Pólvora no impasse nuclear

Pólvora no impasse nuclear

Relatório americano de inteligência afirma que o regime comunista começa a equipar seus mísseis intercontinentais com ogivas atômicas. Em férias, Trump promete retaliação sem precedentes às ameaças

postado em 09/08/2017 00:00



Foi com a promessa de uma resposta ;como o mundo nunca viu; que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, respondeu à notícia de que a Coreia do Norte estaria produzindo ogivas nucleares de dimensões compatíveis para equipar seus mísseis ; inclusive os intercontinentais, recém-testados, com alcance para atingir ao menos a Costa Oeste dos EUA. Trump, que passa férias em um de seus clubes de golfe, fez o comentário depois de o jornal The Washington Post publicar reportagem sobre o avanço do programa militar norte-coreano, na qual cita relatórios dos serviços de inteligência americanos.

;É melhor que a Coreia do Norte não faça mais ameaças aos EUA. Enfrentará fogo e ira como o mundo nunca viu;, declarou o presidente. Horas mais tarde, a agência oficial KCNA sugeriu que Pyongyang poderia disparar mísseis para as proximidades da ilha americana de Guam, no Pacífico, que abriga bases militares.
A escalada retórica se segue à aprovação de outra rodada de sanções contra Pyongyang no Conselho de Segurança da ONU. No fim de semana, por unanimidade, os 15 países-membros do organismo determinaram uma bateria de restrições comerciais que pode custar aos norte-coreanos até US$ 1 bilhão por ano em receitas de exportação. Em resposta, o regime comunista prometeu que os EUA ;pagarão mil vezes por esse crime;.

Trump, que mais de uma vez afirmou que o líder Kim Jong-un ;jamais terá; um arsenal atômico capaz de atacar o território continental norte-americano, não mencionou nominalmente o Washington Post, mas pareceu responder ao teor da reportagem. O texto cita um relatório confidencial da Agência de Inteligência da Defesa, datado de 28 de julho, segundo o qual a Coreia do Norte teria obtido sucesso em miniaturizar um artefato atômico, passo indispensável para que ele possa ser colocado na ogiva de um míssil. A estimativa teria sido corroborada pelo Japão, crescentemente apreensivo com o desenvolvimento bélico de um vizinho claramente hostil.

Estimativas

;A comunidade de inteligência estima que a Coreia do Norte produziu armas nucleares compatíveis com seus mísseis, inclusive com os mísseis balísticos intercontinentais (ICBMs);, diz um trecho do relatório citado pelo Post. O documento revê para cima as estimativas sobre a dimensão do arsenal norte-coreano: em lugar da avaliação de que o país disporia de 20 a 25 bombas atômicas, os analistas americanos agora avaliam que poderiam ser até 60.
Desde 2016, a Coreia do Norte fez três explosões nucleares experimentais, a última delas anunciada como de um artefato miniaturizado, mas foi recebida com descrença. Neste ano, multiplicou os testes de mísseis (veja infografia), os dois últimos com ICBMs ; ambos reconhecidos pelos EUA como bem-sucedidos.

;Aquilo que parecia uma versão em câmera lenta da Crise dos Mísseis se assemelha agora ao Projeto Manhattan;, comparou o especialista em não proliferação Robert Litwack, do Wilson International Center. Ele mencionava o impasse de1962 entre EUA e a hoje extinta União Soviética, que iniciou a instalação de mísseis nucleares em Cuba, levando as duas superpotências às portas da guerra, e o programa que resultou na primeira bomba atômica americana, em 1945.

Falando à tevê, no fim de semana, o conselheiro de Trump para Segurança Nacional, o general H. R. McMaster, deixou claro que a perspectiva de uma Coreia do Norte armada com ICBMs nucleares seria ;intolerável para o presidente;. Embora tenha assegurado que Washington fará ;tudo menos uma guerra; para pressionar a liderança norte-coreana de que ;é do interesse do país se desnuclearizar;, McMaster admitiu que estão em estudo medidas como a reintrodução de armas atômicas na Península Coreana. ;Temos de oferecer (ao presidente) todas as opções. Inclusive a opção militar;, completou.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação