Exorcizar o passado

Exorcizar o passado

Donald Trump se apressa em responder aos danos causados pela tempestade Harvey e tenta evitar erros de Bush após furacão Katrina

Rodrigo Craveiro
postado em 03/09/2017 00:00
 (foto: Thomas B. Shea/AFP)
(foto: Thomas B. Shea/AFP)



É tudo o que presidente Donald Trump espera, no primeiro grande desafio de seu governo: não cometer os erros do também republicano George W. Bush, que demorou demais para suspender as férias e para comandar a resposta à catástrofe provocada pelo furacão Katrina (veja mapa). No último dia 25, enquanto a tempestade tropical Harvey começava a golpear o Texas, o magnata iniciou um bombardeio de mensagens pelo Twitter, por meio das quais garantia que supervisionava a tormenta. ;Acabo de chegar a Camp David, de onde estou monitorando o trajeto e as ações do furacão Harvey;, escreveu. No dia seguinte, tornou a assegurar que seguia vigiando o fenômeno: ;Não estamos deixando nada ao acaso. Governos municipais, estaduais e federal trabalhando bem juntos;. Na terça-feira e ontem, ele visitou o Texas e prometeu uma doação pessoal de US$ 1 milhão. Na primeira medida efetiva de reação ao desastre, pediu ao Congresso a liberação de ajuda emergencial de US$ 5,9 bilhões para reparar cerca de 100 mil casas afetadas em Houston ; pelo menos 30 mil moradores estão refugiados em albergues.

Cientista político do Instituto de Política Pública Baker da Universidade Rice, em Houston, Mark P. Jones afirma ao Correio que Trump tem conseguido evitar os erros iniciais cometidos por Bush. ;As medidas anunciadas até o momento são retóricas, pois o Congresso precisa aprovar a legislação de socorro emergencial. Como a maioria dos congressistas republicanos parece relutante em ampliar os gastos com o Harvey sem cortar despesas com outros itens, os bilhões de dólares que Trump queria para iniciar a construção do muro na fronteira com o México terão que ser colocados de lado ou impedirão os esforços para a obtenção de fundos necessários para a reconstrução pós-inundações;, explica. O especialista alerta que, se o presidente levar adiante a decisão de pôr fim ao Daca ; programa que permite a centenas de milhares de jovens imigrantes ilegais permanecer nos EUA ;, ele devastará o futuro de 30 mil texanos em áreas impactadas pelo Harvey.

Jones não tem dúvida de que haverá controvérsias políticas em relação ao montante de verbas federais necessárias para mitigar a catástrofe e ao prazo de disponibilização do dinheiro. ;Trump se deslocou até o Texas, o que foi um bom começo. Ele elogiou as agências governamentais locais e estaduais, o que também é positivo. Inicialmente, disse pouca coisa que servisse de consolo e de simpatia pelas vítimas, o que não é bom;, diz à reportagem Henry W. Brands, historiador da Universidade do Texas em Austin.





Egocentrismo
Boris Heersink, cientista político da Universidade Fordham, em Nova York, concorda que Trump parece empenhado em não cometer os mesmos erros de Bush. ;O desastre causado pela tempestade Harvey é de proporções extremas, e a situação permanece muito confusa em relação ao número de vítimas e à ajuda adequada aos sobreviventes. Até agora, Trump parece não ter cometido grandes erros, mas o processo será longo.; Por sua vez, Richard Skinner, professor de ciência política da Universidade Johns Hopkins (em Washington), critica a postura egocêntrica de Trump. ;Ele tentou se colocar como o centro da história envolvendo a tempestade Harvey e viajou para Corpus Christi e Austin quando ainda era cedo demais para isso. A maior parte dos americanos não esperava uma postura de liderança por parte de Trump. Normalmente, o papel de um presidente, depois de uma tragédia, é expressar o luto e a solidariedade da nação. Não acho que ele seja bom nisso.;

Moradora de Houston há 13 anos, a dona de casa sul-mato-grossense Rosana Holden, 43, tem passado os últimos dias tirando fotos e analisando os danos. ;Perdemos tudo. Minha casa acabou, e três carros também foram cobertos pela água;, afirma. ;Minha expectativa é de que Trump nos ajude a resolver essa situação. Sei que ele veio ao Texas e falou que vai liberar verbas.; A brasileira denuncia que amigas não obtiveram resposta das agências federais ao tentarem tirar dúvidas sobre o seguro. ;Sei que famosos injetaram muito dinheiro, mas ninguém teve acesso a nada.;



Pontos de vista



Por Mark P. Jones
Correção de rumo

;A catástrofe permitiu a Donald Trump parecer ;presidencial;, enquanto chefe de Estado e presidente de todos os norte-americanos, não somente daqueles que votaram nele. Durante os primeiros oito meses de sua gestão, ele pareceu quase que exclusivamente como chefe de governo, sob o melhor prisma, e como um candidato ainda em campanha, pela pior perspectiva. Agora, Trump tem a chance de se parecer como um presidente de todos os americanos. Ele está fazendo um trabalho muito bom nesse sentido. Enquanto a maioria dos texanos votou em Trump, a maior parte dos moradores de áreas devastadas pela tempestade tropical Harvey apoiou Hillary Clinton.;

Cientista político do Instituto de Política Pública Baker da Universidade Rice, em Houston




Por Boris Heersink
Peso do partidarismo

;É possível que o gerenciamento ante um desastre ajude a popularidade de Trump. Um trabalho ruim poderia prejudicá-lo, assim como ocorreu com Bush após o Katrina. Pessoas afetadas por um desastre dependem de suas visões partidárias para avaliar o presidente. Isso significaria que os eleitores republicanos aprovarão a resposta de Trump aos esforços de socorro pós-Harvey, enquanto os democratas a reprovarão.;

Analista político da Universidade Fordham (Nova York)










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