O problema da carga e descarga

O problema da carga e descarga

A cada dia, até três motoristas são flagrados no DF por desrespeitar o horário ou o local permitido para a entrega de mercadorias. Os flagrantes ocorrem com mais frequência no Plano Piloto, principalmente nas quadras com supermercados, restaurantes e padarias

OTÁVIO AUGUSTO
postado em 09/08/2017 00:00
 (foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)
(foto: Antonio Cunha/CB/D.A Press)

A infração é média, sujeita à multa de R$ 130,16 e acarreta na perda de quatro pontos na Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Mesmo assim, a prática de carga e descarga irregulares no comércio da capital federal aumentou. No ano passado, o Departamento de Trânsito (Detran) puniu 408 motoristas que cometeram a irregularidade. Somente até julho de 2017, a sanção foi aplicada a 503 condutores. Isso significa que o seis primeiros meses do ano superaram em 23% o índice de 2016.
Coibir a falha passa por duas questões: a primeira é de competência do órgão de trânsito, com sinalização adequada e disseminação dos horários permitidos para o serviço. A outra se refere à obediência da legislação de trânsito por parte dos motoristas. No DF, o horário permitido para carga e descarga é entre as 8h e as 11h30, das 14h às 17h e das 20h às 7h. Segundo monitoramento do Detran, as asas Norte e Sul concentram as infrações, sobretudo as quadras comerciais com supermercados, restaurantes e padarias.
O diretor de Policiamento e Fiscalização de Trânsito, Glauber Peixoto, admite que, em alguns pontos da cidade, o problema e as reclamações são recorrentes. ;O grande problema é a limitação de estacionamento, sobretudo de carga e descarga, no Plano Piloto. A nossa rotina de fiscalização é feita em rodízio;, explica. Ele destaca que, por causa das denúncias, houve um aumento na fiscalização. ;Por conta da demanda de ouvidoria e a criação de supermercados, estamos mais atuantes. Em vários casos, conversamos com os donos desses estabelecimentos para negociar a situação, como um processo educativo, mas as notificações ainda são constantes;, lamenta.
Por duas semanas, o Correio monitorou alguns pontos críticos da cidade. Os flagrantes de irregularidade se revelam frequentes. Na 105 Sul, o descaso é tamanho que o caminhão fica estacionado do outro lado do comércio, e o motorista e um ajudante atravessam com a mercadoria nas costas. Nas quadras 103 e 301 do Sudoeste, as cenas se repetem. A média da infração é de quase três por dia até junho. Um desses condutores, que prefere não ter o nome divulgado, sequer sabe da regulamentação. ;As entregas são emendadas, temos metas e a transportadora não orienta nada relacionado a isso;, comentou.

Buzinas
Além de cometer infração de trânsito, o motorista atrapalha o tráfego. Na maioria dos casos, o caminhão fica parado de maneira irregular. O nó provoca perdas no comércio. ;Várias clientes reclamam que aqui é impossível estacionar. Perdemos vendas. A carga e a descarga, desse modo, quebra o fluxo, e as pessoas não têm como parar próximo à loja. Há momentos do dia que a situação é tão crítica que se desencadeia uma sinfonia de buzinas;, reclama Rafaela Alves, 29 anos, gerente de uma loja de roupas na 301 do Sudoeste.
Quando a reportagem abordou o casal Joil Celino, 82, e Dilzete Celino, 80 anos, um caminhão descarregava produtos em um supermercado na 308/309 Sul. A professora aposentada disse que há muito tempo denuncia a situação, mas nunca houve uma reação efetiva contra o problema. ;Tem de melhorar a sinalização para não haver desculpas por parte do motorista;, destaca. O bancário aposentado emenda: ;Há dias que não é possível encontrar um vaga aqui. Houve situações de um caminhão barrar três vagas simultaneamente;.
Denuncie
Há dois modos de fazer a denúncia contra a irregularidade. ;Fazemos o monitoramento com viaturas do Detran e da Polícia Militar. Em uma situação esporádica, um flagrante, o cidadão deve ligar para o 190. Se a situação for recorrente, a reclamação deve ser feita na ouvidoria-geral pelo telefone 162;, ressalta o diretor de Policiamento e Fiscalização de Trânsito, Glauber Peixoto.
Palavra de especialista
;Uso inteligente do espaço;
;A questão é a superdemanda por estacionamento. Ela é maior do que a capacidade de vaga. Precisamos modernizar a regra dos estacionamentos, a entrega de mercadorias. Fora do Brasil, o que acontece é que carros como o de lavanderias só podem circular ou estacionar pela madrugada. É necessário o uso inteligente do espaço. Brasília começa a ficar uma cidade com muito carro e pouco espaço. Com o uso inteligente, é possível melhorar a situação.;
David Duarte Lima é especialista em trânsito e professor da UnB
Memória
Desrespeito recorrente
Há sete anos, o Correio mostrava como a prática de carga e descarga irregular se tornava frequente no DF. À época, a reportagem evidenciava como as placas e a sinalização no chão não deixavam claras as regras. O problema era centralizado em quadras da Asa Sul. Outra questão abordada em 2010 era a fiscalização falha. ;Uma das pistas de tráfego (na 202 Sul) está constantemente ocupada por carros parados em fila dupla;, destaca a reportagem. Dias depois, a Polícia Militar intensificou a ronda nos locais apontados pelo jornal.

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação