Pesadelo catalão

Pesadelo catalão

Van invade Las Ramblas, via turística de Barcelona, e atropela dezenas de pessoas. Estado Islâmico assume atentado, que matou 13 e feriu mais de 100. Testemunhas brasileiras relatam desespero. No sudoeste da Espanha, ataque semelhante fere cinco

Rodrigo Craveiro
postado em 18/08/2017 00:00
 (foto: Nicolas Carvalho Ochoa/AFP)
(foto: Nicolas Carvalho Ochoa/AFP)



Era uma quinta-feira de sol e de verão em Barcelona. Como de costume, a capital da Catalunha estava lotada de turistas. Por volta das 16h50 (11h50 em Brasília), a paranaense Patricia Cristina Amaral, 32 anos, voltava de ônibus para casa quando olhou pela janela e observou uma van branca entrar em Las Ramblas, uma via exclusiva para pedestres, no centro da cidade. ;Ela estava em ziguezague e em alta velocidade, e começou a atropelar todas as pessoas que estavam no local. Vi gente no chão, chorando, havia sangue e mortos. Pessoas gritavam. Também pude ver o motorista, de cabelo escuro e barba;, contou ao Correio a professora de comércio internacional. Foram cerca de 500 metros de horror: do acesso a Las Ramblas, na Plaza Catalunya, até a Plaza de La Boquería, o veículo atingiu dezenas de pessoas.

O pior atentado terrorista contra a Espanha desde os ataques de 11 de março de 2004, em Madri, deixou 13 mortos ; incluindo três alemães ; e mais de 100 feridos, 15 deles em estado muito grave. O banho de sangue vitimou pessoas de 18 nacionalidades e foi reivindicado pelo Estado Islâmico, por meio da Amaq, agência de propaganda do grupo terrorista. ;Os autores do ataque de Barcelona eram soldados do Estado Islâmico. A operação foi realizada em resposta aos pedidos de alvejar os Estados da coalizão;, afirma a nota, em referência à aliança internacional que atua na Síria e no Iraque. Até o fechamento desta edição, as autoridades espanholas confirmavam a prisão de dois suspeitos: um nascido no enclave espanhol de Melilla, no Marrocos, e o marroquino Driss Oukabir. A caçada ao motorista da van continuava.

À 1h de hoje (20h de ontem em Brasília), um segundo atentado similar ocorreu em Cambrils, 120km a sudoeste de Barcelona. Um furgão arremeteu contra pedestres no Passeio Marítimo, ferindo cinco pessoas ; dois em estado grave. A polícia revidou, liquidou quatro terroristas e baleou outro. Segundo os jornais El Mundo e El País, eles usavam cinturões recheados de explosivos e teriam sido eliminados antes que acionassem os dispositivos.

;São uns assassinos, simplesmente uns criminosos, que não nos aterrorizarão. Toda a Espanha é Barcelona. Las Ramblas voltarão a ser de todos;, declarou o rei Felipe VI. A matança provocou forte condenação internacional (leia na página 13). Em nota, o Itamaraty afirmou que o Brasil ;deplora veementemente o ataque e reitera sua condenação a todo e qualquer ato de terrorismo, qualquer que seja sua motivação;. ;Até o presente momento, não há registro de brasileiros entre as vítimas.;

Sobrevivente
O cinegrafista britânico Liam Searle, 22, por pouco não se tornou um número da tragédia. Ele relatou à reportagem que descia de skate por Las Ramblas e ouvia música, quando percebeu a aproximação da van. ;Ela parou bem perto de mim, a uns 3m, e pude vê-la de relance. As pessoas começaram a correr;, disse.

