Os desafios do câncer infantil

Os desafios do câncer infantil

» ANA CRISTINA PINHO Diretora-geral do Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (Inca)
postado em 09/08/2017 00:00
Seguindo o padrão comparável ao de nações desenvolvidas, o Brasil passou, nas últimas décadas, por um processo de transição epidemiológica. Um dos aspectos do processo no nosso país foi a diminuição das taxas de mortalidade de crianças brasileiras por doenças infecciosas, como sarampo, pneumonia e diarreia, resultado da melhoria na prevenção e no tratamento com novos medicamentos, da diminuição da desnutrição e dos avanços tecnológicos.

Durante esse período de transição, a taxa mediana da incidência de câncer infantil apresentou tendência de estabilidade no Brasil em torno de 127 casos por milhão de crianças (0 a 14 anos de idade), semelhante à de outros países em desenvolvimento. Mesmo sendo classificado como uma doença rara, o câncer infantil assumiu a posição de primeira causa de morte por doença no Brasil na faixa entre 1 a 14 anos e segunda causa geral, atrás apenas das ;causas externas; (acidentes e violências de diferentes tipos). O câncer é responsável por cerca de 12% das mortes neste grupo etário e levou ao óbito 5.326 meninos e 4.249 meninas no período de cinco anos, de 2009 a 2013, no país.

Os tumores em crianças são diferentes dos encontrados em adultos e, portanto, o câncer infantil tem características próprias de diagnóstico, tratamento e prognóstico. Os tipos de câncer mais incidentes na faixa de 0 a 14 anos são as leucemias (33%), tumores do Sistema Nervoso Central - SNC (16%) e linfomas (14%).

Nos adultos, há forte evidência científica que comprova a relação entre estilo de vida e desenvolvimento da doença. Uma dieta inadequada, a obesidade, o sedentarismo, o tabagismo e o excesso de exposição ao sol são fatores conhecidos para o aumento do risco do câncer. Não se sabe a influência desses fatores nos tumores pediátricos. Cabe aqui uma observação importante. É fundamental que a criança tenha um estilo de vida saudável, o que reduzirá o risco do desenvolvimento de câncer na fase adulta.

O câncer em crianças é uma doença potencialmente curável. Os tumores infantis respondem melhor ao tratamento do que os tumores em adultos. A publicação Incidência, mortalidade e morbidade hospitalar por câncer em crianças, adolescentes e adultos jovens no Brasil: Informações dos registros de câncer e do sistema de mortalidade, lançada recentemente pelo INCA e Ministério da Saúde, aponta que a estimativa de sobrevida dos pacientes infantojuvenis (0 a 19 anos) de câncer no Brasil está ao redor de 64%.

A rapidez no início do tratamento é ainda mais importante para os pacientes infantis do que para os adultos, porque os tumores em crianças apresentam crescimento mais rápido do que em adultos. O diagnóstico precoce e preciso, que é um dos grandes desafios do câncer infantil, tanto no Brasil quanto no mundo, é pré-requisito para que o tratamento seja iniciado.

Uma das dificuldades do diagnóstico precoce do câncer infantil é o fato de os sinais e sintomas serem inespecíficos e característicos de diversas outras doenças comuns na infância. Alguns sinais e sintomas são: febre, gânglios palpáveis, manchas arroxeadas pelo corpo, dor óssea, cefaleia, náuseas e vômitos, sintomas/sinais visuais (movimentos oculares anormais, diminuição da acuidade visual), sinais/sintomas motores (desequilíbrio, descoordenação motora, fraqueza muscular), sintomas relacionados ao crescimento e desenvolvimento, mudanças de comportamento, convulsões, massas palpáveis, mancha esbranquiçada no olho, entre muitos outros.

O acompanhamento da criança por um pediatra é essencial para o diagnóstico e os profissionais de saúde devem valorizar as queixas dos pais. Mas o alerta sobre a suspeita de câncer infantil pode ser dado também por professores, cuidadores, instrutores esportivos e terapeutas, enfim, familiares, profissionais e amigos que convivem com a criança. Se os sinais e sintomas persistirem, a criança deve ser encaminhada a um centro especializado em câncer.

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