Guardião de relíquias

Guardião de relíquias

Aos 85 anos, pioneiro de Brasília e dono de loja de pisos usados se esforça para recuperar azulejos até da época da construção da capital. O trabalho prejudica a saúde, mas ele faz questão de se dedicar para atender os pedidos da clientela

Ana Paula Lisboa
postado em 06/08/2017 00:00
 (foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Bárbara Cabral/Esp. CB/D.A Press)

Na W3 Sul, o Museu dos Pisos e Azulejos se tornou atração, inclusive turística. Muita gente entra curiosa para conferir as peças de cerâmica e levar um exemplar raro contido no estoque do proprietário, José Cardoso, 85 anos. Ele conta com a ajuda da companheira Josefina Emiliana de Jesus, 76, da filha Rosilene Emiliana Cardoso, 51, e do funcionário Marcelo Custódio, 36, para tocar o negócio, fundado há 18 anos na 507 Sul. Lá dentro, há prateleiras abarrotadas de materiais dos mais diversos modelos, tamanhos e idades. Alguns chamam a atenção pela autoria: são originais de Athos Bulcão, Roberto Burle Marx, Francisco Brennand, entre outros. A maior parte do estoque do Museu dos Pisos e Azulejos é usada.


Os itens são provenientes de reformas, demolições ou pontas de estoque. ;Os proprietários de uma lanchonete da Asa Norte retiraram azulejos de Athos Bulcão e nos procuraram para vendê-los;, exemplifica Rosilene, que faz mosaicos de cerâmica que estampam quadros, mesas e outros objetos à venda na loja. Em outras vezes, seu José sai buscando por aí. ;Procuro até em contêiner de obra. É por isso que temos coisa até da época da construção de Brasília;, explica. Foi naquele tempo que ele e Josefina vieram parar em terras candangas. Os dois são pioneiros: chegaram aqui em 11 de novembro de 1957.


;Viemos para cá tentar a vida;, explica a mulher, natural de Catalão. Foi nessa cidade goiana, durante uma festa, que ela e José se conheceram e passaram a viver juntos. Seu José, que é mineiro, tinha ido para lá como feirante e, antes disso, vendeu roupas em Goiânia e São Paulo. Hoje, os dois têm cinco filhos, 11 netos e três bisnetos. No DF, seu José foi carpinteiro em obras da construção de Brasília, dono de um restaurante na Vila Amaury (hoje, submersa no Lago Paranoá) e de uma camisaria no Núcleo Bandeirante até começar a vender roupas na Feira do Guará. Com o tempo, porém, seu José, que foi presidente do Sindicato dos Feirantes do DF, enjoou do ramo. Ele estava à procura de algo novo quando um genro e uma filha começaram a trabalhar com azulejos e o convidaram para mexer com isso também.


O acervo (com azulejos, porcelanatos, pastilhas, tacos e ladrilhos) é muito grande, nem chega a caber todo na loja: a família guarda o restante num depósito num sítio. ;Não tem uma estatística do que a gente tem aqui;, revela José. ;Os preços variam de R$ 3 a R$ 30 por peça;, informa Josefina. Um dos pontos fortes da empresa é a dedicação da equipe para atender os desejos da clientela. ;Boa parte das pessoas vêm atrás de peças de reposição porque um azulejo se quebrou. Se não temos no estoque, vamos atrás no país todo para conseguir;, garante Rosilene. Como boa parte dos pisos são usados, chegam com massa de cimento por trás. Para deixá-los prontos para a venda, como novos, entra em ação um trabalho manual feito por José: retirar o cimento, usando esmeril ou espátula.


;Gosto de fazer esse serviço. Às vezes, gasto uma hora para limpar apenas um azulejo. É oneroso, mas faço isso porque sei que são peças que não se encontram facilmente e podem ter valor sentimental. Já teve ocasião de o cliente pegar o azulejo e ficar emocionado, quase chorar, porque encontrou;, relata José. No entanto, o trabalho que agrada tanto a clientela tem um preço para a saúde do empresário. ;Limpando as peças, sai um pó que acaba com o pulmão da gente. Estou vivo ainda à base de Deus e do doutor Jeferson, do Hospital de Base, onde faço tratamento;, conta. A falta de estudo foi compensada com conhecimento de vida. ;Fiz um primário na raça, mas a experiência faz a gente ter desenvoltura maior do que a de muitos formados. Os jovens de hoje, para qualquer coisa, dizem que estão cansados. Eu não quero parar ; afinal, quem é que não precisa trabalhar?;, questiona. José é assinante do Correio, está sempre de olho nas notícias e tem comentário para tudo. Com relação à crise política do país, decreta: ;falta seriedade;.

Fase delicada
Segundo seu José, a fórmula que garantiu a continuidade do negócio por 18 anos está no prazer de trabalhar. ;Tudo que a gente faz querendo faz com gosto e direito. Se não quer e não gosta, nunca vai dar certo. Ninguém faz nada bem com má vontade;, percebe. ;O segredo no comércio é a seriedade, tratar a clientela e a sociedade com respeito.; A quantidade diária de clientes varia bastante e chega a até 20. ;O movimento tem dia que é bom e tem dia que é muito fraco. Antes, a W3 era melhor e mais movimentada ; a crise tem afetado isso. Muitos dos nossos clientes são antigos; além disso, muitos pedreiros e decoradores nos procuram;, relata Josefina. Ao redor do Museu dos Pisos e Azulejos na W3, muitas lojas fecharam as portas. Esse foi o argumento que José encontrou para convencer o proprietário do prédio a baixar o aluguel em R$ 1.000.

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