Correio na Bienal

Correio na Bienal

Ana Dubeux
postado em 06/08/2017 00:00
Tenho certo gosto por reminiscências. Adoro vasculhar caixa de afetos, rever fotos antigas, encontrar recortes de jornal. Também me perco no tempo olhando as capas. Lembrar-me dos pormenores daquele dia, das discussões sobre a manchete, a imagem principal, os insights, os testes até a versão final. Pronto e acabado, o desenho da capa é o desfecho de um dia que costumeiramente é atribulado, mas não é raro ser também histórico. Há capas que surpreendem, há capas que excitam. Existem aquelas que dão raiva e as que, literalmente, sorriem. Outras que nos fazem chorar até. Há as que estimulam, as que dão colo, inspiram, indignam, emocionam, provocam. Algumas das capas mais instigantes do Correio Braziliense podem ser revistas agora na 12ª Bienal Brasileira de Design Gráfico, que Brasília recebe até setembro na Caixa Cultural. Ao lado do melhor da produção contemporânea do país, está a mostra Notícias em Cartaz. São 70 capas do Correio, muitas delas premiadas, que levaram o jornal a ser reconhecidamente um dos veículos mais bem desenhados do país. Instituições de excelência, como NewsMuseum, e prêmios importantes, como o Esso e o Society for News Design, chancelaram por diversas vezes nossa ousadia. Algumas dessas capas históricas foram homenagens a grandes nomes: Marlon Brando, Chico Anysio, Oscar Niemeyer e muitos outros. Entre as mais destacadas também estão as comemorativas do aniversário de Brasília. O jornal, que nasceu no mesmo dia da capital, deu de presente à cidade capas lindas, dignas de ir para a parede com uma bela moldura, e outras impactantes. De uma delas me lembro especialmente, e o leitor também há de se lembrar. Em abril de 2011, para marcar um aniversário celebrado em meio a um dos maiores escândalos de corrupção, fizemos duas primeiras páginas: %u201CEles nos envergonham...%u201D, que retratou a prisão da promotora Deborah Guerner, com o marido, Jorge Guerner, e %u201C...Ela nos orgulha%u201D, que exaltava os brasilienses de valor. Vencedora do prêmio Esso de Primeira Página/Regional Centro-Oeste, a capa fazia jus ao momento político, mas não deixava de homenagear a cidade. Ultimamente, tem sido insistente a vontade de repetir o feito. Mas nem sei se duas ou três capas por dia dariam conta de mostrar um Brasil tão contraditório, que não se cansa de mostrar sua beleza, embora não pare de dar demonstrações que desafiam nosso amor e nossa cidadania. Na semana que terminou com a triste despedida e a necessidade de homenagens em série a Luiz Melodia, um artista bárbaro, também fomos %u201Cpremiados%u201D com a maior demonstração de desprezo da classe política brasileira. Haja inspiração para tanta capa!

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