Numa sociedade mais civilizada

Numa sociedade mais civilizada

postado em 31/08/2017 00:00



O atual envolvimento com o primeiro roteiro de cinema (a ser filmado em 2018) é projeto a longo prazo para a autora Martha Medeiros que, com a atual exibição do longa Doidas & santas (baseado em fragmentos da obra dela), tem o nome bem associado à sétima arte e, inevitavelmente, ao empoderamento feminino. ;Particularmente, não gosto desta palavra porque não gosto de valorizações de poder nem de nada que soe como algo arrogante, mas o que importa é o movimento, e ele continua sendo vital para termos uma sociedade mais civilizada;, explica Martha, sempre lembrada pela inspiração para o roteiro de Divã, protagonizado por Lília Cabral.

Se assume já ter levantado bandeiras ; entre as quais a ideia pró-liberação do aborto ; Martha destaca que não escreve ;com uma adaga entre os dentes;. ;Não sou movida à raiva e não acho que eu tenha alguma missão a cumprir. Apenas me expresso do jeito que sei e me considero privilegiada por minha voz repercutir sem eu precisar berrar;, comenta.



O tal empoderamento é um conceito ainda abstrato ou há indícios de sua absorção? Quais as pequenas vitórias que têm sentido, nessa guerra, no dia a dia?
A luta por direitos iguais é antiga, já a palavra empoderamento é atual, ou seja, ela batiza uma espécie de ;renovação de votos; que caiu nas graças da mídia, o que é sempre bem-vindo quando se quer chamar a atenção para uma causa necessária. Não vejo como guerra, e sim como algo natural: mais do que palavras de ordem, são nossas atitudes que pavimentam as vitórias femininas do dia a dia, que nunca são pequenas. Dispensar a companhia de um homem violento, ter filhos se quiser, correr atrás da independência financeira desde cedo, não comprar a ideia de que a solidão é um bicho papão, fazer apenas o que tem vontade e não por uma obrigação convencionada... Tudo isso faz parte do processo de se tornar um ser humano respeitado, independentemente de gênero.



Viver no machista Rio Grande do Sul exigiu que redobrasse teus esforços em te fazer visível? Você defende bandeiras nos teus escritos?
Nunca parei um segundo pra pensar: sou mulher, então terei que me esforçar mais. Sempre me esforcei muito ; e me esforço até hoje ; porque sei que qualquer trabalho de qualidade exige dedicação, exige foco. Nunca entrei numa livraria pensando: ;quero comprar um livro escrito por uma mulher; ou ;quero comprar um livro escrito por um homem; ; eu quero boas histórias e bem escritas, ponto. Imagino que a maioria dos leitores queiram o mesmo. Nunca tive a pretensão de ser a porta-voz de nada nem de ninguém. Escrevo sobre assuntos que me interessam e que acredito que ajudarão a sociedade a refletir sobre eles, e essa sociedade é sempre heterogênea e unissex no meu ponto de vista.



Você consegue ver o encontro das tuas verdades escritas, na transposição feita para o cinema?
Não tenho tanta experiência assim com cinema, apenas dois filmes foram feitos baseados livremente em textos meus. O ótimo Divã, roteirizado por Marcelo Saback, ainda mantém certa fidelidade ao livro, já Doidas e Santas mantém-se fiel à peça de teatro roteirizada por Regiana Antonini e apenas colhe fragmentos de crônicas que publiquei em jornais. Eles revelam uma parte do meu trabalho, apenas. Minhas questões pessoais mudaram bastante nos últimos anos, tornaram-se mais amplas. Então, o que vejo nos filmes hoje é uma palhinha do que já escrevi. Há muito mais a ser mostrado nas telonas.

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