Escalada belicista

Escalada belicista

Trump afirma que conversar com o regime de Pyongyang %u201Cnão é a solução%u201D, mas Pentágono prioriza diplomacia. Kim Jong-un promete mais lançamentos de mísseis sobre o Pacífico e aponta Guam como alvo. Japão e Coreia do Sul querem elevar pressão a %u201Cníveis extremos%u201D

KCNA/AFP » RODRIGO CRAVEIRO
postado em 31/08/2017 00:00
 (foto: KCNA/AFP)
(foto: KCNA/AFP)


O primeiro alerta foi dado em 30 de junho, ao avisar que ;a paciência acabou;. A nova mensagem, publicada ontem no Twitter, sugere o pessimismo da Casa Branca em relação a uma saída negociada para a tensão na Península Coreana. ;Os Estados Unidos estão conversando com a Coreia do Norte, e pagando dinheiro de extorsão, há 25 anos. Conversar não é a solução;, escreveu o presidente Donald Trump. Poucas horas antes, o Conselho de Segurança (CS) da ONU havia condenado, por unanimidade, o lançamento de um míssil norte-coreano que cruzou o espaço aéreo da ilha japonesa de Hokkaido, na manhã de terça-feira. Os 15 países-membros acordaram que as recentes ações e declarações públicas de Pyongyang ;deliberadamente minam a paz e a estabilidade regionais;.
Se Trump demonstrou confiança nenhuma na via diplomática, os sinais emitidos por Kim Jong-un foram desafiadores. Ao ignorar as Nações Unidas, o ditador norte-coreano afirmou que o lançamento de terça-feira foi ;o primeiro passo da operação militar do Exército Popular da Coreia no Pacífico e um significativo prelúdio para conter Guam; ; segundo ele, a ilha pertencente aos EUA é o próximo alvo. ;É necessário seguir adiante com os trabalhos que ponham nossa força estratégica sobre uma base moderna, mediante mais exercícios de lançamento de mísseis balísticos, com o Pacífico como objetivo;, disse Kim.
Jim Mattis, secretário de Defesa dos EUA, se reuniu ontem com o colega sul-coreano, Song Young-moo, e fez uma declaração que indica confusão na estratégia de Washington frente a Pyongyang. ;Nunca descartamos as soluções diplomáticas;, assegurou. ;Continuamos trabalhando juntos, e o ministro e eu compartilhamos a responsabilidade de garantir a proteção de nossas nações, nossos cidadãos e nossos interesses;, garantiu. Por sua vez, Rex Tillerson, chefe de diplomacia do governo norte-americano, condicionou eventuais negociações com o regime comunista à abordagem da desnuclearização da Coreia do Norte. No rascunho da declaração redigida pelos Estados Unidos, o Conselho de Segurança insta Pyongyang a ;abandonar todas as armas nucleares e os programas nucleares existentes de maneira completa, verificável e irreversível;.
Na tentativa de forçar o retorno de Pyongyang à mesa de negociações, o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, e o primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, conversaram ontem por telefone e concordaram em exercer ;níveis extremos de pressão; sobre Kim. Os dois líderes defendem que o CS aprove uma resolução com sanções mais efetivas e diretas contra a Coreia do Norte.

Confusão

Em entrevista ao Correio, Abraham Denmark, diretor do Programa Ásia do Centro Internacional para Acadêmicos Woodrow Wilson (em Washington), destacou o tom destoante de Trump em relação aos dois assessores próximos. ;Isso sugere que o governo do republicano ainda não estabeleceu uma estratégia para os temas de segurança mais urgentes enfrentados pelos Estados Unidos. Tal confusão apenas encoraja o mau comportamento de Pyongyang e mina a confiança dos aliados nos EUA;, observa o ex-subsecretário de Defesa dos EUA para o Leste da Ásia.O sul-coreano Won K. Paik, cientista político da Universidade Central de Michigan, adverte que existe uma ;linha muito tênue; separando a exibição de força do uso de poderio bélico. ;Trump está enviando uma mensagem difusa para a Coreia do Norte. Eu espero que ele não seja louco o bastante para lançar um ataque preventivo contra Pyongyang, mas essa tem sido a política oficial dos EUA desde os atentados de 11 de setembro de 2001. Se a Coreia do Norte empreender uma ofensiva contra Guam, a tensão pode escalar;, comentou à reportagem. Ele aposta que Kim Jong-un testará mais mísseis e, provavelmente, fará o sexto ensaio atômico. O especialista vê as posições da Coreia do Sul e do Japão como mais frágeis, pelo fato de não poderem lançar mão da dissuasão nuclear. ;Tóquio é muito mais sensível e vulnerável a um ataque norte-coreano, especialmente depois que um míssil sobrevoou uma de suas ilhas. Se a situação se agravar, o cenário pode empurrar Japão e Coreia do Sul à proliferação nuclear, o que tornaria o arsenal de Pyongyang obsoleto;, disse Paik.

TUITADAS
;Os Estados Unidos estão conversando com a Coreia do Norte, e pagando dinheiro de extorsão, há 25 anos. Conversar não é a solução;

Donald Trump, presidente dos Estados Unidos



Eu acho...
;Os Estados Unidos ainda têm várias opções para lidar com a Coreia do Norte. Eles podem continuar intensificando a pressão econômica, por meio da Organização das Nações Unidas e unilateralmente ; de forma concertada com aliados e parceiros. Também podem começar a engajar diplomaticamente Pyongyang para que o regime congele os programas de mísseis e nuclear, como um primeiro passo em direção ao aprimoramento de relações.;

Abraham Denmark, diretor do Programa Ásia do Centro Internacional para Acadêmicos Woodrow Wilson (em Washington)
ex-subsecretário de Defesa dos EUA para o Leste da Ásia


Depoimento
;A confusão virou medo;

;Nós recebemos o alerta sobre o lançamento do míssil, na manhã de terça-feira, por meio de nossos celulares. Eles começaram a fazer um som de alarme em alto volume, mesmo que estivessem no modo silencioso. A reação foi de confusão. Era um novo som, diferentemente dos anúncios de terremoto, que às vezes recebemos. Nada ouvimos como aquilo. Quando lemos a mensagem, a confusão se transformou em medo. A mensagem estava disponível apenas em japonês e nos aconselhava a procurarmos um abrigo, de preferência subterrâneo, porque um míssil tinha sido lançado pela Coreia do Norte. Também afirmava que, se encontrássemos pedaços do míssil, deveríamos manter distância e telefonar para a polícia ou para os bombeiros. Nossa reação foi sair da cama e acompanhar o noticiário pela TV.;

Dominic Donegan, 36 anos, morador de Ibaraki, na ilha japonesa de Honshu, ao sul de Sapporo (Hokkaido)

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