo às guerras na Síria, no Iraque, no Afeganistão, no Sudão, mas o comunicado foi dirigido diretamente ao Rio de Janeiro. O estado vive um caos, sem nenhum controle da segurança pública.

Como resultado, o aumento exponencial de tiroteios, assaltos (até em fila de hospital), assassinatos. E, em meio à guerra urbana estão crianças. De acordo com a Secretaria Municipal de Educação do Rio, em apenas oito dos 105 dias do ano letivo, não houve interrupção de aulas por conflitos violentos. A conta é de quase 130 mil estudantes prejudicados.

Os estabelecimentos de ensino potencialmente afetados, claro, são os que ficam perto das favelas mais problemáticas, como Acari, Cidade de Deus, Complexo do Alemão e Complexo da Maré. Trocando em miúdos, a única chance de crianças de comunidades carentes quebrarem o círculo vicioso de penúria é por meio da educação, mas, além de um ensino claudicante, nem a isso estão tendo acesso. O Unicef bateu nessa tecla. ;Estudos mostram que interrupções seguidas em ambientes violentos afetam negativamente a capacidade de uma criança se concentrar e aprender sem medo;, avisou.

Diante do agravamento dos distúrbios no Rio, inclusive com repercussão internacional, o Planalto ; focado em barrar a denúncia de corrupção contra o presidente ; ensaia colocar em prática o Plano Nacional de Segurança Pública, anunciado há quase sete meses. A primeira medida, porém, foi desanimadora. Informou-se que o Rio ganhará o reforço de 800 homens da Força Nacional e da PRF, mas eles já estavam patrulhando as vias do estado. Desse jeito, assim como as crianças que vivem em zonas de guerra mundo afora, as fluminenses não sabem quando, e se, poderão finalmente aprender e viver em paz.

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