Trabalhador contra trabalhador

Trabalhador contra trabalhador

Adriana Bernardes
postado em 31/08/2017 00:00
O impasse entre os trabalhadores do transporte público e os empresários ganhou uma trégua até a próxima segunda-feira, graças ao Tribunal Regional do Trabalho da 10; Região. Em reunião ficou acordado que, até o próximo encontro, os rodoviários não fariam paralisação como a de segunda-feira, quando paralisaram 100% da frota.
No movimento desta semana, os representantes do sindicato acusam a mídia em geral de divulgar matérias colocando a população contra a categoria. Como se isso fosse necessário. Mais de 1 milhão de usuários acordaram na segunda-feira e foram surpreendidos pela falta de ônibus. O sindicato descumpriu dois pontos da lei de greve: não manteve os 30% do serviço, considerado essencial, nem notificou a empresa sobre a paralisação.
O direito do trabalhador à greve é indiscutível e, em muitos casos, o único instrumento capaz de fazer o patrão negociar aumento salarial, melhoria de benefícios das condições gerais de trabalho. Ao parar os veículos, os rodoviários impuseram aos patrões a perda do faturamento do dia. Conseguiram visibilidade para as suas causas graças ao caos que ficou a cidade: trabalhador sem ônibus, patrão sem empregado ; logo outros setores da economia também foram afetados e não somente os donos dos ônibus ; congestionamento nas ruas e filas longas no metrô.
A antipatia de uma parcela da população, no entanto, não se deve à cobertura da mídia. Mas à falta de respeito dos rodoviários com outros trabalhadores. Certamente, se tivesse sido avisada, parte dos usuários teria se organizado. E já sairia de casa prevendo os problemas para se locomover. Se não tivesse sido surpreendida, talvez mais gente apoiasse os motoristas e cobradores na sua luta de classe.
A trégua até a próxima semana pode servir para as lideranças refletirem sobre as estratégias de luta. Sem dúvida a paralisação surpresa e com 100% da frota parada teve como resultado grande impacto no Distrito Federal. Mas foi às custas do direito de milhares de outras pessoas. Trabalhadores como eles. Gente que não tem dinheiro para pagar os piratas inflacionados. Nem táxi, nem carros de aplicativos. Gente que não é atendida pelo metrô. Que sofre diariamente com um serviço de transporte público de péssima qualidade: caro, demorado e sem pontualidade.

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