Esperança no combate à esclerose

Esperança no combate à esclerose

Medicamento já comercializado nos EUA oferece tratamento a uma parcela de pacientes até hoje sem opções. Remédio deve chegar ao Brasil em 2018

POR OTÁVIO AUGUSTO
postado em 03/09/2017 00:00

Apesar de ter sido descoberta em 1868, a esclerose múltipla ficou sem tratamento até o início de 1990, quando surgiu a primeira droga eficaz contra alguns tipos do mal. Quase três décadas depois, a terapia ganha novo revés com o desenvolvimento de um remédio capaz de tratar uma parcela de pacientes até então sem opções. A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) analisa o pedido de autorização para produção e comercialização de uma droga que atua no controle de duas formas da enfermidade ; medicação inédita para o tipo progressivo do mal. Caso seja aprovada, a substância poderá ser encontrada nas farmácias brasileiras já em 2018.

Uma pesquisa inédita revelou a percepção do brasileiro sobre o mal. O levantamento do Instituto Datafolha, encomendado pelo laboratório Roche, revela que 46% dos brasileiros não conhecem a esclerose múltipla. A desinformação pode levar a um tratamento tardio, o que aumenta o risco de lesões e a incapacidade do paciente. Outro obstáculo é o preconceito. O paciente de esclerose múltipla é estigmatizado como incapacitado e 60% dos entrevistados acreditam que ele deve parar de trabalhar.

O desconhecimento é tanto que, ao serem questionados, a crença de que a enfermidade só acomete idosos, é curável e hereditária ainda é uma constante. Os sintomas também confundem os brasileiros. Entre os entrevistados, 55% acreditam que os portadores da patologia apresentam problemas de memória e 46% que o sintoma mais comum é a dor de cabeça. Um erro. Há mais de uma década, o Comitê Brasileiro de Tratamento e Pesquisa em Esclerose Múltipla e Doenças Neuroimunológicas (BCTRIMS) alerta para os mais frequentes sinais que podem caracterizar a doença (leia Fique atento).

Ainda não se sabe as causas nem como frear a esclerose múltipla, uma doença altamente incapacitante. O caminho para desvendar as razões dos ataques do sistema imunológico ao sistema nervoso central ainda tem mais dúvidas que certezas. Pelo menos 35 mil pessoas no Brasil sofrem com a doença, que interfere na comunicação entre neurônios e compromete movimentos e outras funções neurológicas, como a visão. No mundo, são 2 milhões de doentes.

Ciência avança no tratamento

A nova droga é considerada por cientistas e médicos um passo de esperança. Em vez de atuar na lesão, o medicamento inibe o ataque à mielina ; substância que protege e interliga os neurônios. O organismo dos pacientes de esclerose passa a perceber a mielina como um ser estranho, dessa forma, ordena ao sistema imunológico ataques para destruir aquele corpo. Isso desencadeia inflamações cerebrais, que dão origem às sequelas. Imagine que os neurônios são fios condutores. A mielina é a parte plástica externa. Os neurônios são os cabos metálicos internos.

A ação do medicamento interrompe o ciclo de ataques. A substância, um anticorpo desenvolvido para atuar em células específicas, bloqueia as agressões e, com isso, o organismo recupera a mielina. Os cientistas consideram o remédio menos agressivo que os existentes, por preservar o sistema imunológico e a formação de anticorpos. Outras medicações para esclerose são imunossupressoras e prejudicam esse funcionamento.

Os efeitos inovadores do remédio já foram apresentados na Academia Americana de Neurologia, em Boston, e no Comitê Europeu para Tratamento e Pesquisa em Esclerose Múltipla, em Londres. Nos Estados Unidos, o remédio é comercializado desde março. A Food and Drug Administration, órgão regulador semelhante à Anvisa, baseou-se em três estudos científicos e autorizou o uso da medicação para a forma remitente recorrente da esclerose, quando ocorrem surtos seguidos por melhora total ou parcial da incapacidade gerada, e também para a progressiva, ou seja, quando há o agravamento dos deficits neurológicos continuamente.

Para comprovar os resultados do medicamento, mais de 2,2 mil pessoas fizeram uso da droga em seis estados. Além dos avanços clínicos, o medicamento investe na comodidade do paciente. Em vez de doses diárias, a droga é ingerida por via intravenosa a cada seis meses. Por não ser imunossupressora, os efeitos colaterais são mais brandos, destacam os estudos científicos.

Os remédios existentes, até então, são imunossupressores. ;O fato de ter uma medicação em que mais da metade dos pacientes tiveram inibição de novos surtos, significa aumentar a capacidade do sistema nervoso central e evitar lesões incapacitantes;, explica a gerente médica da Roche Farma Brasil, Michele França, uma das pesquisadoras do novo fármaco. Três estudos testaram a eficácia do medicamento. A droga obteve aprovação nos Estados Unidos para o tratamento das duas formas de esclerose múltipla.


Fique atento


Veja quais são os sintomas mais comuns para a esclerose

  • Alterações fonoaudiológicas, como fala lenta, voz trêmula e dificuldade para engolir
  • Visão dupla ou embaçada
  • Problemas de equilíbrio e coordenação
  • Sensação de queimação ou formigamento
  • Fadiga extrema

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