Uma carta para o meu pai

Uma carta para o meu pai

A Revista lançou o desafio e os filhos toparam. Com palavras escritas à mão ou digitadas, expressaram o turbilhão de sentimentos existente na relação paterna

Por Ailim Cabral, Alan Rios *, Carolina Militão *, Marília Padovan / Especial para o Correio
postado em 06/08/2017 00:00
 (foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)
(foto: Minervino Junior/CB/D.A Press)

Nas datas comemorativas, as redes sociais se enchem de declarações de amor. Dia dos Avós, Dia dos Namorados, Dia do Amigo; São muitos os momentos em que nos deparamos com os familiares e as pessoas queridas de nossos amigos virtuais. No próximo domingo, chega o momento de descobrir o rosto de diversos pais. A internet será tomada por fotos, vídeos, textos carinhosos e piadinhas bem-humoradas em homenagem a eles.

Há pelo menos duas décadas, porém, as formas de declarar amor em datas comemorativas eram um pouquinho diferentes. As cartas e os telefonemas funcionavam como as principais ferramentas usadas para se comunicar, principalmente com os que estavam distantes. Mas quem disse que isso ficou no passado? Até alguns nostálgicos millennials ; aqueles nascidos depois da década de 1990 ; guardam caixas cheias de cartas de amor. As crianças também mantêm o hábito de escrever bilhetinhos e fazer desenhos para reforçar o amor, presentear com o que têm para oferecer e, claro, encher de lágrimas os olhos de muitos marmanjos.

Para resgatar o gostoso sentimento de receber um bilhete ou uma carta, a Revista convidou filhos a escreverem para seus pais e revelarem o que guardam dentro do coração. Sempre celebrando a diversidade e todos os tipos de amor e família, buscamos diferentes tipos de pai. O pai solo, a família com dois pais, o pai ausente, o pai que se foi e deixou saudades; Uma inspiração para aqueles que também desejam se declarar ao primeiro homem de sua vida.

* Estagiários sob supervisão de Sibele Negromonte

Amor invencível

Não é possível saber se ele entende tudo o que é dito ao seu redor, mas, ao posar para as fotos desta reportagem ao lado do filho, Haile José Kaufmann, 80 anos, sorri e começa a cantarolar. Feliz pela reação e pelos risos espontâneos do pai, o administrador Gustavo de Oliveira Kaufmann, 37, quase não consegue controlar a emoção enquanto conta a história da família.

Há seis anos, Haile e a esposa estavam em Buenos Aires, comemorando o aniversário de casamento, como faziam quase todos os anos. A celebração, porém, transformou-se em um dos momentos mais difíceis vividos pela família. Por volta das 22h de uma sexta-feira, Gustavo recebeu uma ligação assustada da mãe. Haile havia sofrido um derrame na Argentina e ela precisava de auxílio.

Gustava lembra que, naquele momento, entrou no automático. Ligou para os dois irmãos mais velhos e começou todos os preparativos para a viagem. A família precisou alugar uma casa no país, onde permaneceu por mais de um mês. Quando puderam, todos voltaram a Brasília para continuar o tratamento de Haile.

Como sequela, o patriarca apresenta afasia global, ou seja, perdeu todas as capacidades de linguagem, como compreensão, fala, leitura e escrita. Apesar do diagnóstico, Gustavo, a mãe e os irmãos continuam a conversar com Haile, como se ele pudesse compreendê-los. ;Esperamos que ele consiga entender pelo menos um pouco e fazemos o máximo para manter a convivência com ele o mais normal possível;, afirma. Em diversos momentos, como quando era fotografado para a reportagem, Haile sorri e demonstra estar se divertindo com a experiência.

Gustavo conta que a celebração do Dia dos Pais permanece inalterada. ;Todos os pais da família se reúnem na casa da minha avó. Fazemos questão de manter a tradição para que ele esteja sempre com as pessoas que o amam.; Emocionado, o administrador conta que precisou escrever a carta pedida pela Revista de madrugada. ;Não conseguiria fazer com ele perto de mim. Sozinho, já foi difícil. Com ele, não ia parar de chorar.;

Filho caçula, Gustavo conta que sempre foi muito grudado no pai. ;Somos muito parecidos. Ele sempre queria saber da minha vida, das minhas coisas. Nossa união sempre foi especial e, hoje, que estou me preparando para mudar para meu apartamento, o coração até aperta. Vou estar aqui todos os dias para vê-lo.;

Diagnosticado com esclerose múltipla, Gustavo reformou o apartamento e o transformou em um ambiente totalmente acessível e adaptado. ;Eu digo para todo mundo que é para me preparar para o meu futuro, mas, no fundo, eu fiz essa reforma pensando nele também. Quero poder levá-lo para passar um tempo comigo lá em casa, e quero que seja um ambiente que possa dar conforto para meu pai;, confessa.

Olhando para o pai com amor, Gustavo dispara: ;Se eu pudesse dar um conselho para pais e filhos, seria aproveitar muito bem o tempo juntos. Os filhos precisam drenar todos os ensinamentos possíveis de seus pais e valorizar a experiência de vida deles, pois, no fim, descobrimos que eles quase sempre estão certos;.

De: Gustavo Kaufmann

Para: Haile José Kaufmann

Brasília, 27 de julho de 2017

Sabe, pai, quando deixei você e a mãe no aeroporto, naquela madrugada de março de 2011, minha ideia era voltar em uma semana para buscá-los. Não deu. Em vez disso, fui surpreendido, três dias depois, com uma ligação nervosa da mamãe pedindo para que fôssemos (eu, o Marcus e o Rodrigo) ajudá-la em Buenos Aires, porque você tinha sofrido um acidente. Como assim? Que acidente? O que aconteceu? Um AVC.


Eu ainda tenho na minha primeira gaveta as anotações apressadas que fiz, pesquisando o hospital em que você estava, para onde teríamos que ir, todas as informações que podiam, de alguma forma, ajudar a gente a te achar. E achamos. E praticamente nos mudamos pra Buenos Aires até conseguirmos te trazer de volta e nos mudarmos para um hospital aqui, perto de casa.


No hospital, nós conversamos bastante (eu falava sem parar). Depois de uns meses, você voltou a comer, voltou para a nossa casa e continuou sua recuperação aqui.


Eu não sei o quanto você consegue nos ouvir, consegue entender ou até mesmo se sabe quem somos. Mas não se preocupe, aqui em casa nós sabemos exatamente quem é você, porque está aqui, e o quanto é importante para nós. Ainda tem muita coisa pra você aqui, pai. Seus netos estão crescendo, suas telas e pincéis estão prontos para serem usados novamente, sua raquete de tênis está no mesmo lugar. Algumas coisas mudaram aqui em casa, mas a sua cadeira de leitura na varanda está lá te esperando. Lembra da tela que você prometeu pintar para eu colocar na minha casa nova? A casa já está pronta e a parede está vazia, esperando sua pintura.


Quanto a você pai, para mim, nada mudou. Você é e continua sendo meu exemplo de retidão na vida, no trabalho, nas atitudes. Você é o norte que buscamos, eu e meus irmãos, nos momentos em que precisamos de um conselho ou até de um puxão de o

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação