Doce buquê

Doce buquê

Goiana domina a arte do flower cake e roda o Brasil ensinando a técnica de confeitaria, originária da Ásia, que resulta em lindos bolos decorados com flores

Por Sibele Negromonte
postado em 03/09/2017 00:00
 (foto: Fotos: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)
(foto: Fotos: Ana Rayssa/Esp. CB/D.A Press)

Há quase uma década, Amélia Lino tem vivido boa parte do tempo na estrada. Primeiro, para acompanhar o marido nas inúmeras transferências a trabalho. Depois, por conta da profissão que decidiu abraçar. Boleira de mão cheia, ela foi uma das pioneiras em introduzir no Brasil o flower cake, técnica de confeitaria, originária da Ásia, que transforma bolos em verdadeiros buquês de flores.

Desde março do ano passado, Amélia tem, literalmente, rodado o Brasil para ensinar a arte dos bicos de confeitar a alunos ávidos por aprender a técnica. E, por onde chega, tem sala cheia. Mas tudo isso ainda é novidade na vida da doceira, que, por anos, exerceu os ofícios de bancária, advogada e dona de casa.

Natural de Quirinópolis, no interior de Goiás, Amélia tinha uma vida pacata na cidade de menos de 50 mil habitantes. Até que, há nove anos, casou-se e começou a seguir o marido, que, por conta do emprego como engenheiro civil, vivia trocando de endereço. Primeiro, foi para Manaus; depois, Porto Velho. Na sequência, vieram Carangola (MG), Santa Bárbara, também em Minas, uma volta a Quirinópolis... ;Você vai encher esse bloquinho de anotações só com as cidades onde moramos;, brinca.

Entre uma mudança e outra, vieram dois filhos: Sara, de 7 anos, e Ítalo, 4. Amélia também deixou de ser bancária e passou a exercer o direito, em escritório montado em casa. Filha e neta de doceiras, porém, ela sempre alimentou a paixão pelas panelas. ;Minha mãe fazia aqueles doces de tacho e a minha avó, detalhista, produzia bolos lindos e deliciosos.; Nas festas de aniversário das crianças, Amélia não abria mão de preparar tudo pessoalmente. ;Todos amavam e eu acabava fazendo bolo para os vizinhos e os amigos, mas nunca cobrava. Era apenas um hobby.;

Até que Amélia, o marido, José Geraldo Lino, e os filhos se mudaram, em 2015, para o interior do Pará, mais precisamente para Novo Progresso, uma cidade com 25 mil habitantes, distante mais de mil quilômetros de Belém. ;A minha rua não tinha asfalto, o aeroporto mais próximo ficava a mais de 700 quilômetros. Foi um impacto muito forte;, recorda-se. Até os planos de advogar tiveram de ser adiados. ;Um dia, fui ao dentista e ele me perguntou: ;O que você gosta de fazer?;. E aconselhou: ;Você tem que arrumar uma ocupação, se não vai ficar deprimida. É o que ocorre com a maioria das mulheres que chegam aqui acompanhando o marido;.;

A essa altura, Amélia já tinha conhecido a técnica do flower cake pela internet e praticava muito em casa. Perguntou, então, à dona da academia da cidade se podia levar um bolo para as alunas degustarem. ;Caprichei. O bolo ficou lindo e todas amaram. No fim de semana, eu já tinha 10 encomendas;, lembra. A partir daí, Amélia não parou mais. ;No Natal, cheguei a preparar 80kg de massa. Trabalhava sem parar.; Mas, quando ela estava com clientela certa e muito feliz, veio a notícia: o marido seria novamente transferido. ;Chorei, porque, agora, não queria mais ir embora.; Antes de deixar Novo Progresso, Amélia ensinou a técnica a quatro amigas. E gostou de dar aulas.

Cansada de viver se mudando, a advogada decidiu voltar para Quirinópolis com os filhos, enquanto o marido seguiu para Belo Horizonte, seu novo posto de trabalho. ;Quando cheguei à minha cidade, todos acharam que eu retornaria ao direito. Mas anunciei que ia fazer bolos. A maioria das pessoas ficou chocada. Indagavam: ;como você vai deixar de ser advogada para trabalhar na cozinha?;; Até então autodidata, Amélia viu que era hora de se especializar e viajou para Barcelona, onde fez cursos para se aperfeiçoar na arte do flower cake. Voltou com outra visão e decidiu dar um novo rumo à profissão recém-abraçada: seria professora da técnica. Escolheu Goiânia para ministrar o primeiro curso.

A essa altura, o marido já não aguentava de saudades da família e Amélia fez a proposta: ele largaria o emprego e viveria de fazer bolo com ela. ;José Geraldo achou uma loucura, claro. Até que me acompanhou no curso em Goiânia. Em um único dia de aula, ganhei quase a metade do que ele tirava em um mês no emprego. Ele viu, então, que aquilo poderia ser lucrativo.;

De Goiânia, Amélia seguiu com as aulas para Brasília, Belo Horizonte, São Paulo... Quando viu, a agenda estava cheia. Ela já não conseguia produzir bolos para vender. Tornou-se professora em tempo integral. José Geraldo, que já dava uma mãozinha à mulher nas encomendas de Novo Progresso, passou a ser ajudante de Amélia nas aulas.

Hoje, eles rodam o Brasil em uma caminhonete lotada de apetrechos para confeccionar verdadeiras obras de arte em forma de bolo. ;Levo as batedeiras, os bicos, as formas. Meus alunos põem a mão na massa. A aula é toda prática e ainda forneço apostilas e vídeos para treinarem em casa.;

Amélia oferece quatro tipo de cursos, do básico ao avançado, com duração de um dia. ;Começo às 9h e só saio quando todos conseguirem executar o que foi ensinado. Já teve dia que acabou às 23h;, garante. Já no primeiro módulo, o aluno produz o próprio bolo ; da massa à decoração, com os oito tipos de flores e folhagens aprendidos.

Nas aulas, com público predominantemente feminino, José Geraldo circula desenvolto e cumpre à risca todas as ordens de Amélia. ;Ele já está ;domesticado;;, diverte-se. O casal ainda não sabe o que o futuro reserva para a família, hoje estabelecida em Quirinópolis. De uma coisa, porém, têm certeza: aproveitarão o momento. Amélia planeja a publicação de um livro que, ao lado das receitas, virá recheado de poesias, uma das muitas paixões da doceira. Um jardim de doces e letras.

Bolo Amélia Lino

(Base para rechear e confeitar a seu gosto)

Ingredientes

  • 6 ovos
  • 250g de farinha de trigo: destas 250g, 4 colheres de sopa são de amido. Complemente o restante com farinha até obter as 250g. Peneire os dois juntos, duas vezes, para incorporar.
  • 280g de açúcar refinado
  • 1 xícara de leite (ferver até levantar pelas bordas, na hora de colocar na massa)
  • 2 colheres de margarina derretida (serão inseridas no leite, ferverão juntos)
  • 1 colher rasa de fermento em pó químico
  • 1 colher de chá de baunilha branca

Modo de fazer

  • Bata os ovos inteiros. Quando obter volume e consistência (aproximadamente em 10 minutos), diminua a velocidade da batedeira para o mínimo, acrescente o açúcar devagar até formar um creme fofo.
  • Coloque o leite fervido com as colheres de manteiga e bata por 30 segundos.
  • Ligue o f

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