Refugiados ficam sem assistência humanitária

Refugiados ficam sem assistência humanitária

Fugindo da violência, minoria étnica junta-se a outros 120 mil muçulmanos que vivem em assentamentos. Governo birmanês é acusado de não permitir ação de ONGs

postado em 03/09/2017 00:00
 (foto: Suzauddin Rubel/AFP)
(foto: Suzauddin Rubel/AFP)


Enquanto milhares de muçulmanos marchavam em um êxodo com destino a Bangladesh, o Programa Mundial de Alimentos (PMA) anunciou, ontem, a suspensão da ajuda humanitária prevista para auxiliar a minoria religiosa que vive em Mianmar. Combates entre o Exército e rebeldes do grupo étnico rohingya já duram mais de uma semana, deixando 400 mortos e um grande número de desabrigados. Nesse intervalo de tempo, estima-se que 60 mil fugiram para o país vizinho, mas nem todos conseguiram entrar. Cerca de 20 mil estão na região fronteiriça dos dois países. Com a escalada da violência, o PMA teve de cancelar as operações de ajuda alimentar nos acampamentos de refugiados do estado de Rakhine, onde, desde 2012, vivem 120 mil pessoas.

Os confrontos no país asiático tiveram início em 25 de agosto, quando homens do movimento muçulmano Exército da Salvação Arakan Rohingya (Arsa, sigla em inglês) atacaram delegacias em Rakhine. Na que já é considerada a maior onda de violência contra a minoria étnica, milhares de rohingya fugiram de suas casas, com expectativa de entrar em Bangladesh, de onde são originalmente.

;Impacto humano;
Contudo, o país vizinho, que já abriga 400 mil pessoas desse grupo minoritário, não quer mais recebê-los e fechou a fronteira. Muçulmanos sunitas, eles falam um dialeto de origem bengali utilizado no sudeste de Bangladesh. Quase um milhão de rohingya vive em Mianmar, país majoritariamente budista ; boa parte está abrigada nos campos de refugiados, principalmente em Rakhine. A preocupação do PMA é que falte comida: nos acampamentos, o deslocamento é limitado, e os moradores não têm permissão de trabalhar, restando a eles a ajuda humanitária.

As organizações não-governamentais têm sido regularmente acusadas de favorecer a comunidade rohingya e agora, com a escalada da violência, foram forçadas a encerrar seu trabalho. De acordo com um comunicado da Comissão Europeia, as autoridades birmanesas rejeitam a ajuda oferecida pelos grupos humanitários estrangeiros para os deslocados de Rakhine, segundo um comunicado da Comissão Europeia. ;A propaganda anti-ONU e anti-ONGs nas redes sociais em Minanmar continua;, denunciou o texto. Segundo Pierre Peron, porta-voz da Organização das Nações Unidas (ONU) para a Coordenação de Assuntos Humanitários, a ajuda médica também não está chegando aos refugiados. ;A ajuda humanitária normalmente é enviada a pessoas vulneráveis por uma boa razão, porque dependem dela;, lamentou, acrescentando que a interrupção da assistência ;tem um impacto humano muito real;.

Ontem, foram queimadas 2,6 mil casas em Rakhine, ato atribuído pelo Exército birmanês ao Arsa. O grupo muçulmano, porém, não assumiu a autoria dos incêndios. A enviada especial das Nações Unidas em Mianmar, Yanghee Lee, expressou sua preocupação na última quinta-feira, declarando-se ;gravemente preocupada; pela situação e exigindo que se ;rompa urgentemente; o ciclo de violência.

O secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Antonio Guterres, pediu igualmente moderação às forças de segurança diante do risco de uma ;catástrofe humanitária;. Já o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, chamou a violência de genocídio e assegurou que quer levar o caso à Assembleia Geral da ONU neste mês. ;Os que fecham os olhos para o genocídio cometido sob o disfarce de democracia são seus colaboradores;, declarou, em um discurso em Istambul.



60 mil
número de pessoas da minoria étnica rohingya que deixou suas casas na última semana, em direção a Bangladesh




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