Um rúgbi cheio de histórias

Um rúgbi cheio de histórias

A modalidade em cadeira de rodas tem um forte representante no DF, o time dos Lobos Vermelhos. Eles disputam, em novembro, a Copa do Brasil. É mais uma etapa na estrada de superação da equipe

PEDRO HENRIQUE GOMES*
postado em 03/09/2017 00:00
 (foto: Fotos: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press



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(foto: Fotos: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press )







A velocidade com que as cadeiras de rodas se movem e o barulho que ecoa quando se chocam chamam a atenção de quem assiste aos treinos do time de rúgbi Lobos Vermelhos. A modalidade, que ainda inicia o sucesso no Brasil, parece bruta demais para quem se locomove de cadeira de rodas. Para Jairo André da Conceição, de 30 anos, o esporte não tem nada de violento. Na verdade, significa um novo jeito de viver. Ele é um dos atletas que entraram recentemente na equipe. Começou no início de 2016, quando um médico do Hospital Sarah Kubitschek apresentou para ele o esporte. Jairo ficou paraplégico em 2012, depois de ser atingido por nove tiros. ;Levei os tiros por conta de coisas erradas que eu mexia antigamente, mas Deus permitiu que eu vivesse para mostrar que é possível mudar de vida;, afirma.

Cada um na equipe Lobos Vermelhos tem uma história para contar. Mas, agora, os brasilienses querem fazer história no esporte que escolheram, o rúgbi. Por isso, eles se preparam para a disputa da Copa Brasil, em novembro. Em julho, foram vice-campeões da segunda divisão do Campeonato Brasileiro. O grupo, atualmente com 16 atletas, começou a treinar em 2013. Dois anos depois, formaram uma equipe filiada à Associação Brasileira de Rúgbi em Cadeiras de Roda (ABRC).

O ponto de partida para a criação do Lobos surgiu do desejo de alguns atletas do BSB Quad, clube do Gama, terem um local mais central para treinar. A Associação de Centro de Treinamento de Educação Física Especial (Cetefe), que trabalha a inclusão social de pessoas com deficiências, abraçou a ideia. Eles começaram a treinar, ainda ligados ao BSB Quad, no ginásio da Escola Nacional de Administração Pública (Enap). A primeira participação em competições veio em abril de 2014.

Wesclei Alves, de 35 anos, lembra da época de muito esforço para a equipe. Ele é um dos atletas que está desde o início. Apelidado de Macarrão pelos colegas, também tem sua história: ficou tetraplégico depois de mergulhar em uma piscina rasa, bater a cabeça no fundo e fraturar a sétima vértebra cervical. Na época, o servidor público do Ministério da Fazenda tinha apenas 17 anos. ;Foi bem complicado. Fiquei um tempo parado com os estudos. Depois, comecei a fazer fisioterapia, voltei a estudar e trabalhar. Hoje, dirijo, faço faculdade e esporte, que é muito importante para mim;, conta.

Recuperação

O esporte ajudou na recuperação física e mental de Jairo e dos demais 13 homens e duas mulheres que formam o time. Depois de perder os movimentos das pernas, ele ficou dois anos sem sair de casa. O morador do Paranoá tinha uma vida esportiva ativa. Praticava vôlei, corria e brincava de tênis de mesa. Mas, após ter ficado paraplégico, desistiu de tudo. Até que conheceu o rúgbi em cadeira de rodas.

;Eu vim, fui conhecendo os meninos e treinando até saber se eu era elegível ou não para o esporte;, diz. A vontade voltou com tudo. Decidiu retomar os estudos, que tinha largado em 2008, e agora cursa o oitavo ano do ensino fundamental. ;Isso aqui tem me ajudado muito. Não preciso andar para ser feliz. A vida da gente tem que seguir. Isso é o que o esporte tem me mostrado;, comenta Jairo. Tudo tem dado certo: ele e o companheiro de equipe Raphael Lucena já foram até convocados para a Seleção Brasileira da modalidade.

A equipe começou a competir com o nome Lobos Vermelhos em fevereiro de 2015. O primeiro título veio no ano seguinte, quando o time se sagrou campeão da 2; Copa de Bebedouro de Rúgbi em Cadeira de Rodas da segunda divisão. Este ano, assim como em 2016, o time conseguiu o vice-campeonato no Campeonato Brasileiro da segunda divisão e obteve o acesso para disputar a primeira. No elenco, 14 tetraplégicos e 2 paraplégicos ; somente paraplégicos com lesões em três membros podem participar do campeonato. Eles treinam às terças e às quintas-feiras, das 19h às 21h30, e aos sábados, das 15h às 18h, no ginásio da Escola Nacional de Administração Pública. E o time convida: os encontros são abertos aos interessados em praticar o esporte.

* Estagiário sob a supervisão de Leonardo Meireles


;Isso aqui tem me ajudado muito. Não preciso andar para ser feliz. A vida da gente tem que seguir. Isso é o que o esporte tem me mostrado;

Jairo André da Conceição, atleta




Saiba mais

Há quase 50 anos

O rúgbi em cadeiras de rodas surgiu no Canadá, em 1970, desenvolvido por atletas tetraplégicos. A modalidade entrou nos Jogos Paralímpicos de Atlanta-1996, como esporte demonstração. Os Estados Unidos ficaram com a medalha de ouro em duas oportunidades. A Austrália também foi campeã paralímpica duas vezes. E a Nova Zelândia, com uma conquista, completa a lista.

A modalidade é jogada por dois times de quatro atletas cada um, com oito reservas. O objetivo é passar da linha do gol com as duas rodas da cadeira e a bola nas mãos. Os jogos ocorrem em quadras de 15m de largura por 28m de comprimento e têm quatro períodos de oito minutos. O esporte tem sete classes funcionais: 0.5, 1.0, 1.5, 2.0, 2.5, 3.0 e 3.5. A soma dessas pontuações não pode passar de 8 em cada time.




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