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Sinais de fim da recessão sugerem que as pessoas se cansaram do que está aí e foram cuidar da vida

por Antonio Machado machado@cidadebiz.com.br
postado em 03/09/2017 00:00
O PIB da exaustão

O mapa do desempenho da economia no segundo trimestre divulgado na sexta-feira aclara duas questões-chaves sobre a tendência política até as eleições de 2018. Ambas estão relacionadas. A primeira é que a economia está em ascensão, saindo da recessão. A segunda responde ao enigma sobre a razão de as ruas pararem de rugir contra ;tudo isso que está aí; depois da queda de Dilma Rousseff. O povo cansou.

As pessoas foram cuidar da vida, pois, se não fosse isso, a economia seguiria prostrada, apesar de as denúncias sobre corrupção entre os governantes passados e atuais não pararem de pipocar e a reação das corporações do funcionalismo contra as reformas para mudar o curso do que fez o crescimento econômico capotar: o peso estéril do setor público, cada vez mais indiferente à realidade de um país ainda em construção, e a exaustão do modelo petista depois da crise de 2008.

Em vez de abrir espaço para a expansão privada, acentuou a tutela sob a forma de reserva de mercado, crédito subsidiado, desoneração de impostos, voltados ao consumo interno, confiando em que a volta do emprego puxasse os salários, revigorasse a demanda doméstica e, como grande desfecho, pusesse a roda do investimento para rodar. Em certa medida, poderia ter dado certo, se houvesse outras decisões.

A principal é que o investimento deveria atender a demanda interna alinhada ao que fosse demandado pelo mundo ; e isso acompanhado da melhoria da oferta de logística, de energia e mais a sofisticação da base produtiva. O boom das commodities, com o crescimento febril da China até 2012, tirou tais preocupações de cena, expondo o país nadando pelado depois que estourou a bolha dos grãos e minérios.

O país foi apanhado com elevado deficit nas contas externas, tinha uma indústria sem preço para exportar, gastos públicos excessivos e rígidos e carga tributária no limite do bom senso. Com um histórico ruim de crises cambiais, o mercado puxou o freio e o governo Dilma fez o que lhe exigia a urgência: induziu um arrocho de crédito para cortar a demanda por importações e reduzir assim o deficit externo.

Mas, com a base industrial sem preços nem câmbio para exportar, o movimento acentuou o viés recessivo. O que se seguiu é o custo dos erros de governos ruinosos, cuja fatura levará anos para saldar.

Imitadores sem talento

Teria sido diferente, assemelhando-se à resposta dada pela maioria dos emergentes à crise de 2008, se o governo Lula tivesse dirigido a folga fiscal derivada do ajuste das contas públicas na gestão de FHC para promover o investimento em infraestrutura, não para bombar os programas de transferência de renda e subsidiar o setor privado.

Até tentou, mas pela ótica dirigista dos negócios privados, o que criou as bases do rentismo que estraçalhou as finanças do Tesouro e as relações especiais com grupos empresariais, especialmente com os empreiteiros. E isso quando, sob o impacto do mensalão, foi buscar a reeleição em 2006 apoiado nos partidos fisiológicos, como o PMDB, nos sindicatos da elite federal e nos tais movimentos sociais.

Tudo isso, dos empreendedores de esquemas nebulosos às corporações sedentas de poder e privilégios, minou o Tesouro sem contrapartida de expansão efetiva do PIB, enfraquecido também por uma miríade de obras públicas mal concebidas, superfaturadas ou inexequíveis.

Retomada é consistente

O que melhor se fez um ano atrás, com o afastamento de Dilma, não foi um programa econômico redentor, longe disso, mas um movimento para mudar o status quo de uma economia que queimava suas reservas vitais como o sujeito que vende o almoço para pagar o jantar. Esse é o mérito do governo de Michel Temer, estampado na volta do PIB.

A retomada é consistente. A retração da taxa acumulada em quatro trimestres do PIB, em relação a igual período anterior, caminha em direção ao território positivo. Saiu de -4,8% no 2; trimestre de 2016, o ponto mais baixo, para -4,4% no trimestre seguinte, -3,6% no 4;, -2,3% no 1; trimestre de 2017 e -1,4% no 2;. É possível que chegue ao fim de dezembro com expansão positiva em torno de 1%.

O embalo para cima se deve à retomada do consumo, corroborado pela recuperação do emprego, ainda que informal em boa parte, e graças à melhora do poder aquisitivo com o colapso da inflação. Não se trata de reversão firme, que só virá com o investimento, mas é o início.

O voto pelo crescimento

Reformas como a do teto do gasto público e a trabalhista, tal como a da mais importante delas, a da previdência, que encruou devido às denúncias contra Temer, são necessárias, mas subsidiárias para que se relance o crescimento. Só o investimento dará consistência a um novo ciclo de desenvolvimento e aí há muito por fazer, sobretudo para transformar em poupança fiscal o gasto corrente com o custeio da máquina pública e a sustentação de programas tornados gravosos.

Mas isso será missão do futuro governo e dependente da escolha que fizermos. O ônus do voto equivocado terá implicações inimagináveis.

É mais prudente esperar

Um novo ciclo longo de criação de riqueza com inclusão social é a demanda subjacente à rejeição da sociedade aos partidos e aos nomes cogitados à sucessão de Temer. Nenhum entusiasma. E há riscos nesta eleição nada desprezíveis, já que ela se dará sob forte crítica aos desvios morais do setor público, que pode ser tomado como expressão do que não é: o Estado nacional. Não se deve demonizá-lo, mas tirá-lo do jugo da burocracia, dos partidos e dos mercadores de ilusões.

Isso é essencial entender, já que o crescimento sustentado depende de investimentos maciços cujo funding, até a volta da confiança do capital, terá de vir do crédito público, dado o deficit fiscal ; e cercado de garantias para que não se repitam os desvios habituais.

Um programa assim ainda não surgiu nem se identifica quem saberia liderá-lo com conhecimento de causa e isenção. Saúde-se o início do fim da recessão. Mas é prudente guardar os fogos para depois.

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