Música em hibernação

Música em hibernação

Paulo Pestana
postado em 03/09/2017 00:00
Não é à toa que o cometa Halley só passe pelas cercanias da Terra a cada 79 anos ou que um eclipse total do Sol possa ser visto somente a cada 100 anos. Há 15 anos, o primeiro disco dos chamados Tribalistas, então anunciado como evento único, fez furor; vendeu milhões de exemplares, marcou a época com belas canções e um sopro de novidade na música popular. É novo até hoje. Mas nem todo fenômeno se repete.

Se aquele disco dos Tribalistas era arrebatamento total, a sequela é bem mais comportada; vem com a sensação de que nada aconteceu nesta década e meia que separa os lançamentos e que é apenas uma continuação menos inspirada. Mesmo com boas canções, é como se o tempo tivesse parado, a tecnologia fosse a mesma e a música do mundo permanecesse intacta.

O ouvinte pode perguntar como é que três grandes artistas ; Marisa Monte, Carlinhos Brown e Arnaldo Antunes ;, que, individualmente, avançaram tanto neste período parecem ter hibernado quando voltam a trabalhar juntos. O talento envolvido na produção é suficiente para garantir qualidade, algumas boas canções, sacadas inteligentes; mas algum elo foi perdido durante a hibernação do trio.

É um disco solar, otimista, com canções quase sempre em tons maiores e acordes naturais e que nasceram durante as ;férias; das carreiras solo dos três artistas. É assim, mesmo nos temas mais urgentes e politicamente mais engajados ; uma novidade temática para o grupo. Diáspora ; citando Souzândrade e Castro Alves ; fala das migrações forçadas, Baião do mundo mostra preocupações ecológicas, Lutar e vencer é sobre as recentes ocupações nas escolas, Trabalivre propõe discutir a relação entre vida e opressão.

Boa surpresa é a presença de Carminho, cantora portuguesa que mais uma vez escapole do fado e é transformada quase numa quarta tribalista, já que não apenas canta, mas aparece como compositora em duas canções ; Peixinhos e Trabalivre. Mas é o samba-rock Feliz e saudável que mostra que o disco poderia ser bem melhor, não fosse tão descontraído.

A esta nova incursão tribalista talvez tenha faltado a faísca que deu origem ao disco original; a vontade de fazer algo novo deu lugar ao simples prazer de fazer música juntos mais uma vez. Desta vez a conjunção de estrelas produziu um espetáculo bonito, correto e eficiente, mas sem o fulgor de antes.

O disco pode até inovar na apresentação e marketing ; está sendo lançado em uma plataforma streaming que permite ao ouvinte ter acesso também a informações sobre a canção e a gravação ; mas não empolga no principal. Com tanta descontração, estratégia e comunhão, faltou fazer o que eles fazem de melhor: música.



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