Poder público ignora problemas

Poder público ignora problemas

postado em 06/08/2017 00:00
Em meio ao fogo cruzado entre operadoras e hospitais, o poder público fechou os olhos para os problemas. O Conselho de Saúde Suplementar (Consu), que deveria estabelecer e supervisionar a execução de políticas e diretrizes gerais do setor está largado às moscas. O colegiado deveria fazer parte da estrutura do Ministério da Saúde. Procurada, a pasta informou que o grupo era de responsabilidade da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). A reguladora, entretanto, destaca que o Consu é da competência do Ministério da Saúde.

A ANS afirma que tem incentivado operadoras e prestadores de serviço a discutir o modelo de remuneração dos serviços médicos em um grupo de trabalho criado no ano passado. Entretanto, a mesma iniciativa foi tomada durante a gestão petista. Entre 2010 e 2013, outro grupo de trabalho consolidou um documento com recomendações, conhecido como Carta de São Paulo, mas poucas delas foram executadas.

O presidente da consultoria BSA, Flávio Dias de Abreu, especialista em gestão de saúde pública e privada, avalia que o nível de corrupção sistêmico, que passa pela Esplanada dos Ministérios até o mais singelo cidadão, tem causado um esmorecimento que fragiliza os principais reguladores.

Para ele, grupos econômicos poderosos ligados a hospitais privados e filantrópicos, além de operadoras, seguradoras e cooperativas médicas com fins lucrativos apoiam candidatos para vagas em agências reguladoras alinhados com seus interesses políticos e suas estratégias de negócios . ;Quando chegam a esses postos, os interesses são enviesados, não há controle efetivo. Isso ocorre em detrimento do próprio sistema. Ou seja, a corrupção gera desequilíbrio nesse sistema, tornando-o dependente de grupos poderosos, em detrimento dos usuários;, diz.

Reduzir custos deveria ser a prioridade de todos os participantes do setor de saúde, avalia o advogado Rodrigo Araújo, especialista no segmento. Para ele, é necessário haver fiscalização efetiva nos hospitais e promover auditorias nas cobranças por procedimentos e materiais utilizados nas internações, mesmo quando o paciente não estiver coberto por um convênio.

Custos
O especialista ressalta ainda que é necessário um controle rigoroso sobre os valores cobrados por materiais, como agulhas, seringas e fraldas. ;Há uma diferença muito grande nos preços praticados por instituições. Os hospitais se tornaram revendedores de produtos, cobram quanto querem. Sobre serviços de hotelaria e estrutura é aceitável, mas, às vezes, são produtos da mesma marca;, critica.

Dados do Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) mostram uma inflação dos custos médico-hospitalares (VCMH) de 16,7,4% em 2016. No mesmo período, a inflação médica chegou a 5,7% nos Estados Unidos, a 3% na França, a 9,3% no Reino Unido, a 5% no Chile e a 9,7% no México.

O IESS aponta que sistemas inovadores de cobrança adotados em países como Dinamarca, Grécia, Estados Unidos e África do Sul acarretaram reduções expressivas de custos médico-hospitalares. Muitos adotam o método Grupo de Diagnósticos Relacionados (DRG), um sistema em que os casos são previamente classificados de acordo com uma grande variedade de codificações e práticas clínicas. Dessa forma, o custo de cada DRG tem um valor pré-determinado, elevando o nível de transparência na receita dos hospitais. (AT)

16,7%
Foi a inflação médica brasileira em 2016

5,7%
Foi a variação média de preços dos serviços médicos nos Estados Unidos no ano passado

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