Paulo Pestana

Paulo Pestana

por Paulo Pestana Especial para o Correio %u2014 papestana@uol.com.br
postado em 03/09/2017 00:00



Impressões pessoais

Ao fim e ao cabo, poucas palavras resumem uma vida em epitáfios. O escritor Humberto Werneck se divertiu, em uma de suas crônicas, tentando adivinhar o que alguns amigos desejariam dizer no derradeiro minuto da vida. Segundo ele, Danilo Gomes diria: ;Me tragam mais uma Antárctica bem gelada ; literalmente a saideira, a morredeira;.

O jornalista (Danilo) Leonel da Mata concorda e acrescenta que não é possível avaliar a quantidade de cerveja que seu meio xará consumiu na atual existência. Mas ninguém vive só de cerveja e Danilo Gomes, jornalista, cronista, imortal das Alterosas, vem a ser também ; e, é provável, principalmente ; um especialista na prosa de Rubem Braga, definido por ele como um sujeito que pedia desculpas pelo próprio talento.

Danilo Gomes é autor de uma tocante crônica-despedida a Rubem Braga, quando se lamentava do primeiro sábado sem o texto do cronista, um dos adversários mais ferrenhos de Brasília, como Severino Francisco lembra sempre. Para substituir Braga, escreveu, só mesmo uma... cerveja gelada no Bar do Zé, da 504 Norte ; vejam que elogio!

E Danilo ainda se lembra vivamente de um encontro com a atriz Tônia Carrero, quando ela recitou o poema Tarde, que Braga escreveu para ela.

Danilo Gomes chegou a dedicar um livro a Rubem Braga em que reúne crônicas, entrevista, fotos e depoimentos curtos sobre o cronista. É um volume de impressões pessoais, livre dos detalhes biográficos, e que mostram a admiração que o trabalho de Braga despertava.

Mas as preocupações literárias do também cronista Gomes vão além de Braga. É assim que ele lança mais um livro e que desta vez leva o nome de três personagens que se interligam na História ; Augusto Frederico Schmidt, Juscelino Kubitschek e Odilon Behrens. São textos de fã, generosos, sem medo de mostrar a admiração.

A história começa com a amizade de Schmidt e Behrens ainda em Juiz de Fora, onde estudaram no mesmo colégio, dividiam sonhos e alcança o homem que transformou o Brasil, a quem ambos serviram. Danilo Gomes não se arvora de biógrafo de nenhum dos três; a ele, basta circular pelas ideias de cada um, especialmente as registradas de próprio punho.

É o caso da qualidade da poesia e a obsessão de Schmidt com o passado ; ;que paz vem das cousas que se foram e estão sepultadas na memória;, escreveu em O galo branco. Ainda assim, era um homem que olhava para o futuro, como editor de vozes que despontavam na literatura, escritores como Jorge Amado, Graciliano Ramos e Vinicius de Moraes.

Danilo Gomes traça uma história de amizade, busca apoio nas palavras de Drummond e Manuel Bandeira, entre outros, para definir a obra de Schmidt, mas vai além. O livro traz também uma crônica sobre a construção de Brasília, que ele mistura com a própria história e sua chegada no quadradinho que costumava ver no mapa do grupo escolar em que estudava em Mariana, Minas. Ainda fica devendo falar do que sentiu ao desembarcar em terra estranha, ainda em construção, em 1975. Talvez dividindo uma cerveja.




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