Atrás dos sonhos

Atrás dos sonhos

postado em 03/09/2017 00:00
 (foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Luis Nova/Esp. CB/D.A Press)

Único grupo brasileiro na categoria megacrew (grupos de 15 a 40 pessoas) do World Hip Hop Dance Championship, a companhia de dança Have Dreams representou o país como um dos melhores grupos de hip-hop do mundo. Apesar de não terem ganhado, eles se enxergam como vencedores pela classificação e pelo fato de terem conseguido chegar a Phoenix, nos EUA, apesar de todas as dificuldades que encontraram no caminho.

Rafael Vieira Lucas, 33 anos, criador da companhia, afirma que o momento foi a realização de um sonho e uma oportunidade de crescimento e ganho de experiência. Conhecendo a rotina de outros grupos ao redor do mundo, compartilhando dificuldades, descobrindo novas técnicas e movimentos, a Have Dreams ganhou muito.

Para o dançarino, ao chegar a esse patamar e participar de eventos internacionais, a companhia cumpre o seu destino. ;Quando escolhi o nome Have Dreams, em 2010, tinha o desejo de deixar as quatro paredes, de sair de Ceilândia, do DF e do Brasil e mostrar a nossa arte para o mundo. Ir para o campeonato é a realização de tudo que vislumbrei no passado;, comemora.

Honrando as origens, a coreografia apresentada pela Have Dreams foi toda inspirada na cultura brasileira. As referências vieram dos ritmos e das danças nacionais, e a apresentação teve identidade regional, com alguns elementos do hip-hop internacional. ;Uma forma de o público também se conectar com a nossa dança;, justifica Rafael.

Para conseguir levar 28 pessoas para a competição, o grupo fez vaquinhas, buscou patrocínio, apoio e montou uma verdadeira força-tarefa para a obtenção de documentos e recursos. O desgaste por que passaram nesse processo, garante Rafael, afetou o psicológico do grupo na apresentação. ;Corremos muito atrás e, ainda assim, nem todos conseguiram ir. Isso nos abalou muito emocionalmente. Alguns grupos que estão ali se dedicam apenas a dançar, sem precisar se preocupar com outros detalhes. Sentimos na pele a falta de apoio à dança;, lamenta.

O dançarino e professor ressalta ainda o sentimento de frustração dos alunos mais novos. ;No ano passado, também fomos e eu sabia como ia ser. Mas os mais jovens sentiram muito, pois estavam muito empolgados. É triste ver que o fato de um grupo representar o Brasil em uma competição mundial não seja visto como superimportante, porque é uma vitória enorme.;

Independentemente das dificuldades, a Have Dreams pretende fazer jus ao nome e não deixar de correr atrás dos sonhos. ;Agradeço por nunca ter desistido, pois foi assim que chegamos até aqui. Consegui provar que é possível, sim, viver de dança, mas é necessário garra. Este ano, vamos começar os preparativos com antecedência e, caso sejamos selecionados de novo, teremos mais tempo para pôr a cabeça mais na coreografia e menos na burocracia;, promete Rafael.

Balé clássico para todos

Morador de Samambaia, Rodrigo Cruz, 37 anos, encontrou sua vocação em um projeto social. Apresentado à dança aos 16 anos, ele afirma que os movimentos disciplinados do balé clássico o definiram como pessoa. ;Nesse contexto de comunidade carente, a dança colaborou para me afastar da criminalidade. Foquei no balé e ele me ajudou a construir a minha personalidade e o meu caráter.;

A importância da dança em sua trajetória pessoal fez com que Rodrigo se sentisse compelido a fazer o mesmo por outros jovens. Depois de se formar em diversos estilos ; jazz, clássico, moderno e afro ;, na Escola de Arte Meart, em Belo Horizonte, e participar de diversos espetáculos, o bailarino começou a dar aulas gratuitas de balé clássico em Ceilândia.

Como professor, Rodrigo começou a enxergar alguns jovens que se sobressaíam nas aulas, ao mesmo tempo que percebia a ausência de oportunidades profissionais que eles encontrariam na dança. ;Foi aí que tive a ideia de criar a Companhia de Dança Rodrigo Cruz, em 2012. Assim, eles poderiam se apresentar e ter o talento reconhecido, tendo a chance de viver da arte em algum momento.;

Com parcerias e recursos próprios, Rodrigo promove espetáculos e leva a companhia para competições por todo o país. ;Por meio da dança, esses jovens têm a chance de se comunicar, de se expressar e mostrar quem são. É isso que eu tenho a oportunidade de fazer também nos espetáculos que crio;, afirma.

O sucesso da companhia se sobressai, apesar das dificuldades de incentivo e de patrocínio. Para Rodrigo, a maior prova disso é o fato de que, ao longo dos anos, muitos dos seus alunos ganharam bolsas para dançar em escolas renomadas dentro e fora de Brasília. Há também os que recebem propostas de trabalho e se tornam professores de dança em academias e escolas. ;Essa é a minha maior realização: ver todo esse talento que existe na nossa cidade e que, às vezes, não tem chance de aparecer sendo valorizado. Esses jovens são o meu legado e minha missão no mundo;, completa.

Apesar de comemorar o sucesso do projeto, Rodrigo reconhece que a falta de um corpo de baile na cidade, bem como a demora para a inauguração do Centro de Dança, é um obstáculo que desestimula e faz com que muitos desistam. ;O balé clássico já é, por si só, uma dança elitizada. As aulas são caras e muitas famílias não têm condições de colocar os filhos para dançar. A falta de incentivo público dificulta ainda mais o acesso ao balé;, alerta.

Como uma das formas de diminuir as dificuldades, Rodrigo acredita que a união entre os grupos e os estilos musicais seria um grande trunfo. ;Infelizmente, ainda é tudo muito segmentado. Ficamos distantes, cada um tentando sobreviver ao seu modo, competindo por editais e pelas poucas salas da cidade. Se nos unirmos, podemos pressionar as autoridades e aumentar a influência da dança, permitindo que cada vez mais jovens se tornem adultos que vivem dela.;

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