Para latinos, Venezuela é uma ditadura

Para latinos, Venezuela é uma ditadura

Chanceleres e representantes diplomáticos de 12 países da região denunciam "ruptura da ordem democrática" e anunciam que desconhecem a Constituinte. Organismo convocado por Maduro aprova decreto para controlar todos os poderes públicos

Rodrigo Craveiro
postado em 09/08/2017 00:00
 (foto: Juan Barreto/AFP)
(foto: Juan Barreto/AFP)



No dia em que a Venezuela caminhou, a passos largos, rumo a uma ditadura, os vizinhos deram uma amostra de unidade e condenaram o regime de Nicolás Maduro. Durante reunião em Lima, os chanceleres e representantes diplomáticos de 12 países da América Latina expressaram ;sua condenação à ruptura da ordem democrática; em Caracas e a ;sua decisão de não reconhecer; a Assembleia Nacional Constituinte (ANC), nem os atos derivados dela ;por seu caráter ilegítimo;.

O comunicado final, assinado depois de sete horas de debates, traz 16 pontos. As partes declararam ainda ;o seu pleno respaldo e solidariedade com a Assembleia Nacional, democraticamente eleita;; ;o enérgico rechaço à violência e a qualquer opção que envolva o uso da força;; e a condenação à violação sistemática dos direitos humanos e das liberdades fundamentais, à violência, à repressão e à perseguição política, à existência de presos políticos e à ausência de eleições livres;. Também avalizaram as decisões de continuar aplicando a Carta Democrática Interamericana à Venezuela, de vetar candidaturas venezuelanas em mecanismos e organizações regionais ou internacionais, e de suspender Caracas do Mercosul.

;O que ocorre na Venezuela é uma ruptura defintiva! Rompeu-se a ordem democrática, há uma ditadura. (;) É uma solução sem saída;, declarou o ministro das Relações Exteriores peruano, Ricardo Luna. O México foi adiante e avisou que desconhecerá todos os contratos do governo de Maduro que não passarem pelo crivo da Assembleia Nacional, de maioria opositora. O Brasil esteve representado pelo chanceler Aloysio Nunes Ferreira. ;Na reunião em Lima, nosso grupo reafirmou sua ojeriza à ditadura. É um passo importante rumo ao isolamento diplomático de um regime que perdeu a razão e castiga o povo com o horror da repressão;, declarou o brasileiro, no Twitter.

A crítica dos países vizinhos foi um indicativo do crescente isolamento internacional de Maduro. Também ontem, as Nações Unidas denunciaram ;torturas; e ;uso generalizado e sistemático de força excessiva; contra os manifestantes. Na capital venezuelana, a Guarda Nacional Bolivariana (GNB) impediu o acesso de deputados da coalizão opositora Mesa de Unidade Democrática (MUD) ao Palácio Federal Legislativo, sede do Parlamento.

Decreto
No interior do prédio, os 545 integrantes da ANC tomaram posse do Hemiciclo Protocolar, o plenário onde se realizam as sessões ordinárias dos parlamentares. Diante de imagens do conquistador Simón Bolívar e do falecido presidente Hugo Chávez, a Constituinte emitiu decreto que busca controlar todos os poderes públicos. ;A ANC poderá decretar medidas sobre competência, funcionamento e organização de poderes públicos de modo imediato, para o adequado funcionamento das instituições e para preservar a estabilidade;, afirma texto da Agencia Venezolana de Noticias.

Durante a madrugada, Ramón Muchacho, prefeito do município de Chacao, reduto opositor em Caracas, foi condenado pelo Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) a 15 meses de prisão. Outros 14 administradores foram destituídos de seus cargos. ;Amanhã (hoje), nomearemos um novo prefeito;, disse à reportagem uma assessora de Muchacho. O Conselho Nacional Eleitoral (CNE), braço do Executivo, proibiu que a MUD dispute eleições regionais em sete dos 23 estados venezuelanos, entre eles, Zulia, Apure e Carabobo.

Em entrevista ao Correio, Amelia Belisario, deputada pelo partido opositor Primero Justicia, afirmou que Maduro segue dando passos para blindar a própria ditadura. ;A cada dia, o mundo vê com mais preocupação essas medidas e seguirá pressionando o regime, que debilita as instituições, conta com menos apoio popular e lança mão de violência contra a oposição;, comentou.

Tamara Adrian, a primeira deputada transexual das Américas e integrante do partido Voluntad Popular, crê que a intenção da Constituinte é de ;quebrar; todas as instituições do país. ;Ao utilizar a Constituinte e o TSJ, ela espera ocupar todo o poder. A estratégia é não permitir espaços para nada de democracia;, acrescentou.



Maradona, o ;soldado de Maduro;



Em sua página no Facebook, o ex-craque de futebol argentino Diego Maradona polemizou ontem, ao enviar mensagem de apoio explícito ao presidente venezuelano, Nicolás Maduro. ;Somos chavistas até a morte. E, quando Maduro ordenar, estarei vestido de soldado para uma Venezuela livre, para lutar contra o imperialismo e os que desejam se apoderar de nossas bandeiras, que é o mais sagrado que temos;, escreveu. ;Viva Chávez! Viva Maduro! Viva a revolução! Vivam os venezuelanos de pura cepa, não os venezuelanos interessados e envolvidos com a direita;, acrescentou.




Vozes da Assembleia Nacional

Amelia Belisario,
deputada pelo partido Primero Justicia




;Eu espero que os democratas da América Latina respaldem o único poder legítimo eleito pelos venezuelanos: a Assembleia Nacional. E que nos apoiem, para reconstruirmos nosso país assim que esse pesadelo acabar.;


Tamara Adrian,
deputada pelo partido Voluntad Popular




;Eu desejo que os países da América Latina compreendam o golpe progressivo na Venezuela. E saibam que enfrentamos uma perda absoluta da democracia no país. É preciso manter pressão contra a ditadura.;


Larissa González,
deputada pelo partido Acción Democrática




;Nós queremos um respaldo maior da América Latina e esperamos medidas drásticas. Temos a confiança de que o mundo entende que esse regime deixou de ser democrático há muito tempo e atrai fome e miséria ao nosso país.;


Eliezer Sirit,
deputado pelo partido Acción Democrática




;Às ditaduras pouco importam as decisões tomadas por governos sérios, dentro do marco do jogo democrático. O impacto não será sentido por Maduro, mas pelo povo, que sofrerá com rigor a fome que deriva de políticas arcaicas.;

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