Canto que une

Canto que une

postado em 09/08/2017 00:00
Estava batucando letras de uma matéria no computador quando tive a atenção acesa para uma presença e uma voz delicadas. Armada de violão, sentada em uma cadeira da redação, Luciana Luppy cantava com um jeito inusitado: ela emendava a língua portuguesa com a língua francesa de uma forma que se fundiam de uma maneira indivisível.
É um dos milagres que só a cultura pode fazer. França e Brasil são tão diferentes e se conectam pela música. Desde àquela canja na redação, não me saem da cabeça La vie em rose, La Boh;me, Insensatez (de Tom e Vinicius) ou Tigresa (de Caetano Veloso) na voz de Luciana em uma nova língua globalizada franco-brasileira que ela forjou.
Não tive tempo de conversar com Luciana. Mas, ontem, peguei o celular e liguei para ela. A relação com a música e a conexão com a França existem desde sempre. Nasceu em Brasília e permaneceu na cidade até os 18 anos.
Quando tinha 9, a moda era aprender inglês, mas ela resistiu bravamente em favor do francês. A mãe insistia no inglês. No entanto, Luciana preferiu estudar em um centro de línguas da escola pública e iniciou no francês: ;Sempre tive o maior amor pela França;, declara ela. ;É uma afinidade imensa. Já passei vários períodos em Paris, é como se eu estivesse em casa;.
Aos 18 anos se mudou de Brasília para o Rio e estudou no mesmo colégio que Jorge Vercillo. Ele a levou para fazer aulas de violão. Formou-se em jornalismo, trabalhou com dublagem para a empresa Herbert Richers, mas os amigos pressionaram para que assumisse a música. E Luciana aceitou a pressão.
Cantar em língua franco-brasileira é a coisa mais natural do mundo para Luciana. Embora nativa do português, ela promove a fusão com o francês em uma releitura que respeita inteiramente o espírito original da canção. É uma humilde proposta de globalização da música brasileira.
Com as novas tecnologias de comunicação, você liga o celular e está conectado com o Japão, argumenta Luciana. A música brasileira está em um táxi de Paris ou de Berlim: ;Hoje, todo mundo está no quintal de casa;, diz Luciana. ;Eu acho que a música brasileira de Caetano Veloso ou de Chico Buarque ainda não é suficientemente conhecida no mundo;.
Não escolhe as músicas que vai cantar; é escolhida por elas. Quando falam algo essencial, revelam que precisam ser mostradas em uma língua globalizada. Mas, apesar da reinterpretação, da tradução e da recriação, saiba o mundo que isso é música brasileira da melhor qualidade. Luciana é uma brasiliense de coração carioca e alma francesa. Só mesmo a cultura para unir dois mundos e fundir duas línguas em uma sem que nenhuma delas perca a identidade.

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