Ferida que não cicatriza

Ferida que não cicatriza

Passadas três décadas, das 22 vítimas com lesões na pele por causa do césio, cinco ainda sofrem com inflamações, duas de forma mais grave

NATÁLIA LAMBERT GUILHERME GOULART
postado em 03/09/2017 00:00
 (foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
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(foto: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press )




Em 23 de setembro de 1987, durante um almoço na casa da mãe, Ernesto Fabiano recebeu do irmão Edson uma pedrinha branca, do tamanho de um grão de milho, com a promessa de que, à noite, veria um lindo brilho azul. Sem dar importância, Ernesto colocou-a no bolso da calça e caminhou 15 minutos até em casa. Ao chegar, pôs aquilo na gaveta de um criado-mudo. Mas o tempo em contato com o césio 137 foi suficiente para desenvolver uma ferida na coxa direita. Trinta anos depois, ela não cicatrizou. ;Os médicos disseram que, se tivesse passado mais meia hora, teria perdido a perna. Perdi osso, músculo, nervo. Machuca de dentro pra fora.;

Poucas horas depois, Ernesto começou a sentir os efeitos da radiação: náusea, tontura e um ;trem que ia e voltava na perna;. No dia seguinte, notou um inchaço na coxa, como uma picada de inseto. No hospital, tratou-se a lesão como queimadura. Mais tarde, o estranho diagnóstico foi contestado pelo irmão Edson e pela cunhada, Santana, que, naquele momento, também se sentiam mal e haviam escutado que a tal pedra seria radioativa. ;Quando o Edson falou para a minha mulher, a Dalva, que aquela pedra era radiação, ela a pegou e jogou no vaso sanitário. Ela (a pedra) contaminou a casa todinha. Perdemos tudo. Saímos com a roupa do corpo;, relembra Ernesto.

A família é uma das vítimas da tragédia do césio 137, em Goiânia. A casa de Edson dividia muro com o ferro-velho de Devair Alves Ferreira ; o homem que, encantado com o pó brilhante que saía de uma sucata comprada de dois catadores, compartilhou a novidade com vizinhos, parentes e amigos. Ernesto esteve no grupo de 12 pessoas encaminhadas ao Hospital Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, para tratamento intensivo. Lá, morreram as primeiras quatro vítimas: Maria Gabriela Ferreira, 37 anos, esposa de Devair; Leide das Neves, 6, sobrinha do casal; Israel Baptista dos Santos, 22; e Admilson Alves de Souza, 18, funcionários do ferro-velho.

Para Ernesto, os últimos 30 anos foram de dor. Passou por 13 cirurgias na perna e, em alguns momentos, a morfina era obrigatória. ;Fui desenganado, queriam amputá-la. Hoje, eu tô bem, tô vivo. Não sou feliz como era antes. Sorrio quando tenho de sorrir e pronto. Ficou uma sequela, uma dor que não acaba. No corpo e na cabeça;, conta o aposentado, que, aos 76 anos, não aceita ser fotografado ou filmado para não reviver o pesadelo de ser chamado de ;irradiado; na rua.

Ernesto, segundo o Centro de Assistência ao Radioacidentado (C.A.R.A.), a antiga Superintendência Leide das Neves (SuLeide), é uma das duas pessoas que têm feridas crônicas que insistem em reabrir. Além deles, três pacientes dos 22 que tiveram síndrome cutânea da radiação sofrem, esporadicamente, com lesões. ;Estamos atentos a esses pacientes. É uma vigilância constante por 30 anos e não vai parar aqui;, diz o médico José Willian de Oliveira, que atende essas pessoas há 29 anos.

Esquecidos

Entretanto, os serviços oferecidos pelo C.A.R.A., vinculado à Secretaria de Saúde de Goiás, estão na lista das reclamações dos envolvidos, principalmente, os do grupo 3 (veja quadro) ; só os do 1 e do 2 têm direito à assistência a qualquer instante. O presidente da Associação dos Contaminados, Irradiados e Expostos ao Césio 137 (Aciec), João de Barros Magalhães, critica a diferença de tratamento. ;Nós só vamos lá uma vez por ano para provar que estamos vivos. Não tem assistência, medicamento. Por que a junta médica não faz um relatório dos remédios que precisamos para a gente conseguir no estado?;, indaga.

João queixa-se, ainda, da falta de reconhecimento. À época do acidente, ele era motorista do Consórcio Rodoviário Intermunicipal (Crisa) e transportou rejeitos. Os dois irmãos, Aparecido e Bento, trabalharam na retirada do entulho. A mãe, Domingas, lavava os macacões dos filhos. Nenhum deles é, oficialmente, vítima. A situação se repete em diversas famílias que brigam na Justiça por uma pensão de R$ 788, hoje defasada em relação ao salário mínimo. Mais de 300, no entanto, conquistaram pensões a partir da lei 14.226, de 2002.

O diretor-geral do C.A.R.A., André Luiz de Souza, explica que 112,8 mil pessoas foram monitoradas no Estádio Olímpico de Goiânia, no período mais crítico do acidente. Ali, 249 apresentaram algum grau de radiação. O grupo foi orientado a trocar de roupa e de calçado. Em uma nova medição, 129 foram direcionadas para atendimento. ;Eles dizem que são vítimas, mas o Estado os considera trabalhadores. Alegam que entraram nas áreas contaminadas, só que quem garante para o estado que a área estava descontaminada são os profissionais da Cnen. É uma polêmica. A gente os respeita;, diz André Luiz.










Depoimento


Preconceito desde a infância

FLÁVIA MAIA


Para muitos goianos, o acidente com o césio 137 se tornou um passado distante. Após 30 anos, as memórias foram se esvaziando pelas ruas do Centro e do Setor Aeroporto, principais cenários da tragédia. Aos poucos, a história, sempre acompanhada pelo Correio (veja fac-símiles), foi sendo enterrada com as vítimas. Aqueles que guardam as cicatrizes tornaram-se vozes solitárias. Tenho 30 anos, assim como o maior acidente nuclear em área urbana do mundo. Crescer após o incidente me permitiu ver como a história se distanciou do goianiense. O ;deixar de lado; pareceu o caminho mais confortável para lidar com o preconceito e com o medo espalhado pelo césio.

Lembro-me do pavor de parentes que viviam fora de Goiás. Muitos ficaram anos sem nos visitar. Quando questionada por telefone, a minha vó sempre dizia que estava tranquilo e que ;não foi tudo isso;. A pouca informação gerou preconceito e negligência. Em 1987, o Brasil vivia a retomada da democracia e existia ; e ainda existe ; um esforço do governo local em mostrar eficiência e controle.

Na vizinhança onde a cápsula foi aberta, pouca coisa mudou. Os imóveis continuaram habitados. As crianças seguiram crescendo. Tenho amigos criados na rota do césio que só entenderam o perigo depois de adultos. O hospital abandonado deu lugar a um Centro de Convenções. Na prática, o caminho do esquecimento contou com a ação direta do governo goiano.

A escola foi o ambiente onde mais ouvi falar do césio 137, do acidente e de suas consequências. Tornou-se matéria obrigatória. Mas o tratamento era dado quase com a mesma impessoalidade com que estudávamos o acidente nuclear de Chernobyl, na antiga União Soviética. Em um ou outro trabalho escolar, nos debruçávamos a pesquisar sobre o que, de fato, ocorreu na nossa cidade. Apenas uma vez visitamos Abadia de Goiás, onde o

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