Mudança por razões humanitárias

Mudança por razões humanitárias

postado em 03/09/2017 00:00
 (foto: Robson Rodrigues/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Robson Rodrigues/Esp. CB/D.A Press)

Em 2010, um catastrófico terremoto abalou o Haiti. O sismo de alta magnitude agravou ainda mais o quadro de problemas sociais e gerou uma grande evasão em direção a países das Américas Central e do Sul. Aos 43.871 haitianos ; registrados ; que desembarcaram no Brasil, foram concedidas permanências pelo governo federal em 2015. Denominado visto humanitário, difere-se do refúgio ao também contemplar pessoas afetadas por crises econômicas e ambientais, como é o caso das vítimas do terremo.


Permanente aqui, o haitiano Peguy Fils Aime, 38, é médico e atuou na profissão por três anos no governo da República Dominicana, país onde se formou pela Universidade Tecnológica de Santiago (Utesa). Veio para o Brasil há quatro anos em busca de melhores oportunidades, entretanto, sem atestar a graduação, não consegue emprego na área de formação. Aime se cadastrou no Programa Mais Médicos, que não exige validação do diploma dos intercambistas, mas ainda não foi chamado. ;O que preciso na vida é trabalhar na minha área;, desabafa. Enquanto aguarda a data da prova para validar o diploma, o profissional da saúde recorre ao trabalho informal, ensinando espanhol por menos de um salário-mínimo ao mês.


Além do idioma que leciona, é fluente em crioulo (língua nativa dos haitianos), francês, inglês e, mais recentemente, o português. Este é aprimorado nas aulas que faz há quatro meses no Neppe com a professora Lúcia Barbosa. Morador de Ceilândia Sul, Aime se sentiu muito bem acolhido pelas pessoas, mas não pelo mercado de trabalho. ;Quero encontrar estabilidade para poder ajudar as pessoas no Haiti. O Brasil é muito bom, gosto de viver aqui, é tranquilo e, para mim, é a primeira opção para se viver. Mas, se o país dá espaço para o estrangeiro, por que não dá espaço também para ele conseguir emprego?;, questiona.

Acesso ao ensino superior

A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) foi a pioneira em acolher alunos refugiados. A segunda foi a Universidade Federal do Paraná (UFPR). Na instituição paranaense, a primeira aluna desse modelo a se formar foi Lucia Loxca. Recém-graduada em arquitetura e urbanismo, a síria de 26 anos recebeu o diploma em 19 de agosto, motivo de celebração da comunidade universitária. Na UnB, o projeto Raízes visa proporcionar melhor acolhimento a alunos oriundos de comunidades indígenas e estrangeiros refugiados. A decana de Ensino de Graduação, Cláudia Garcia, em nota, reafirma a necessidade de democratizar o acesso. ;Nós, como instituição, temos a obrigação de garantir que esses estudantes não apenas ingressem, mas que também sejam bem-sucedidos em sua trajetória acadêmica.;


ONU e parceiros oferecem coaching para refugiadas

A Rede Brasil do Pacto Global da Organização das Nações Unidas (ONU) e parceiros promoveram o encerramento da segunda edição do projeto Empoderando Refugiadas. O evento ocorreu no último domingo (29) no Espaço Itaú de Cinema (Rua Augusta, São Paulo). O projeto, que oferece coaching para mulheres expatriadas gratuitamente, tem por objetivo propiciar a elas conhecimento e informações sobre o mercado de trabalho, além de sensibilizar empresas para a contratação. ;Orientamos sobre direitos trabalhistas, como se portar em entrevistas e desenhar o currículo;, explica Vanessa Tarantini, assessora de Direitos Humanos e Anticorrupção da Rede Brasil do Pacto Global da ONU e uma das idealizadoras da iniciativa.


;Como as vagas oferecidas a refugiados são mais braçais, muitas vezes as mulheres nem eram indicadas para as entrevistas.; As beneficiadas são selecionadas por meio de base de dados do Programa de Apoio para a Recolocação dos Refugiados (Parr). ;A gente busca diversidade de qualificações e requisitamos, ao selecionar, que estejam motivadas e que entendam português.; Ao longo das duas edições, participaram 80 mulheres, das quais 21 obtiveram contratação direta. Assista a um minidocumentário sobre o projeto pelo link youtu.be/_5-O3hMBt5I.

Saiba mais

Guerra na Síria
Em dezembro de 2010, o mundo árabe foi abalado por revoltas e protestos que exigiam o fim de ditaduras e ocorreram, principalmente, nos seguintes países: Egito, Tunísia, Líbia, Iêmen, Barein e Síria. No último, diferentemente dos demais, em que os ditadores foram depostos, o conflito se estendeu para uma guerra armada que, em março deste ano, completou seis anos. O objetivo de grupos rebeldes é destituir Bashar al-Assad, presidente desde 2000. A guerra se intensificou em 2013 com a interferência do grupo jihadista Estado Islâmico, que ataca tanto o governo quanto os insurgentes sírios. Segundo o Observatório Sírio de Direitos Humanos (OSDH), o conflito soma cerca de 320 mil mortos. Dos 5 milhões que conseguiram refúgio, 2.298 estão no Brasil.

Esfihaço
Milhões de muçulmanos pediram refúgio ao longo dos últimos anos na tentativa de escapar de situações adversas no país de origem. Quando conseguem abrigo em outra nação, são, diversas vezes, hostilizados. Chegam a ser chamados de terroristas, homens-bomba, assassinos e por aí vai. Mas há também aqueles que se voltam contra a intolerância religiosa oferecendo suporte às vítimas desse tipo de preconceito.
Recentemente, o sírio Mohamed Ali, 33 anos, foi insultado enquanto trabalhava como ambulante em Copacabana, no Rio de Janeiro. Refugiado, vendia esfirras quando foi agredido por outros ambulantes por ser muçulmano. O caso foi gravado e, nas redes sociais, gerou comoção. Internautas organizaram um evento no Facebook com 11 mil confirmados como forma de apoio. O ;Esfihaço;, como foi chamado, foi um sucesso e levou Mohamed a vender 3 mil esfirras. Criaram também uma vaquinha na internet para ajudá-lo a montar um foodtruck ; a meta é arrecadar R$ 20 mil. É possível ajudar pelo site www.vak
inha.com.br/vaquinha/food-truck-para-o-mohamed-ali.

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