Cidades diferentes, tragédias comuns

Cidades diferentes, tragédias comuns

Reportagem que encerra a série destaca a insegurança vivida por moradores das cidades de Formosa, Planaltina de Goiás, Águas Lindas e Santo Antônio do Descoberto. O crescimento desordenado e a ineficácia do poder público agravam ainda mais a situação

» ISA STACCIARINI » WALDER GALVÃO* » RICARDO FARIA (Especial para o Correio) » LUIZ CALCAGNO
postado em 03/09/2017 00:00
 (foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Arthur Menescal/Esp. CB/D.A Press)


A falta de planejamento urbano e o crescimento desordenado dos municípios goianos do Entorno são um dos principais motivos para a violência na região. Prefeituras não conseguem prever e ordenar as demandas da população, que só faz crescer. Bairros surgem sem que haja vagas no sistema público de ensino ou efetivo de segurança para dar conta desse boom. A falta de equipamentos públicos, espaços de convivência, escolas, hospitais e transporte, atrelado ao abandono das autoridades, é terra fértil para a proliferação do crime. Quem vive na região já se adaptou ao contexto de vulnerabilidade e, para conviver com tráfico, roubos, furtos e assassinatos, fazem silêncio.

Na última edição da série O Cinturão do Crime, a reportagem do Correio visita os municípios de Formosa, Planaltina de Goiás, Águas Lindas e Santo Antônio do Descoberto, para mostrar as consequências da criminalidade na vida dos moradores das localidades. Distantes 40km entre si, os dois primeiros municípios abrigam histórias de pessoas transformadas pela violência urbana. Sobreviventes lutam para se recompor, mas nem sempre resistir é uma opção.

Servidora licenciada da Prefeitura de Formosa, Marilene Pereira dos Santos, 50 anos, ficou devastada quando a droga tirou dela, em 15 dias de diferença, dois dos cinco filhos. O primeiro morreu aos 20, com 18 tiros de pistola, e o segundo, de 18, foi assassinado à queima roupa no sofá de casa. Dos três que restaram, um está preso e os outros ela tem pouco tem contato. A própria Marilene encontrou nas drogas uma forma de anestesiar a dor. Usou maconha, cocaína e não resistiu ao crack. Morou na rua, vendeu tudo e se endividou. Nunca se livrou do vício. Hoje, vive com um companheiro, também viciado, e escreve poemas para aliviar o fardo. ;Vi na pedra a saída para a depressão. O meu refúgio foi o crack. Não sei nem como estou viva;, lamenta.





Vítima de latrocínio

A 40km dali, em Planaltina de Goiás, em um bairro pobre de terra batida, Daiane Cristina da Silva Xavier, 28 anos, chora ao lembrar da mãe, Lourdete Maria da Silva Xavier, 53 anos. Ela perdeu a vida durante um roubo à residência do irmão de Daiane, no Jardim Paquetá. Acompanhada da neta de 4 anos, Lourdete preparava-se para tomar um banho quando se deparou com o criminoso. Ele arrombou o lote pela porta dos fundos e, antes de fugir, esfaqueou a vítima, que morreu no local. ;Ela não fazia mal a ninguém, mas foi assassinada mesmo assim. Minha filha de 4 anos presenciou tudo e ficou marcada de sangue;, recorda.

O assaltante foi preso horas depois, acabou solto, mas voltou para a prisão por ter cometido um estupro, também em 2013. As marcas da perda resistem em Daiane até hoje. Ela passou a ter medo de andar na rua e só deixa as filhas de 8 e 4 anos brincarem em frente à casa quando o marido está presente. Não conseguiu sequer completar o curso técnico de enfermagem que fazia.



Medo à luz do dia

Em Santo Antônio do Descoberto, o crime é cometido, na maior parte das vezes, por adolescentes. São eles que ditam a rotina dos moradores. Dono de uma loja de artigos para bicicleta, Reginaldo da Silva, 43, não sai de casa após às 21h. ;Se queremos nos divertir, vamos para Goiânia ou Brasília. Aqui, não podemos.; Há dois anos, ele perdeu o irmão, vítima de violência. ;Depois disso, a minha vida nunca mais foi a mesma. Temos que lutar para não desistir;, revela. O comerciante tem uma filha de 21 anos e criá-la no município é um desafio à parte. ;Tememos que nossos filhos se envolvam com pessoas erradas;, diz. Apesar disso, não tem vontade de ir embora. ;Construí minha vida aqui. Tenho o direito de exigir segurança, transporte, educação e mais iluminação;, conclui.

Onze pessoas são roubadas por dia em Águas Lindas de Goiás. Cristine (nome fictício), 49, se mudou para o município há 20 anos e viu o cenário mudar. ;Quando cheguei aqui, eram poucas casas e nenhuma cercada. A cidade cresceu, e a violência também;, conta. Segundo ela, os assaltos ocorrem principalmente na parte da manhã e as mulheres são os principais alvos. ;Toda minha vizinhança já passou por uma situação assim. É até comum escutar relatos.; Outro problema apontado pela dona de casa é o transporte. ;Se a gente precisa resolver um problema em Brasília, temos que sair de casa às 6h. Fora desse horário, não passa mais ônibus;, reclama.


Cidades irmãs
Águas Lindas de Goiás surgiu na década de 1980. Conhecida como Parque da Barragem, o município goiano fazia parte de Santo Antônio do Descoberto. As cidades se desvinculam apenas em 1995, com a emancipação do antigo bairro. No entanto, a semelhança entre os locais se mantém até hoje. Como nas outras regiões que cercam o Distrito Federal, a violência é o ponto mais forte destacado entre os moradores.


Personagem da notícia


Por um novo começo

Quem se aventura no mundo do crime também tem um histórico de violência, abandono, falta de oportunidade e desestrutura. Em 2010, Dyego Caetano Rodrigues, 31 anos, tirou a vida de um homem em Buritis de Minas, depois de uma discussão. O motivo: tinha levado um tapa no rosto. Armado, Dyego atirou uma única vez. O disparo foi fatal, e ele acabou preso quatro meses após o crime. Quando conseguiu liberdade provisória, tentou mudar de vida em Formosa. Foi morar com o pai, mas não conseguiu largar a droga.

Há seis meses, vive nas ruas da cidade, mas se nega a praticar crimes. Para sustentar o vício, consegue de R$ 100 a R$ 120 por dia olhando carros, pedindo dinheiro e fazendo trabalhos temporários como pedreiro e serralheiro. ;Bebo, fumo, cheiro e uso crack. Sou dependente químico, mas não vivo em prol das drogas. A tentação é grande e a dependência é uma fraqueza, mas não faço mal a mais ninguém;, garante.

Pai de três filhos de 11, 7 e 1 ano e meio, Dyego procura ajuda. Hoje, ele é atendido no Centro Pop de Formosa, que acolhe moradores de rua e presta assistência a quem precisa. ;Já fui baleado e quase morri. Fiz um propósito de nunca mais viver atrás das grades. Lá, a gente não vive, vegeta;, reforça.


O que dizem as autoridades

David Alves Teixeira de Lima (Pros), prefeito de Planaltina de Goiás
;Sabemos que há muito o que se melhorar e estamos elaborando políticas de segurança para mudar a nossa situação. Nós temos a Guarda Municipal, que atua no t

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