Liam fez o mesmo e se refugiou no Grande Teatro do Liceu, que teve as portas trancadas. ;Por meio do vidro, pude ver os socorristas tratarem os feridos. Muitos tinham sangramentos intensos e gritavam tomados pela dor;, descreveu ao Correio. Cerca de 20 minutos depois, os feridos foram levados até o prédio. ;Havia um garoto de 13 ou 14 anos com grandes lesões na cabeça e no braço. Uma das pernas sangrava e ele calçava apenas um tênis. Todos estávamos em choque.;

Entre os socorristas que respondiam à emergência, estava Albert Tort Sisó. Morador de Barcelona, o enfermeiro de 43 anos atravessou o cordão de isolamento em torno de Las Ramblas assim que soube do atentado. ;Logo que entrei, tentei reanimar um rapaz, mas não foi possível, e ele faleceu. Segundos depois, à medida que ia descendo a rua, encontrei corpos cobertos. Foi uma situação dantesca, algo horrível;, comentou à reportagem.

Pânico
Natural de Caiçara (RS), a farmacêutica Isabel Roggia, 34, acredita que a sorte e a proteção fizeram com que escapasse de ser atropelada. Ela aproveitou as férias do doutorado em nanotecnologia para comprar uma película de celular em uma das lojas de Las Ramblas. ;Como não a encontrei, comecei a caminhar em direção à Plaza Catalunya e fui a uma loja de roupas, na esquina com Las Ramblas. Quando saía dali, muita gente começou a entrar de forma desesperada, enlouquecedora. Todos gritavam, choravam e alguns se jogavam por detrás do caixa;, disse ao Correio. A gaúcha se deitou no chão e ficou ali por 10 minutos, sem entender o que ocorria. Pensou que fosse um assalto. Quando as coisas se acalmaram, foi até a rua e viu uma multidão em fuga desconcertada, além de policiais e ambulâncias.

Funcionária de uma sapataria em rua vizinha a Las Ramblas, Claudia Pais, 22, disse que o comércio imediatamente baixou as portas. ;Não pudemos sair das lojas até a chegada da polícia. Vi três avalanches humanas passarem pela rua. As pessoas gritavam que não deixássemos ninguém entrar.;



Reação dos craques

Grandes nomes do futebol, uma das paixões de Barcelona, manifestaram consternação pelo ataque terrorista e prestaram homenagens às vítimas. Recém-contratado pelo PSG, da França, o brasileiro Neymar, que até o mês passado morava na cidade, escreveu no Twitter: ;Que Deus conforte todas as famílias. #PrayForBarcelona te quiero BARCELONA;. Lionel Messi, o astro argentino do Barça, usou a sua conta no Instagram para enviar ;condolências e todo o meu apoio às famílias e aos amigos das vítimas do terrível atentado;. Junto a uma foto panorâmica da cidade em preto e branco, o atleta ressaltou a vontade dos espanhóis em ;viver em um mundo de paz, sem ódio e onde o respeito e a tolerância sejam as bases da convivência;. Companheiro de equipe de Messi, Gerard Piqué tuitou pedindo que todos estejam juntos ;mais do que nunca; e ofereceu ;todo apoio aos atingidos por essa barbárie;.



Eu estava lá

Patricia Cristina dos Santos Amaral, 32 anos, professora de comércio internacional, natural de Curitiba



;Eu vi tudo acontecer em questão de segundos. Vi a pessoa que dirigia a van. Quando começou a atropelar os pedestres, não conseguia identificar se o motorista estava bêbado ou louco. Foi então que pensei: ;É um atentado;. Vi crianças mortas no chão e no colo dos policiais. Havia pessoas feridas, sem ninguém para atendê-las. Foi uma cena terrível. Não há palavras para descrever.;


Isabel Roggia, 34 anos, doutoranda pela Universidade de Barcelona, natural de Caiçara (RS)



;Fiscamente, estou muito bem, mas um pouco abalada psicologicamente. A gente nunca imagina que um atentado ocorrerá tão perto. O centro de Barcelona virou um caos. Fiquei em choque, sem saber o que tinha acontecido. Somente depois de

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação