O alerta das estatísticas

O alerta das estatísticas

postado em 03/09/2017 00:00
Os números da violência no Entorno são alarmantes. Por dia, 11 pessoas são assaltadas em Águas Lindas de Goiás. Na região, ocorreram 2.388 roubos entre janeiro e julho deste ano e 40 pessoas foram assassinadas até maio. O número é superior ao de Ceilândia, onde ocorreram 28 homicídios, no mesmo período. Ainda foram registrados 58 tentativas de homicídio e 20 estupros. Em Santo Antônio do Descoberto, que tem uma população de 70.950 pessoas, aconteceram 20 assassinatos. A estatística é a mesma de Samambaia, que tem a população três vezes maior. Até julho, na região, foram 471 casos de roubo a pedestres e 25 tentativas de assassinato.

Em Formosa, a situação é semelhante. Até o sétimo mês do ano, 28 pessoas foram assassinadas. No mesmo período, criminosos assaltaram 272 pedestres e a delegacia local registrou nove estupros. E os números de Planaltina de Goiás também preocupam. No total, foram 959 casos de assaltos, 28 homicídios e 15 registros de violência sexual. Especialistas apontam que o grande número de ocorrências se deve ao crescimento populacional e à falta de planejamento e de infraestrutura das regiões. É a opinião da pesquisadora e professora aposentada da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília (UnB) Suely Gonzáles.

Ela lembra que o surgimento e a expansão de municípios do Entorno eram previsíveis à época da construção de Brasília. Porém, assentar a população que viria para a região em busca de novas oportunidades nunca foi uma preocupação dos governantes e, quando não há uma previsão e um consequente planejamento, a ocupação acontece por meio de invasões. ;Esses espaços supriram a função da habitação. Os equipamentos e serviços públicos vieram depois, ou não vieram. Mas crianças precisam da escola, as famílias precisam da saúde, a população precisa de transporte público. Sem isso, há uma desorganização significativa da vida familiar. E isso abre margem para a violência e a criminalidade ;, detalha.

Professora e mestre em sociologia pela UnB, Bruna Papaiz Gatti concorda. Para ela, há, ainda, um agravamento da violência em razão do abandono do governo estadual e, com a falta de assistência, pessoas em situação de risco entram para a criminalidade cada vez mais cedo. ;No Entorno os moradores estão invisíveis para o governo. Sem acesso à educação e ao lazer;, alerta. ;O jovem também quer consumir. Quando não há perspectiva de acessos, partem para mostrar poder, seja demonstrando o que ele tem, seja o quão perigoso é para se conseguir o que quer. Sem escola, lazer e políticas públicas, quem educa é a rua e, nesses lugares, são os traficantes que dominam. Assim, os jovens vão se formando nessa vida;, avalia.


"Sem escola, lazer e políticas públicas, quem educa é a rua e,
nesses lugares, são os traficantes que dominam.
Assim, os jovens vão se formando nessa vida;

Bruna Papaiz Gatti,
professora e mestre em sociologia pela UnB

Tags

Os comentários não representam a opinião do jornal e são de responsabilidade do autor. As mensagens estão sujeitas a moderação prévia antes da publicação