Paulo Pestana

Paulo Pestana

por Paulo Pestana Especial para o Correio papestana@uol.com.br
postado em 06/08/2017 00:00
Mundos paralelos

Eu sou do tempo em que o juiz mais conhecido do Brasil era o Armando Marques. Mesmo com alguns trejeitos que davam o que falar ; e hoje não podemos nem citá-los, sob pena de levar um processo por homofobia ; era amado e odiado, dependendo do resultado do futebol.

Ninguém falava em juiz de toga; magistrados eram entidades meio apartadas da sociedade, autoridades temidas, nem sequer andavam pela rua. Hoje são celebridades, com direito a tudo de ruim que vem com o rótulo ; superexposição, contestações, fofocas e até desconfianças.

Esta semana mesmo o ministro Gilmar Mendes, que parece gostar dessa badalação toda, disse que toda a movimentação jurídica em torno da Operação Lava-Jato bagunçou a ordem jurídica brasileira. ;Estabeleceu uma loucura completa;, chegou a dizer, recomendando que o PGR, Rodrigo Janot, lesse a Constituição.

Tem razão: o bate-boca público em torno de assuntos que deveriam estar claros e sem muita necessidade de interpretação nas leis tem criado um novo tipo de espetáculo, tão intrincado como essas séries de tevê ; Boston legal, The good wife, por exemplo ; que se passam nos tribunais norte-americanos, mas ainda carece de um enredo mais costuradinho para nos emocionar. E, cá para nós, a gente não sabe nem para ; cadê o mocinho? ; quem torcer.

E está perdendo a graça. Num canto do octógono, alguns se apresentam como paladinos justiceiros, em outro, defensores do texto legal, num terceiro fica a legião do interesse pessoal, quem sabe eleitoral. E vai adiante, encaminhando essa briga de vetustos senhores, enquanto a patuleia assiste, e tenta acompanhar discursos empolados, repletos de citações latinas e que funcionam como um dialeto para essa elite.

Mas esse é só um lance neste novo mundo de realidades paralelas como as que aparecem nos compêndios de física quântica e nos gibis do Super-Homem, em que há mais de 600 planetas Terra iguaizinhos, com pessoas iguaizinhas, mas fazendo coisas diferentes.

Entre nós, a verdade virou plural. Cada um tem a sua. O ex-presidente Lula, por exemplo, deu uma de Trump e disse há poucos dias que propina é uma palavra inventada pelos empresários e pelo Ministério Público para tentar culpar os políticos. Nem a etimologia, nem a História corroboram a tese.

Propina nasceu bem antes dos empreiteiros e era um simples convite a um traguinho na Roma antiga. ;Propino tibi salutem; (saúdo-te antes de beber), diziam na hora do brinde, juntando dois radicais gregos para formar o vocábulo. Até pouco tempo, em Portugal, propina era simplesmente o valor de uma taxa.

O resto do mundo tratou de corromper a saudação, mas o sentido da bebida nunca abandonou o termo: drink money, pourboire, trinkgeld, dizem ingleses, franceses e alemães, quando querem deixar um agrado.

Daí há quem se ache no direito de reinventar o calendário gregoriano, caso da cantora Rosana, que processou o Google por divulgar que ela tinha 58 anos, enquanto só admitia 44. Mas, quando foi candidata a vereadora ele teve que entregar ao TRE, a data correta do nascimento. É bom saber que alguma realidade prevalece.



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